A falta que o Chaves já faz

O mundo ontem ficou pobre. E apesar da chuva de homenagens, o sentimento de perda não foi expresso. Todo mundo diz que tem saudades. Que “é uma parte querida da infância”. Mas ainda não caiu a ficha: Roberto Gómez Bolaños morreu.

Só os fortes sobreviveram aos anos 80 e 90, quando a TV brasileira era uma imensidão de NADA e só tinha porcarias supremas. Ou você via a Xuxa, ou via o SBT (era TVS, a quem possa interessar), ou ficava brigando com a antena da TV pra assistir Rá-Tim-Bum – que não o Castelo. Ou o X-Tudo. Ou o Glub Glub. Ou o Beakman.

Acreditem se quiserem: este era o SBT em 1989. O Chaves e o Chapolin eram a melhor coisa do dia. Não tinha que brigar com a TV, você morria de rir e ainda aprendia algumas coisas antes da novela. Na sequência, tinha as mexicanas queridas do tio Sílvio. E não falo da Era Thalía; antes da Maria Mercedes, o SBT exibiu umas mexicanas deliciosamente absurdas. Tipo a Globo exibindo Conan, o Bárbaro na Sessão da Tarde e sem censura. Saudosa era em que a TV mostrava coisas malucas, nossos pais nos educavam pra discernir as coisas e ninguém precisava banir as propagandas das tartarugas da Brahma.

O tempo passou. O Chaves ganhou uma abertura brasileira e o Chapolin também. Mudaram os horários da TV. Os meus também. E eu não podia mais ver sempre. Mas quando podia, me instalava na frente da SEMP Toshiba velha com pipoca e tudo. O Chaves merecia e a abertura nem precisava falar;  já estava todo mundo atento e olhando pra TV.

E mais tempo passando. As pessoas riam quando meu celular tocava. E engraçado, bem na explosão dos ringtones, mais gente deveria ter pensado nisso. Mas da rodinha de amigues, era só eu mesmo. Tenso era fazer a coreografia quando o telefone tocava.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAambulância, besta!
AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAambulância, besta!

O tempo passou mais. Eu parei de ver TV, fui fazer outras coisas da vida. Um dia, estava numa banca de jornal, comprando alguma coisa. A TV estava sintonizada no SBT. Era intervalo de algum programa. Quando o programa voltou, eu não precisei de mais de 2 segundos pra reconhecer o que era. Nem qual episódio era. E fiquei ali parada, até terminar. Era o episódio da festa da boa vizinhança, e eu não podia perder o recital do Cão Arrependido. Ninguém perde essa.

Mais tempo, e deixei de ver TV totalmente. Pra que isso, tendo Youtube e a Baía dos Piratas? Nos históricos de visualizações, o episódio dos aerolitos ressuscita de tempos em tempos.

E nisso, foram 31 anos. Perdi a conta de quantas vezes ri com a mesma piada. E de quantas vezes refleti no mesmo momento. E do quanto eles inspiraram a vidinha. Eu provavelmente não teria lido Fausto se não quisesse saber se realmente tinham escrito um chicote que fazia coisas aparecerem e desaparecerem com duas palavrinhas peculiares.

Chirrinchirrion
Chirrin. E chirrion.

Não é só saudade da infância. O ser que influenciou a vida muita gente se foi. Como Robin Williams, que também fez muitas vidas felizes, despertou inspirações e conscientizou sobre muitas coisas. Eles fizeram parte da formação do seu caráter, como fizeram do meu.

Não tenho palavras. Acho que os textos, vídeos e imagens circulando também não as têm. Perdemos as vozes de várias gerações – por mais que os outros atores estejam aí, as palavras deles vinham da mente do Bolaños.

Pra quem não tinha palavras, acho que escrevi demais. E eu só queria registrar a tristeza de saber que o Chaves morreu. E queria agradecer ao Chespirito por todos esses anos. Foram inesquecíveis. Juro que continuarei rindo das mesmas piadas, e que nunca esquecerei suas lições. Não que precise me esforçar pra isso. O senhor tinha um dom, Chespirito. E este dom foi conservado em todos os episódios das séries que saíram da sua mente.

Boa noite, Chaves. Até a próxima. Quando eu morrer, quero ficar aí em Acapulco também.