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A síndrome de Hilton-Gaga

Lembram do que eu disse sobre redes sociais e blogs outro dia? Pois é, decidi voltar ao assunto.

Lá no TSL – há muito tempo, numa galáxia muito, muito distante – falei de alguns sintomas que caracterizam uma terrível doença, que aflige alguns felizes participantes de redes sociais. Cá estava, relendo posts pra colocar no ar, e… Bom, nada melhor que trazer isso com cereja pro bolinho do feriado. Estamos todos aqui, atualizando Twitter, Facebook, Linkedin, Google Plus e tudo mais… Que tal ficarmos atentos a essa terrível moléstia?

Decidi, depois de uma consulta com a barracologista Dra. Giuliana Marques, listar as 10 práticas mais utilizadas por pessoas sedentas de atenção nas redes – as famosas “attention whores”. Este pequeno distúrbio comportamental é chamado(por mim) de Síndrome de Hilton-Gaga, um mal que aflige milhares de usuários, que são obrigados a ler aquilo para todo o sempre – ou até clicarem em “unfollow”. Percebam que muitos dos usuários normais utilizam algumas destas práticas esporadicamente – e esse uso será comentado – e que portanto nenhum de nós é imune(espero que nenhum dos normais se ofenda com o post). Mas há uma linha tênue e delicada entre comentar algo pela necessidade do comentário e comentar repetidamente pela necessidade de audiência.

Eu até pretendia dar nomes aos bois, citando emblemas clássicos de vítimas conhecidas dessa síndrome, e causar barracos – sou uma mente maligna, almejo sempre o caos. Mas então percebi que listar estas pessoas era dar a elas exatamente o que elas tanto querem e necessitam: ATENÇÃO. Oras, se eu sou má, não posso entregar assim o que se quer de bandeja.

Sem mais delongas, vamos lá. Se você padece dessa síndrome terrível, espero que este post sirva como alerta, e que você seja forte o bastante para NÃO usar mais estas práticas.

10. “Estou por fora dos acontecimentos dos últimos 15 segundos”

Às vezes, realmente perdemos um pouco da vida dos que estão próximos. Viagens, trabalhos sem net(isso existe?), faculdade… O normal de ter uma vida fora da net é perder algumas coisas – e a graça da net está em perdê-las, pra depois achá-las espontaneamente. Seja pelo amigo que chama no MSN pra contar as novidades, pelos tweets que ressuscitam depois de um tempo, os próprios Plurks que levam bumps, o jornal, o telefone, as visitas… Até aí, tudo bem. Às vezes, numa fração de segundo, acontecem tantas coisas que realmente nos deixam perdidos, com a sensação de estar totalmente à margem de tudo: mas somos rapidamente informados e ficamos a par de tudo, se é o caso.

Mas se você saiu da frente do computador pra ir ao banheiro, e ao voltar a vida era a mesma… O que você acha que perdeu? E se ninguém veio dizer nada… Pra quê perguntar? Você vai ouvir de todos a mesmíssima coisa: “nada”. Se você REALMENTE precisa ter ciência de TUDO que aconteceu na nets nos 15 segundos em que esteve fora, você não acha que está querendo controlar demais a vida virtual alheia? Se você, leitor, possui um amiguinho ou amiguinha nessa situação…

9. “Piada interna, gente!”

Às vezes, em redes sociais, temos algo que chamamos de panelinhas. Ok, elas estão na vida real também. São pessoas que se dão muito bem… Entre elas. E costumam ter seus próprios meios de falar mal da vida alheia códigos. Esses códigos normalmente se traduzem em piadinhas internas. Todos nós temos dessas, e não é raro identificar no cotidiano algumas situações que muito se assemelham às nossas queridas piadinhas, tornando inevitável fazer alguma tirada sarcástica em público – que somente aqueles que freqüentam nosso pequeno círculo de amizades vão entender.

Mas… As pessoas normais NÃO anunciam piadas internas. Porque se são internas, são privadas e não devem ser de domínio público. Anunciá-las só atiça a curiosidade do povão, o que praticamente nos obriga a explicar a piada, tirá-la do nosso círculo e fazê-la perder totalmente a graça…

Isto não se aplica aos nossos amiguinhos e amiguinhas desesperados por atenção. Pelo contrário. Anunciar uma piada interna é um dos meios mais rápidos de ganhar Ibope e ver a audiência subir feito foguete. Isto faz a alegria do amigo attention whore. Portanto, cuidado! Se vir alguém anunciando uma piada interna, marque uma intervenção e salve seu amiguinho ou amiguinha de descer a rua como veio ao mundo, usando somente um Crossfox, pra ser “timais”.

8. “Quero dar”

Ok, entendemos. Relações sociais sem fins reprodutivos são fenomenais. Ninguém vive sem. E às vezes, todos nós enfrentamos longos períodos de inverno… Para alguns, é comum precisar fazer faxina e retirar as teias de aranha. Também é necessário desabafar a saudade destas artes tão prazerosas de tempos em tempos. Todos nós fazemos isso. É normal, é natural, é bom. É vida! Somos todos tarados, e todos nós gostamos de sexo.

Mas… Se pelo menos duas vezes por dia surge, na sua timeline, um update com estes dizeres, e se ele quase sempre pertence à mesma pessoa… Das duas, uma: ou esta pessoa precisa de uma clínica para viciados em sexo, ou esta pessoa precisa render nada menos que 100 respostas em meia hora. Sexo, comida e barraco: assuntos que estão na boca do povo e rendem bastante. O portador da síndrome de Hilton-Gaga sabe disso, e utiliza este recurso freqüentemente – o que nos faz saber muito mais do que queríamos a respeito de sua intimidade (que, postada em aberto ou em mensagens privadas diariamente, acaba não sendo mais tão íntima e pessoal assim). Se sua timeline é assolada por transtornos sexuais, consulte o psiquiatra mais próximo e saiba como lidar – consigo ou com o próximo tarado por Ibope.

7. “Vou sair deletando pessoas”

Às vezes, acabamos adicionando gente demais nas redes sociais. Às vezes até no Google Reader nos empolgamos e adicionamos mais feeds de leitura do que nossa pobre mente pode acompanhar. Isso acontece quando descobrimos mundos novos. Com o tempo, percebemos que temos muita informação em mãos – e que grande parte daquilo não é útil, e nem nos agrada. E eliminamos o que não precisamos ou queremos, sem maiores dramas.

Mas… quando a pessoa sente a necessidade semanal de anunciar em nossas timelines a enésima edição do Big Brother, ela quer a mesma coisa que a Rede Bobo: Ibope. E eis que surgem quatro ou cinco updates falando sobre os paredões patrocinados pelo Hilton-gaganiano da vez. Se você sofre com as exibições deste virtuality show indesejado, o melhor a fazer é se antecipar ao amigo Bial e colocá-lo na sua roça.

6. “Sou legal, mas ninguém quer namorar comigo”

Acontece. Às vezes temos desilusões amorosas demais para nossos pobres corações. E sabemos que somos ótimas pessoas, mas sempre levamos na testa. E nos sentimos mal, porque parece ser nossa culpa o fato de não achar uma metade de laranja decente. Acontece com todo mundo, e de vez em quando precisamos desabafar isso. Mas “de vez em quando” não se qualifica como três vezes ao dia, todos os dias.

E quanto mais se expõe isso em redes sociais – cheias de pessoas bonitas, inteligentes, solteiras e exigentes – mais se mostra a necessidade de atenção constante sentida no âmago, e mais se afastam os possíveis pretendentes. Mulher nenhuma quer ficar ao lado de seres assim desesperados, e vice-versa. Chega a ser ainda pior quando se diz “ninguém quer namorar comigo, mas eu só namoro uma garota assim, assado, frito e cozido”. É irônico, até. A pessoa está no hall dos excluídos, implorando atenção e carinho, e ainda quer impor condições? Na verdade, querido leitor, os autores de atualizações desta espécie não estão questionando a vida e nem procurando as tampas de suas panelas: estão pedindo audiência. E se você sofre com esse tipo de update na sua timeline, pode enviar os referidos Hilton-gaganianos a programas do Sílvio Santos ou da MTV, saídas eficazes para manter o pobre portador da síndrome longe do computador por algum tempo – porque namorada(o), com essa atitude, nem a Mãe Jatira traz.

5. “Nunca me chamam pra sair”

Acontece. Com todos. A turma combina algo de repente e só ficamos sabendo das fotos depois. É justo puxar as orelhas dos amigos nessas horas – eles também entendem essa parte.

Mas se toda sexta, sábado e domingo essa frase está no seu vernáculo… Há algo errado. Todo mundo tem nichos sociais variados. Portanto, se os amigos de faculdade, a rapaziada do futebol, os colegas de trabalho, a turma do curso de inglês e todas as pessoas conhecidas – incluindo as das redes sociais – saíram e NÃO te chamaram… Quanto mais essa frase aparecer nos fins de semana e feriados, mais você passa a impressão de ser uma pessoa chata e desinteressante. E aqueles que responderem não estão dando atenção e também não são solidários; estão dando audiência de pena. Mas para o amigo attention whore, não importa a razão da sua resposta; importa que houve resposta, e que ele ganhou ibope. Quando esta frase aparecer na timeline, tenha cuidado. Leve a pessoa para um passeio exclusivo: o asilo Arkham possui um tour excelente nas alas psiquiátricas.

4. “Querido diário…”

Até Chico Buarque reconheceu a importância de guardar as memórias em detalhes, quando compôs O Caderno. Recordar é viver, e todos nós gostamos de armazenar e compartilhar nosso cotidiano e as lembranças nele contidas. Isso é saudável. Mas os limites da normalidade são ultrapassados quando as pessoas começam a ver relevância em partilhar suas necessidades fisiológicas com os amigos. Não interessa pra absolutamente ninguém saber que você acabou de acordar, a não ser que você desperte de um coma irreversível. Também não é interessante saber a cor da sua urina, a não ser que todos os seus amigos sejam médicos e você tenha meningite, ou porfíria. As pessoas não querem saber todos os detalhes do seu dia, e se você precisa compartilhar tudo com o único propósito de estar entre os não-lidos…

3. “Eu amo vocês. Vocês me amam?”

Eu pessoalmente acredito que o único que tinha gabarito pra distribuir declarações amorosas gratuitamente era Michael Jackson. E vocês? Vez ou outra, alguns são possuídos pelo espírito Heal the World – geralmente após algumas (muitas) doses de cerveja – e espalham o amor incondicional por aí. Quem nunca viu o tio pegar o microfone na festa de família e começar a cantar All You Need is Love, dos Beatles, dedicando a todos? Pois é. É bom declarar essas coisas. Até Meredith Grey diz isso agora. Mas eu não sabia que tinha que ser 10 vezes ao dia – e que todos estavam obrigados a responder. Não é assim? Certeza? Então expliquem por que os amigos Hilton-gaganianos praticam isso. Eu não entendo. É pelo Ibope, não é?

O amigo attention whore nunca vai dizer, de verdade, que te ama. Ele simplesmente escreve isso numa rede social – e de preferência, marcando seu nome e pedindo resposta – e obriga todas as pessoas educadas da timeline a responder com a recíproca. Dessa forma, ele se sente popular E querido. Talvez, lá no fundo (bem no fundo mesmo), ele sinta o que diz; mas a declaração nunca será puramente para demonstrar isso – menos ainda se ele fizer numa rede social. O pior é quando ele obtém zero respostas, o que nos leva ao próximo item.

2. “Sou odiado, ninguém gosta de mim aqui e estou triste com isso”

Com a proliferação dessa epidemia emo na sociedade, estamos todos mais propensos a falar de sentimentos. E isso dá uma vantagem sem igual ao amigo attention whore – ele sempre vai usar a carta dos sentimentos, como puderam acompanhar nos outros itens da lista. É audiência garantida. As pessoas normais não gostam de ver seus semelhantes tristes, e basta alguém dizer que está dessa forma para corrermos em seu auxílio, ainda que seja por educação. Bingo! Quer um jeito mais fácil de conseguir 100 respostas que esse? O momento em que a mensagem chega à sua resposta de número 100 deve equivaler a um orgasmo múltiplo para o portador desta síndrome. Este item, e o anterior, são os únicos que não tem remédio; se agüentamos as crises de choro virtuais, enjoamos da pessoa, e se obliteramos o amiguinho de nossas timelines, somos automaticamente do time dos vilões e geramos outra atualização triste, que terá mais 100 respostas e dará origem ao próxmo item.

1. BARRACO!

A paixão nacional. Sempre na boca do povo, assunto garantido por meses e meses a fio. Quem resiste a uma fofoca? Quem nunca parou ou diminuiu a velocidade no trânsito para espichar o pescoço e conferir o acidente? Quem aqui nunca viu um episódio dos programas do Ratinho, em qualquer emissora? Quem não está familiarizado com a expressão flame, que nada mais é que o barraco em fóruns de discussão? Todo mundo gosta de uma confusão. Todo mundo adora se meter, tomar partido, comentar o que houve. Quanto mais pano pra manga, melhor. E vale tudo: divulgar históricos de conversa, ameaçar deletar o perfil, dizer que está passando mal por causa da “calamidade”, anunciar processo por calúnia, sentir dó da mãe… Todas as estratégias aqui citadas são garantidas pela Dra. Giuliana Marques para alcançar mais de 700 respostas e ganhar o status de barraco. E, para um amiguinho attention whore, essa é a razão de viver virtualmente.

É isso. Na minha opinião, são os 10 sintomas mais óbvios da Síndrome de Hilton-Gaga. Existem outros mais sublimes, como as clássicas indiretas (e 50 respostas de gente curiosa perguntando pra quem foi), reclamações genéricas – e diárias – sobre a própria rede social… Enfim, a lista continua, e vocês que leram até aqui estão convidados a discutir outros sintomas, mas estes são os itens mais recorrentes e irritantes pra mim.

Infelizmente, a síndrome de Hilton-Gaga não tem cura ainda, só tratamentos de choque – que funciona até o portador deste mal encontrar outra rede social. Mas lembrem-se: nossos amiguinhos attention whores precisam de ajuda e de muito carinho; em todos os casos citados, unfollow é amor. Espalhe por aí. Até o próximo post!

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.