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Coisas de 2014: a crise hídrica de SP

O ano está no fim e é hora de dar pitacos em retrospectiva. Vamos começar pela água (ou falta dela) em SP. Todo mundo com medo da era Mad Max. É difícil conciliar a ideia. Na capital e na região metropolitana, a coisa que mais se vê é água; córrego aqui, rio ali… É estranho pensar na falta de algo que se vê em abundância. Pois é. Os mananciais de São Paulo são muitos. Mas os mananciais positivos – dos quais podemos usar água – são raros. O rio Pinheiros é um belíssimo manancial. Mas não se pode usar aquela água nem pra lavar as caldeiras das metalúrgicas.

Alguém se anima a tomar banho aí?

Alguém se anima a tomar banho aí?

E a culpa não é do Alckmin. Porque é o seu esgoto que se despeja ali. O governador não está no seu encanamento bombeando tudo que sai da privada para o rio.

A maioria das águas vistas por aqui não podem ser usadas. Você sabia disso? Vou presumir que não. É aqui que mora o perigo: no que as pessoas sabem e deixam de saber sobre o abastecimento de água. A Folha não te conta nada e o Estadão menos. Então, caro leitor, você precisa pesquisar o que acontece, pra avaliar a situação.

Não é a primeira vez que sofremos com as reservas baixas. Entre 2003 e 2004, sobrevivemos nos 20% do volume total do Cantareira. A zona Leste teve racionamento (de verdade) neste período (de repente uma pancada de criança da época entendeu porque a mãe liberou tanto ir pra cama sem banho). Na mesma época, os sistemas Guarapiranga e Alto Tietê não saíam dos 19%. O Alto Cotia, nesta época, ficou a 4% – bem menos do que tem o Cantareira agora. Não subia mais que isso. Foi difícil (não tão drástico e prolongado como agora, mas foi), mas passou. Então a gente não precisa se desesperar (tanto), pois sabemos que dá pra superar. Se tudo correr como o esperado, nos próximos anos poderemos agendar o tweet de “chove em São Paulo” todos os dias.

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Você sabe, agora, a diferença entre manobra de pressão e racionamento? Quem via a água acabar no meio do mês, sabe. Mas vou explicar pra quem nunca passou da estação Tatuapé: no racionamento, é dada uma cota de uso. Quando aquela cota acabar, acabou; você tem que se virar pra fazer durar até a renovação da cota. O Estadão e o UOL berravam racionamento a cada 2 parágrafos. Mas não era isso – não onde a SABESP estava brincando de despressurizar a água. Existem cidades que não são administradas pela SABESP e tem seu próprio departamento de águas (como Guarulhos e Itu). Algumas delas optaram por fornecimento alternado de água. Também não era racionamento. Aparentemente, ninguém sabe o que é isso hoje.

Você sabe como a água é armazenada e renovada nas represas? E nos reservatórios? Tem diferença entre um e outro? Não sabe? Pois precisa aprender. Porque, água não é infinita. Ela não se renova com facilidade e não dá pra fabricar na sede da Coca-Cola. E o volume morto? É verdade que o volume morto causa câncer, como falaram pelo Facebook? Presumo que você não saiba. São perguntas difíceis, e o seu amiguinho compartilhando a corrente do cromo-6 na cota 2 do volume, ou passando o vídeo do “como fazer poços artesianos” sem explicar que água não tratada pode te trazer sérios problemas, não ajuda. Em nada.

Quando dizem que “o Alckmin acabou com a água”, sabe o que me vem na veneta? O governador na sua casa, enguiçando as torneiras abertas. Parece que cada vez que alguém pensar em fechar uma torneira, o Alckmin brota na casa. Como o Panda do comercial.

Essa é uma das poucas partes que eu sei. Ele fez isso? Ou foi você, que usou a água e continua usando, sem economia? Porque não adianta falar da situação dos sistemas de abastecimento enquanto lava a calçada (com a mangueira a todo vapor). Não adianta falar que está regando as plantas com “água de reúso” – fica o alerta aos que penduraram essas placas: vocês estão matando o português – se essa água acabou de sair das máquinas de lavar do prédio. Isso não é reuso, é apenas estúpido. Não adianta lamentar a falta de água enquanto acende todas as luzes da casa, sabendo que este é o país da energia hidrelétrica; se sua luz está acesa de forma desnecessária, você está gastando água. A água é igual dinheiro: precisa saber de onde vem, como chega, e mais importante, onde você vai colocar. Senão, vai gastar à toa e ficar sem.

Não adianta olhar as chuvas medonhas na capital e questionar a ausência de captação dessas águas. Não dá pra captar a água depois que ela já caiu no chão. Esse chão, aí da sua rua, onde todo mundo pisa, limpa chiclete da bota, deixa o cachorro ir ao banheiro (se não vão eles próprios), joga tiner pra tirar tinta que caiu da fachada de algum prédio em reforma… Enfim. A gota que cai aí já não pode ser usada. Quem é responsável? O Alckmin? Ou a gente, que deveria cuidar melhor do próprio ambiente pra não passar esses perrengues?

É isso: se encostar, danou-se.

É isso: se encostar, danou-se.

E não adianta amaldiçoar as chuvas de hoje, ilhando gente em cidades litorâneas: você nasceu e cresceu num ambiente tropical. Quantas vezes na sua vida você viu chuvas tremendas seguirem períodos de estiagem? Quando você foi à igreja em junho pedir por chuva, você já sabia que ela vinha – atrasada e provavelmente fora do lugar esperado, mas ela viria, com todas as forças. Aí está a chuva que você pediu. Não adianta chiar com a boa vontade das forças aquáticas.

Também não adianta torcer pra chover na Serra da Cantareira. O sistema não fica lá. Dia desses, ouvi um ser (formado em Filosofia pela USP; deu calafrios) dizendo que as pessoas abastecidas pelo Alto Tietê deveriam usar mais água, para provocar evaporações e trazer as chuvas ao rio Tietê. Acredito que todos nós deveríamos ter um pouco mais de bom senso. Fico triste quando vejo que é a realidade desse ser – que nada sabe, também não tem interesse e está bem interessado em propagar desinformação, como o amiguinho da corrente do câncer no volume morto – a dominante entre a população paulista. E fica o que sei: grande parte da responsabilidade pela crise hídrica é nossa. Minha e sua. 

Entendam, não estou aqui pra isentar o governo de responsabilidade. Convenhamos: escolhemos o Alckmin – já pode parar de falar em mandato e chamar de reinado – pra supervisionar as coisas. E mesmo que ele tenha imposto uma série de regras pra SABESP voltar a gerenciar nossos recursos hídricos, deveria ter pressionado mais.

Seria excelente que soubessem que o governador não tem gerência sobre o que a empresa faz – como a Dilma,  sobre o que a Petrobrás faz. Os entes da Administração direta (no caso, Alckmin e Dilma) sabem tanto quanto a gente sobre como SABESP e Petrobrás operam. Isso é da série “coisas que Folha e Estadão não explicam”: a administração direta não manda na indireta. As empresas públicas são as filhas adolescentes: você não faz ideia do que acontece com elas até a bomba chegar via Jornal Nacional. Eu sei que é o caso, mas Alckmin, não custava sentar a adolescente no sofá para uma conversinha. Foi pra isso que te colocamos aí.

A SABESP escorregou no tomate? Sim. Ela já tinha tido pepinos antes, e já tinha firmado compromisso de não deixar a peteca cair outra vez. Eu, sinceramente, suspenderia a licença deles. Este poder, o governador tem. Deveria usar. Entendo deixar isso esperar um pouco – tirar a SABESP e licitar pra outra demoraria aeons, e ficaríamos sem gestão da água. Aí não dá – mas deveria ser feito, sem dúvidas. Espero que faça.

E nós? Eu e você? Estamos certos nesse bolo todo? Claro que não. Porque não sabemos o que deveríamos saber sobre uma das coisas mais importantes da nossa vida. E seguimos subestimando o valor disso. Acho que nossa responsabilidade é maior que a da SABESP e a do governador, porque nós usamos a água. Nós é que gastamos até chegar neste ponto. E não nos emendamos; quando se falou em economizar, a boca pequena era que “o governo fazia manobras na imprensa pra jogar a culpa na população”. Pois bem. Não somos inocentes. Precisamos aprender a usar as coisas que este planeta nos dá com moderação. Precisamos ter – e tomar – responsabilidade. Outros estados já chegaram às portas do volume morto: vão falar que foi o Alckmin também?

Existem algumas coisas que precisamos entender, e vão além das revoltas políticas, filosóficas e econômicas dos indivíduos. Não somos eternos. O planeta também não. E o que ele nos dá, pode tirar quando quiser – e quando isso ocorrer, não haverá governo que traga de volta. Já disse, ninguém vai achar uma fábrica de H2O na sede da Coca-Cola.

Quem fabrica isso é a Pepsi. E não tem água nessa garrafa.

Quem fabrica isso é a Pepsi. E não tem água nessa garrafa.

Mas esta sou eu. Estes são os meus pitacos. Acredito que somos eternamente responsáveis pelo que cativamos. E de tanto lavar a calçada, cá estamos com o banho de caneca.

Na próxima retrospectiva? Eleições. Já estou com azia. Mas até lá.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.