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Aos grevistas, com nenhum carinho

A nota introdutória é pesada. Daqui pra frente, o post vai ficar mais ácido. Iracundo, eu diria. Se você faz a Claudia Leitte e me acha nazista por dizer que não gosto de grevistas, pare de ler agora e vá extravasar muito no Twitter (lembre de testar ao vivo antes). Se for continuar lendo, sugiro que use óculos: este será um dos longos e densos.

Imaginemos o seguinte cenário catastrófico: você, funcionário dos Correios, estudante de Ciências Sociais, pseudo-comunista ferrenho e fiel adepto da greve, tem uma mãe que mora em Onde-o-Vento-Faz-a-Curva, cidade pacata de *insira aqui o nome do estado mais remoto do Brasil em sua opinião*.  Durante a greve, sua querida mãe faleceu no hospital municipal. Estamos falando de uma cidade realmente pacata – e por pacata, entenda-se longe da civilização: lá não tem internet, telefone, sinal de rádio ou qualquer coisa parecida. O único jeito dos médicos avisarem é pelo Correio. Esse mesmo Correio, que está em greve e que não entregará nenhuma carta, telegrama, SEDEX ou afins saídos de Onde-o-Vento-Faz-a-Curva, porque lá os funcionários são radicais mesmo. Não fazem NADA. E você aí, apoiando a greve. Enquanto isso, sua amada – e finada – mãe vai apodrecendo no hospital.

Suponhamos que esta greve dos Correios consiga agüentar 127 dias. Suponhamos ainda que sua amada mãe morreu no primeiro dia dessa greve. Você sabe o que acontece com um corpo em 127 dias? Pois é. Imagine que, para normalizar os serviços, o correio de Onde-o-Vento-Faz-a-Curva leve uns 10 ou 15 dias. Imagine que depois desse período, a carta – aquela social, a mais lerdinha – leve seus 10 dias para chegar à sua casa.

Eu imagino sua dor ao saber da morte da sua mãe. Também imagino a sua indignação ao ver a data de postagem. Já vejo você colocando a culpa no governo, com toda a ferocidade de sua alma. E imagino que você esqueça de olhar pro espelho e assumir a culpa. Porque o governo não te obrigou a não trabalhar – pelo contrário.

Gostaria que esse cenário fosse drama, mas no Brasil, não é. Tem muitos lugares remotos aqui, na mesma situação de Onde-o-Vento-Faz-a-Curva. Dorothy Stang morreu num desses. E muitas mães estão em gavetas dos necrotérios, aguardando a retirada por seus filhos “devotos”, muito empenhados em revoluções de sofá.

Aconteceu em Sampa, e não faz tanto tempo assim. O serviço funerário resolveu que era hora de parar de enterrar as pessoas. E teve gente que passou a semana com o cadáver em casa – uma semana de muito calor e ar seco, aliás. Você pode imaginar como estas casas ficaram. Não? Entre numa tumba aberta pra exumação e fique lá respirando um pouco, se conseguir.

A greve está em todo lugar. O Correio parou, o banco parou, e fiquei sabendo que o Judiciário parou. Todo mundo berra pela “causa”. O problema é que não tem mais causa pra berrar.

O direito de greve é, sim, garantido pela adorável Constituição Federal. Mas ela não garantiu o direito à badernas sem sentido.

Greves hoje parecem show da Ivete Sangalo: tem um a cada quatro meses, pelo menos. E se não tiver show, você vai ver um DVD, ou paralisação demonstrativa temporária (quando todos cruzam os braços por um ou dois dias “só pra mostrar como fica o Brasil sem o servidor”). O movimento sindical é uma fábrica de gente à toa lavando dinheiro pra mais gente à toa. E quem paga por isso? Eu e você, leitor. Porque nós é que arcamos com os prejuízos dessas greves, seja na conta que venceu porque chegou atrasada pelo Correio e o banco não te deixou pagar (estava em greve), no documento via SEDEX que nunca chega ou naquele mandado de segurança urgentíssimo que NÃO foi apreciado, porque o fórum está em greve. O pior de tudo é ter que agüentar toda a baboseira pseudo-marxista dos grevistas.

Agora eles estão de mãos dadas, fazendo passeata, como se fossem os Ursinhos Carinhosos. Que poético. A ironia é que, nessas passeatas, eles conseguem se superar no quesito falta de noção e travam outros serviços públicos: trânsito pára, ônibus não passa, metrô lota, SAMU não chega… E assim NÃO caminha a Humanidade.

Fazer greve é sempre o último recurso, mas a brasilidade dos “nobres” servidores acredita piamente que seja essa a única alternativa existente. Querem um exemplo lindo? A greve dos bancários. Reajustes salariais são coisas acertadas entre sindicatos de empregados e empregadores nas Convenções Coletivas de Trabalho. Antes da convenção, os sindicatos tiveram um ano pra negociar valores, e acredito que a CCT 2011/2012 já esteja fechada.

Pensem comigo: os caras passaram um ano inteiro negociando valores, índices, porcentagens e afins. Eles fizeram isso, chegaram a um consenso, e assinaram a CCT. Eles aprovaram TUDO que agora está em questão na greve. Então, qual o motivo dessa greve?

Alguém aí dá alguma razão? Alguém explica por que esses benditos sindicatos passam o ano todo olhando o teto, pra depois fiscalizar a greve? Eles param pra verificar se tem gente trabalhando em greve, mas não dão a mínima sobre o regime de trabalho dos empregados da Zara. Falta nexo nisso. Falta muita coisa, aliás.

É absurdo que seja aceitável para esses “trabalhadores” frear o país inteiro porque eles não sabem negociar. Sindicato é pra isso: pra negociar. Temos pelo menos uma greve de alguma categoria profissional a cada trimestre, gente. Algo me diz que ou os sindicalistas são muito burros, por não saberem negociar, ou muito inteligentes, porque eles continuam ganhando dinheiro enquanto o povo tá de braço cruzado e tomando desconto de falta em folha.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • Pingback: Motivo de greve: depende do ponto de vista | TSL()

  • Lekkerding

    Nossa, obrigada pelo elogio! Agora fiquei sem jeito. hahaha

  • Você agora me causou grande satisfação; com humor e inteligência falou de coisas seriíssimas. Fico a imaginar como nosso país poderia ser melhor se mais pessoas tivessem sua determinação, coragem e lucidez.

  • Lekkerding

    Os senhores bancários, infelizmente, não leram isso.

  • Raony

    “Até direito tem limite, e acho que o limite do direito de greve chegou.” Só isso já resume tudo. Eles tem direito de fazer greve? Tem. Mas não obrigação. Ainda mais quando há outros meios para resolver essas questões.

    Lekkerding, como sempre, ótimo post 😀

  • Lekkerding

    Até direito tem limite, e acho que o limite do direito de greve chegou. Como bem dizia a professora do primário – e você mesma – se a sua liberdade se meteu na do outro, ela já acabou.
    Eles não estão negociando. Se estivessem, e realmente nada surtisse efeito, aí eu entenderia. Mas ninguém negocia. É coisa de criança. Cruza o braço, faz bico e diz “dá minha bola, não brinco mais”. Das duas, uma: ou tiramos o direito de greve, ou o sindicato deles. Aí o povo aprende a se arrumar.
    O conceito de estudante grevista pra mim é a coisa mais patética da face da Terra – e tenho como prazer pessoal esculachar sempre que vejo.

  • Fabiana Muliterno

    Sempre fui a favor do protesto, mas existem maneiras e maneiras de protestar. A liberdade dos grevistas em chamar a atenção para qualquer situação da categoria (seja essa situação precária ou não) termina onde começa a MINHA liberdade de ir e vir. Sei que corro o risco de ser chamada de porca capitalista por muitos, mas é o mundo cão onde vivo. Já consegui sobreviver a uma faculdade revolucionária de boutique (cansei de ver estudante grevista com óculos da Chilli Beans e camiseta da M. Officer), e não preciso aguentar mais nada… estou BEM pior do que o Saraiva.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.