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Bentinho seja vosso empenho

Hoje, sem estudos, reverências e ironias no texto. Só por hoje, uma pausa. Tudo bem que o dia já está acabando, e estão todos(ou quase) em suas casas preparando as energias para amanhã. Mas ainda é HOJE. E pelo menos até meia-noite, precisamos parar e refletir sobre nossas vidas.

Dia Mundial de Combate à AIDS. Lendo isso, todos nós fazemos um bico triste e pensamos “poxa…”. Hashtags como #RED, #LCA e afins dominaram o Twitter. Frases de efeito povoaram nicks de MSN, vídeos tocantes rodaram várias e várias vezes no Youtube. Todos nós temos a capacidade de mobilizar esforços pelas coisas em que acreditamos. E isso é ótimo.

Mas quantos puseram a mão na consciência hoje para pensar nas vezes em que, por conta de lapsos suicidas, quase perdemos a vida? Quantas vezes, em nossos impulsos destrutivos, atravessamos a rua correndo ao sinal verde, manuseamos secadores em banheiros ainda úmidos do banho, chegamos perto demais dos trilhos do trem ou do metrô, ou… Deixamos de usar a bendita camisinha?

Sempre esquecemos como somos pequenos diante dos mistérios do universo… E como somos vulneráveis e efêmeros. Simplesmente apagamos estes dados de nossas mentes. E justificamos esses lapsos com nossa importância para o mundo. Como se nenhum de nós pudesse morrer amanhã; como se fôssemos poupados por sermos grandes dentistas, advogados, professores, designers, físicos e afins. Como se o câncer nunca atingisse pais, mães, ou crianças inocentes. Como se companheiros fiéis e exemplares nunca pudessem ter gonorréia. Ou pior – a boca cala, mas as reticências da mente mostram, em letras garrafais, a sigla dessa doença cruel, que não mata, mas permite que todas as coisas da Terra tenham esse poder(dobrado).

Gostamos do conforto de pensar que nunca vai acontecer conosco, gostamos de participar de certas coisas para dizer que “fizemos nossa parte”. É de nossa natureza humana, colocar as coisas nocivas num plano distante para manter a segurança de nossos pequenos mundos. De certa forma, é bom vivermos assim. Se tivéssemos medo e consciência de tudo, talvez fosse impossível aproveitar a vida. Talvez seja bom sermos alegremente ignorantes sobre muita coisa; mas hoje, não podemos e nem devemos fazer isso. Hoje, é dia de refletir. Lembrar de todas as vezes em nossas vidas onde, por “descuido”, quase deixamos de ter no que pensar hoje – cadáveres não tem funções cerebrais ativas. Hoje é dia de agradecer pela sorte de estar a salvo, e não deixar que estes deslizes se repitam. É dia de lembrar de quem trilhou esse caminho árduo – e nele pereceu – para que tivéssemos e preservássemos nossas lindas vidinhas intactas.

Antes de botar a cabeça no travesseiro hoje, sugiro que todos pensem. Eu passei o dia pensando. Eu sou humana também. E tive muitos atos falhos. Por muita sorte, estou aqui. E pretendo continuar por muito tempo – se eu for embora, ninguém mais atormenta vocês, certo?

Nenhum de nós pode consertar o ontem, cheio de deslizes. Também é impossível prever o amanhã. Nós temos hoje. Então vamos usar o hoje, tomar as lições do ontem e aproveitar ao máximo. Vamos nos valorizar e apreciar a vida que temos. É o mínimo que podemos fazer.

É importante ver, com os dois olhos, os dois lados – para mudar uma única realidade, a que temos. O jovem não é o amanhã, ele é o agora.

Herbert de Sousa, o Betinho, foi um grande sociólogo e guerreiro brasileiro, lutando por todas as causas possíveis e imagináveis. Boa parte da estrutura que temos no país hoje tem relação direta com as campanhas promovidas por ele e seus irmãos. Foi ele quem desmistificou o vírus da AIDS para a sociedade brasileira, cheia de preconceitos contra a doença e seus portadores.

Betinho, Henfil e Chico Mário, três irmãos de sangue, morreram de complicações causadas pelo vírus da AIDS. Mas durante suas vidas foram símbolo para todos de galhardia e celebração, lutando contra a doença e contra a discriminação sofrida através do esclarecimento. A Associação Brasileira Interdisciplinar de AIDS, fundada e presidida por Betinho até sua morte, ainda existe e está envolvida em diversos projetos de assistência, prevenção e educação sobre os aspectos da doença.

E estranhamente, hoje, quase não se mencionou o nome do homem a quem todos devem a vida.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.