Agora, ele é herói

Eu ia escrever uma coisa mais legal hoje, juro. Mas o frio traz coisas terríveis, e é por isso que as palavras dos Stark são tão temidas.

O inverno está chegando, eles dizem. Nosso inverno já chegou. Enquanto os paulistas ficavam assombrados com termômetros marcando 5°C pela rua e o povo do sul fazia um esforço absurdo pra não morrer congelado, algumas coisinhas chamaram a atenção no cenário político. As mesmas de sempre. Viraram “coisonas”. Mas não venho falar delas, venho só fazer uma observação curiosa.

Estava ontem na sala, quando vi uma manchete do Jornal Nacional. Mais uma do mensalão, que esteve nos principais jornais e revistas reais e virtuais do país (de novo) esta semana. Não prestei atenção – entendam que eu quase não presto atenção em notícia, pois atualmente, qualquer coisa é notícia – mas observei a pessoa que assistia àquilo atentamente. Ela praguejava na cadeira quando falavam dos outros envolvidos, mas torcia pelo Roberto Jefferson.

Liguei o PC e comecei a pesquisar. Reparei que esta é uma reação comum; as pessoas praguejam contra todos os envolvidos no mensalão, mas torcem pelo Roberto Jefferson.

O cara tem toda atenção dos internautas. A página dele no Wikipedia é mais completa que a do  M.M.D.C., que aliás é o feriado de hoje. Você sabe o motivo desse feriado? Lembra os nomes deles, leitor? Não sei, mas do Roberto Jefferson, todos lembram.  Li num fórum que deveriam criar um feriado pra ele também.

O blog dele é bem comentado (nas postagens que dizem respeito ao escândalo do mensalão, pelo menos). Quando falam dele em reportagens e blogs afins, as mensagens têm tom de consolo e esperança. Todo mundo se interessa no que os advogados de defesa dele vão apresentar – e eu tenho até inveja, porque ninguém lê minhas defesas com tanta vontade. Querem que ele se livre de todas as acusações, que receba uma medalha de honra por sua coragem. Alguns dizem que precisamos de mais gente assim, honesta, batalhadora, incorruptível.

Que bonito. Seria tudo maravilhoso, exceto por um detalhe módico: Roberto Jefferson era parte do esquema, e recebia tanto quanto qualquer um dos réus. E só denunciou quando as coisas não ficaram de seu agrado – o que pra mim, significa que ele queria mais dinheiro e vantagens, e não deram nada disso. O que você acha que ocorreu para que ele denunciasse? Chamado divino? Crise de consciência? Experiências de vida-após-a-morte?Abdução alienígena? Todas as alternativas? Ou nenhuma dessas? Conte o seu palpite, estou interessada.

Ele diz que não aceita essas acusações, porque não fez isso. Ele se diz inocente. Pela lei, ele não precisava dizer – porque consideramos todos dessa forma até prova em contrário. E francamente, o José Dirceu diz a mesma coisa. Não aceitar o fruto de cinco anos de investigações e se dizer inocente muda os fatos? Acho que não.

Não que eu faça aqui algum juízo de valor sobre culpas e inocências. Não tem nada do tipo pra ser feito. A lei está aí pra todos. E Roberto Jefferson descreveu um esquema que é claramente contrário às leis brasileiras.

“Ah, viu? Um herói.”

Fica a dúvida. Você consegue descrever com exatidão e riqueza de detalhes todas as circunstâncias que envolveram M.M.D.C. nos dias de suas mortes? Você sabe a cor da cueca que C. usava na ocasião? Sabe quem beijou M. antes de morrer? Sabe se D. escovou os dentes no dia? E se M. tinha tomado algum remédio?

Não sabe, né? Eu também não sei. Porque só quem estava intimamente ligado a eles saberia dizer essas coisas. E só quem está incluso em esquemas sigilosos sabe dizer quem entrega o dinheiro, quando, como, onde, por que, para quem, o que se deve fazer em troca.

Oras, foi exatamente esse o tipo de informação dado por Roberto Jefferson. E o fato dele ter essas informações – sem ser um jornalista ou um policial vinculado a alguma investigação – só pode significar uma coisa: ele estava no meio. É a vida, acontece. Alguns são amigos do Sarney, outros escrevem blogs tentando mudar o mundo.

É isso que não consigo entender. A meu ver, a conduta do Roberto Jefferson está mais para delação premiada que para heroísmo. No entanto, muita gente coloca nele uma coroa de louros, como se fosse dia de Triunfo. Por que tantos pesos e tantas medidas?

A pergunta fica pra vocês. Porque são vocês o povo brasileiro. São vocês que tratam o cara como herói, quando ele é só mais um dos “quase 40 ladrões”. Vocês são os donos dos pesos, das medidas, da leniência inconformada, das revoluções de sofá. Só vocês é que podem me explicar isso.