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As meninas

Leitores antigos já viram essa. Mas é algo que sempre volta à memória. Intrigante, sabem? Dois casos, tão iguais, e tão diferentes. Alguém entende o motivo? Eu, certamente não. Fica o lembrete, e o convite à reflexão.

Sim, eu poderia falar sobre o “amigo” Jader Barbalho, mas prefiro não me manifestar até ter resultados mais concretos. Poderia falar da dança das cadeiras no governo Dilma, mas… Temos mesmo que falar dessa pantomina? Acho que não. Poderia falar dos deputados e senadores que roubaram a cena este ano, mas ei, este é outro post. Então… Vamos para a Vila da Memória.

Falarei de duas menininhas, iguais e diferentes. Uma loira, a outra morena. Uma perto do Atlântico, a outra mais próxima do Pacífico. Uma tem olhos verdes, a outra, olhos negros.

De repente, estas meninas foram embora. De uma, não se tem notícias; da outra, temos a lápide. Das duas, as famílias despedaçadas. Os rastros não enganam, em nenhum dos casos: sangue foi derramado. Por que, ou quem, ninguém sabe. Pelo menos, não com certeza. Resta imaginar.

A diferença entre elas é crucial. As duas tinham pais que as amavam. Mas, diante da morte – possível ou certa – uma das famílias ganhou simpatia. A outra, ódio.

Vocês lembram de Madeleine McCann? Creio que de Isabela Nardoni, já cansaram de ouvir falar.

As duas tiveram praticamente o mesmo fim. Temos quase as mesmas provas e os mesmos álibis dos pais. Gerry e Kate dizem o que Alexandre e Anna Carolina disseram. “Saímos por um minuto. Alguém veio e fez isto com ela”.

Ambos os locais tinham sistemas de segurança – que falham miseravelmente em mostrar aquilo que precisamos ver para a certeza dos crimes. Ninguém viu Madeleine sair, nem a câmera. Ninguém viu Isabela cair, nem a câmera. O sistema de vigilância só nos deixa imaginar, com o lapso de tempo nos dois casos. Ambos os eventos tiveram testemunhas; não viram nada, não entenderam nada. Só ouviram frases desconexas, que pareciam pedidos de socorro. As testemunhas nada atestaram. Elas apenas “achavam” ou “acreditavam”.

Nos aposentos finais, ambas tiveram os irmãos presentes. Dormindo, acordados, ninguém sabe. Crianças pequenas, cujo silêncio nada penetra. Elas estavam lá. Mas pelo que não dizem, poderiam muito bem estar em outro lugar. Só nos resta imaginar.

Sangue. Câmeras dúbias. Testemunhas estranhas. Irmãos presentes. Pais ausentes por alguns momentos. Ambas as histórias tem elementos similares. Mas, por alguma razão, há tristeza por Madeleine, e raiva por Isabela. E por que, em circunstâncias tão similares, Gerry e Kate são inocentes, e Alexandre é crucificado com Ana Carolina?

Não falo aqui de leis. Não seria possível comparar procedimentos brasileiros com europeus, ainda que portugueses. Penso apenas na disparidade do “julgamento” da opinião pública.  Para o público, Kate e Gerry são os pais “perfeitos”. Eles merecem a pequena Madeleine de volta. Já os Nardoni são vilões da Disney. Morte a eles, porque Isabela não volta mais.

Os Nardoni aparecem na TV abatidos. Os McCann sempre aparecem deslumbrantes. Duas crianças morreram, em circunstâncias inusitadas – e dignas de mais um filme de Arquivo X. Dois casos semelhantes. Opiniões completamente diferentes. Uma salva, a outra afunda.

Vai entender.

Nota: entendam, antes de começar as abobrinhas: não estou defendendo (ou atacando) lado algum. São fatos observados – e que podem ser obtidos em qualquer busca rápida no Google. Não precisamos sequer passar da metade da página de resultados pra observar isso. Questiono estes fatos. As circunstâncias dessas mortes são muito parecidas. A opinião sobre elas é radicalmente diversa. Eu gostaria de entender. Só isso.  

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Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.