As velas, as cervejas e os revolucionários da PUC

Estava a caminho de casa, quando passei por uma “manifestação” de alunos da PUC. Na hora de rush, com todo mundo querendo (e precisando: duas ambulâncias cheias aguardavam os alunos desocuparem a rua, e ninguém deu atenção às sirenes) passar, cerca de 100 estudantes faziam coreografia e gritavam “pula, sai do chão, quem é contra a fundação”. Seguravam velas.

Provável que o show tenha a ver com a reitoria da Universidade. Os alunos dizem querer a democracia respeitada. Queria entender que democracia é essa que eles falam. Afinal de contas, a PUC é uma instituição privada. Um negócio a ser gerido. E não existe democracia na gestão de negócios; existem bons e maus administradores a serviço de determinada empresa, que escolhe em quem vai apostar suas fichas para ter mais sucesso (e lucro). A PUC apostou as fichas numa administradora que não agrada os alunos.

Talvez esta administradora queira endurecer a política de frequência da faculdade, o que não seria bom para os revolucionários – se isso ocorresse, como bateriam ponto nos bares de segunda a sexta, durante o horário de aula? Seria muito doloroso. Talvez a gestora desagrade por querer dar utilidade aos espaços dos CAs na “prainha”, que no momento servem de poleiro de pombo e fumódromo. Talvez ela queira mudar mais na PUC do que gostariam os alunos; talvez ela não queira só fazer a vontade deles.Talvez ela seja mesmo uma tirana messiânica. Enfim. 

O que ficou na minha cabeça, enquanto eu passava, foi o grito. Eles se dizem manifestantes, mas fazem caras e bocas para câmeras. Eles dizem lutar por seus direitos, mas representantes de CAs estavam ali garantindo a cerveja na mão de cada estudante. Estavam assim: na mão direita, uma vela, e na mão esquerda, uma Heineken. Disse o estudante que a cerveja foi paga pelo CA. E gritava: “pula, sai do chão, quem é contra a fundação”.

Se são tão contrários a essa fundação que atenta contra a democracia dos Teletubbies… Por que prestaram vestibular? Por que continuam pagando? O que estes militantes já fizeram por si e pelo país na vida? Se alguém puder explicar, agradeço. Porque não entendo. Talvez essa mania de greve de estudante (desde quando estudante pode paralisar trabalho? Eles estão ESTUDANDO) seja um grito de socorro. Talvez eles queiram nossa atenção, por saberem que suas vidas terão o mesmo impacto de uma lêndea esmagada no mundo. Talvez estudar seja muito chato (e por isso ganhamos o penúltimo lugar no ranking de educação).

Talvez essa moda devesse pegar nas universidades onde realmente é necessária. Talvez os alunos da FMU devessem paralisar o curso, para que a faculdade parasse de segurar documentos e reprovar alunos aleatoriamente pra manter a renda de DPs. Talvez os alunos da FMU devessem parar de pagar a mensalidade pra ver de onde a Magnífica Reitora Labibi tiraria as dilmas pra manter a FMU. E os estudantes da Uninove? E da UNIBAN? Acho que poderiam parar também. Estes são praticamente escravos as políticas leoninas das instituições em que vivem. Eles pagam fortunas, como os alunos da PUC. E não possuem metade da estrutura que a “marvada PUC” dá. Eles sequer podem reivindicar sem sofrer represálias.

E os alunos da PUC? Ainda escuto os gritos. Eles saíram em passeata pelo bairro, com suas velas, cervejas e roupas negras de marca. Isto, porque Dom Odilo Scherer não deu a eles o que queriam.

Não que seja proibido questionar. Mas nunca vi nenhum desses alunos propondo Ação Popular. Não consigo deixar de pensar: quem precisa se rebelar contra o sistema, aguenta calado. Mas quem não precisa de nada, sempre se revolta quando não ganha o que quer.

Era só isso, pessoal. Precisava desabafar um pouquinho da indignação com estes estudantes. Saudades dos revolucionários de verdade, cujo sangue ainda banha as paredes da PUC. Eles realmente lutaram por democracia. E estes alunos das velas… Fazem birrinha.