Até quando?

As coisas andam pesadas no país. O engraçado é que quanto mais as coisas ficam tensas, mais programas inúteis a TV aberta lança – e mais caros ficam os pacotes a cabo, e mais gordos ficam os que são da turma do “deixa pra lá”.

Imagino que você já saiba a sinopse do último capítulo de O Astro. Mas você sabia disso aqui? Não? Imaginei. Muita calma nessa hora; não adianta xingar o governo por algo que era de sua inteira responsabilidade fiscalizar.

Chego à seguinte conclusão: o povo brasileiro desconhece seus direitos não porque é tudo difícil e cheio de tecnicalidades, mas porque joga demais no lugar-comum do “não funciona”. Quem faz Direito sabe o que fazer pra não levar prejuízo nas contas atrasadas por greves, mas quem tem que usar não sabe. Por que não sabe? Porque acha que não funciona.

O simples fato de ser lei dá a todos uma garantia maluca das coisas “não funcionarem”. Nunca entendi esse paradoxo. Pra processar o Sarney, a lei não funciona, mas pra arrancar uns trocados a mais do ex-chefe, a lei sempre foi sua melhor amiga, certo?

Expliquem como se eu fosse uma criança de 5 anos, porque não entendi ainda. Por que todo mundo consegue arranjar tempo pra ler todas as últimas atualizações da vida alheia no Facebook e faz funcionar a roda da fofoca, mas arranjar tempo pra conferir receitas e despesas dos Três Poderes (ou no mínimo, ler o resumo delas) ninguém consegue, e diz que não funciona?

As coisas estão pesadas, complicadas, TENSAS. Estamos a ponto de explodir por aqui. Não por causa das greves, ou das marchas contra *insira-motivo-politicamente-bonitinho-do-mês*, mas porque o sistema – esse, que todo mundo adora xingar – finalmente dá mostras de que precisa de seus criadores. E não pra marchar, pra berrar ou esperar a Veja derrubar a Dilma; o sistema precisa que vocês, povo, façam alguma coisa. Qualquer coisa. Ele precisa desesperadamente ser utilizado.

Por quê? A lotação esgotou, simples assim. A Constituição de 88 criou um sistema bem eficiente, e que naquela esfera política – de brasileiros “despertos” para o destino do país – funcionava lindamente. Todos alertas, fiscalizando, opinando, pesquisando… Que lindo.

Mas por alguma razão cósmica, que o nobre Ulysses não pôde concatenar antes de morrer – e ninguém precisa correr da palavra, basta olhar o dicionário e ver que o significado é “relacionar”. Viram? Falar difícil é muito fácil. O duro é não assassinar o português – todo aquele povo que acordou… Dormiu de novo!

Que beleza, todo mundo nesse soninho político adorável. E filhos nascendo dormindo. Netos. Estamos grávidos dos bisnetos – ou quase. E todo mundo dormindo, esperando a Veja derrubar o governo, o Sarney morrer de velho, o Bolsonaro sair do armário, enfim…

Todos esperando e dormindo, dormindo e esperando. Em algum lugar do Brasil, Cauby Peixoto canta, eternamente: “como é cruel dormir assim…” – e não é mentira. O que essa soneca-inerte-política-coletiva faz com esse país chega a ser pior que o que fazem com bois em abatedouros.

Quando o segurança da *insira-nome-da-casa-de-shows-paulista-que-descongela-neandertais-e-coloca-crachá-de-segurança-neles* é truculento (e não se pode esperar menos de um neandertal), você corre pra procurar um advogado. Foi demitido? Corre pro advogado. Síndico que abusa? Corre pro advogado. Comprar casa nova? Corre pro advogado. Casar? Corre pro advogado. Ação popular? Ah não, isso não funciona.

Por que a lei e o advogado funcionaram muito bem quando VOCÊ precisou delas, mas quando o PAÍS precisa delas, não funciona?

Essa lógica é que não funciona. Porque quando você quer, povo, tudo corre nos conformes. Então, das duas uma: o país do futuro nunca será o país do presente porque você não quer, ou porque o soninho tá muito gostoso.

“Lekkerding, você some e volta com essas bombas, tenha dó”

Vocês acham que é bolinho passar a vida falando com quem só dorme? Tenham dó de mim.

É isso. Até a próxima. Musiquinha, pra vocês continuarem dormindo.