Bom senso: o melhor filtro

Antes de começar, que fique claro: este é o meu espaço individual. Aqui, eu posso escrever o que quiser. Pois segue a minha opinião.

Meu chefe tem um mantra, que repete sempre que as coisas desnecessárias começam a ser debatidas demais: democracia é uma m***a.

Eu gosto da democracia. Ela é falha, mas permite a todos que nela vivem o exercício de duas habilidades fantásticas: a tolerância e o bom senso. Gostando ou não do que é decidido, temos que viver com isso. E quem tem a decisão, deve ter discernimento para usá-la.

Vivemos a democracia na nets. O que a maioria gosta, pega. Vira “retrato da cultura para todas as classes”. E há quem tenha que aprender a viver com isso. Há quem precise exercer o bom senso de usar seus 140 caracteres com moderação.

Moderação. É ofensa? Será que gera danos morais? Provável que inventem o churrascão da gente moderada, como nota de repúdio ao que disse.

É por essas e outras que a democracia é exatamente o que meu chefe diz: ninguém quer aprender a moderar, e isso extrapola a paciência de quem se esforça para tolerar. Mas de alguma forma, declarar isso é ofensivo. Um “atentado contra as liberdades”.

Parece que dizer a alguém para moderar atos e palavras equivale a xingar a mãe. Aí, vale qualquer coisa, pois “isso aqui é a internet e eu faço o que eu quiser”. A educação, grande amiga do bom senso, mandou lembranças.

Vamos a um exemplo bem conhecido: o BBB. Todo ano, vem a avalanche de gente comentando, compartilhando, postando imagens, vídeos e afins, de 5 em 5 segundos, em todos os lugares possíveis e imagináveis.

Sabem o que esse comportamento me lembra?

Estamos substituindo o pancadão do Joselito pela Avalanche do BBB.

A capacidade das pessoas de moderar, de usar o filtro do bom senso, está tão morta quanto a atividade cerebral do Bolsonaro. Percebam o absurdo: para usar qualquer rede social, você, pessoa que não gosta do assunto, é obrigada a usar um filtro, algo que bloqueie a avalanche sobre o BBB, porque seu vizinho de Facebook ou Twitter não tem bom senso e não se modera para postar. Isso, ou você é obrigado a não freqüentar as redes sociais. Ou ainda a cortar a amizade. Cadê o nexo nisso?

Existem filtros na vida? Nós colocamos cones nas orelhas cada vez que as famílias começam a falar da vida alheia? Não. Saímos de casa durante os almoços chatos de domingo? Não. Expulsamos as tias da cidade? Não.

Acham exagerado? Façam um experimento para comprovar: parem na sala de jantar, com todos presentes, e saiam falando de qualquer assunto, só de interesse de vocês. Mas façam isso em voz alta, e na mesma velocidade com que compartilham coisas no Facebook. Mesma intensidade, e freqüência também. Experimentem isso no trabalho. Em bares, festas… Em qualquer lugar “social”. O resultado será parecido com esse.

Embora eles devam conviver com os seus gostos e assuntos, ninguém é obrigado a agüentar quando você perde o controle. E seria ótimo que fãs de BBB percebessem isso, só um pouquinho.

Na rede social, é diferente. Já disse uma vez: lá, tem gente ouvindo. O perfil é seu? Sim. O corpo que você leva para a Festa Blogo também é. Mas existem outras pessoas ao redor do seu corpo na festa – e outros perfis ao redor do seu, que devem ser respeitados.

Todo mundo adora falar, e adora achar que perfil de rede social é igual o banheiro de casa, onde se pode cantar pelado e ninguém tem nada com isso. Mas esquecemos que estamos em uma rede social. Tem gente ouvindo, tem etiqueta pra seguir, respeito pra exibir e bom senso pra usar.

Não é censura, não é ditadura, não é liberdade religiosa. É apenas o bom senso. Vale para os fãs do BBB, para os seguidores do Melhor do Melhor do Mundo, da Clarice Lispector, do 9GAG, do Unidos contra o Rock, do Humor no Face, do Carpinejar, da Cleycianne… Vale para todos. O desafio: conseguem exercer o bom senso de não falar disso mais de 24469809978 vezes por segundo?

As pessoas tolerantes agradecem. Bastante.

Se até eles conseguem, por que nós não conseguimos?