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Bom senso

São muitas as palavras que proferimos no cotidiano, associando-as a determinadas atitudes, pensamentos e sentimentos. São muitos os verbetes estranhos do dicionário, utilizados para julgar o mundo ao redor. E são muitas as discrepâncias, palavras proferidas, doutrinas pregadas e a conduta que temos. Você se acredita imune, caro leitor? Não julgue tão rápido. Para cair em contradição, basta ser humano.

Eu sei, você já desistiu de ler até o fim. Seja brasileiro, caro leitor; não desista. Antes de julgar, aprecie o caso. Você pode se surpreender. Então, vamos lá. Dicionário na mão, consciência em ação, e muita atenção.

Digo sem cerimônias, sempre tive medo da palavra “xiita”. E tenho reservas com o que ela significa. No dicionário, consta como xiita o ramo mais ortodoxo do Islã. Até aí, nada contra.

Mas a palavra “xiita” também consta, na sociedade, como sinônimo de radicalismo. E radicalismo é sinônimo de intolerância. Aí mora o medo – e o perigo também. Mesmo com todos estes sentimentos, os eventos das últimas semanas trouxeram muitas questões.

Por que associar radicalismo somente às práticas ortodoxas do Oriente Médio? Concordo que por vezes, os senhores aiatolás fazem por merecer o signo negativo. Mas por que SÓ eles? Os protestantes não são, historicamente, exemplo de candura e placidez – preciso voltar ao Ensino Médio para lembrá-los de Thomas Cromwell, o artífice de uma das reformas protestantes mais violentas da História? Quem não lembrar da escola, pode conferir a versão suave na série The Tudors – suave porque nessa série, tudo é lindo, até a ferida de gota de Henrique VII. Ah, os xiitas da TV; não se pode mostrar nem o feio, e nem o verdadeiro. A Rede Globo poderia assumir que na Azeda não existe sorveteria, e que Zé Mayer e Giovana Antonelli estão em Angra dos Reis, mas deve ser mais divertido iludir os turistas e fazer propaganda enganosa de uma das cidades mais lindas do Brasil.

Preconceito é uma coisa traiçoeira. Esta palavra está associada a radicalismo bem antes dos eventos que tornaram essa doutrina religiosa “famosa” no mundo. Mas a palavra “anglicano” tem um significado tão bonito. E na prática, o radicalismo protestante, em muitos países, foi muito mais brutal que qualquer ato fundamentalista ligado ao Islã, ou aos xiitas. O radicalismo católico foi cruel com muitos povos e civilizações por séculos – perguntem aos nossos indígenas, eles contam. Qualquer ministério dado hoje nas igrejas evangélicas tem um teor bem mais agressivo que discursos do Bin Laden. Ironias xiitas…

Pois bem, vamos lá. Xiitas e radicais, nós condenamos. Aliás, nem precisamos saber suas razões ou tentar compreendê-las; é mais simples julgar. Isso não é radical de nossa parte? Talvez esta conduta nos transforme em xiitas dos xiitas. E em nome de Alá, haja turbantes!

Pensei nisso enquanto a saga da loira da Uniban se desenrolava Brasil afora. Ela usou um vestido. Seus colegas de faculdade foram xiitas com a extensão do pano. A instituição foi xiita com os xiitas do comprimento. Outras pessoas foram xiitas com o xiitismo da instituição. E outros ainda foram xiitas com as maneiras xiitas de manifestação contra os xiitas da instituição que abriga os xiitas do comprimento.

Por xiita, leia-se a interpretação geral, radical. Intolerante. Toda essa balbúrdia por um pedaço de pano. Tanto julgamento e revolta por um vestido, encontrado em qualquer loja no metrô de São Paulo.

Quando há tanto a fazer pelo país, pela sociedade e pelo mundo, as pessoas colocam sua energia em julgar eventos ocorridos acerca de um vestido. Há quem defenda o paninho, quem critique, quem defenda a crítica, e quem critique a defesa. Há os que fazem troça do paninho. Há os que pagam para fotografar o paninho – ou a falta dele. Com a propriedade xiita digna dessa sociedade tupiniquim, formamos, em segundos, cerca de 170 milhões de aiatolás morais. Maravilha.

Enquanto isso, a propaganda eleitoral do PSC não sabe dizer o que é desenvolvimento sustentável; mas também diz que se votarmos neles, serão capazes de promovê-lo para a segurança de nossa sociedade – se você assistiu essa propaganda na última quinta-feira e sabe o que quer dizer essa expressão, você também ouviu isso. E onde estava seu xiitismo no momento? Eu sei que ele se manifestou diante do erro do William Bonner no Twitter, mas por que nisso ele desapareceu?

Os nossos aiatolás ainda estão preocupados em medir paninhos. Alguns estão mudando o foco. Estreou o novo filme da saga dos vampiros de mentirinha, e agora temos xiitas sobre o filme, xiitas em mitologia, xiitas na translucidez radioativa de Robert Pattinson, xiitas comportamentais discernindo sobre o xiitismo das adolescentes… Sinto-me convertida ao Islã, em meio a tantos seguidores de Maomé. Ou será Lula? Não sei, um deles é o deus filho do Brasil, e está nos cinemas para adoração. Isso, claro, se três raios não caírem ao mesmo tempo e deixarem 75% dos cinemas sem energia. Somos xiitas em nossa ingenuidade; Mulder e Scully ficariam atônitos se tentassem resolver um caso por aqui.

A palavra não é repetida à toa. Tem um som estranho, causa arrepios e evoca sensações ruins. Faz temer, e tremer. Imediatamente, nos faz reprovar, sem nem saber a quê. E ao fazer isso – julgar sem mais esclarecimentos – o que somos? Preciso escrever de novo?

Opiniões são sempre válidas. Definem a sua posição diante do que ocorre à sua volta. É importantíssimo ter uma opinião a respeito das coisas.

Mas também é importante avaliar o que merece a emissão de uma opinião, nessa magnitude. Você, que faz parte do povo brasileiro e que com certeza já deu uma olhadela na estimativa orçamentária da campanha eleitoral de Dilma Roussef, realmente acredita que discutir o vestido, o filminho, o clipe da Lady Gaga, a culpa da Helena, o cofrinho d’A Fazenda e outras coisas “cotidianas” merece toda essa atenção?

O poder dos xiitas brasuquinhas foi sentido pela diretoria da Uniban, que reverteu a expulsão do vestido por conta dos aiatolás, digo, da opinião pública. Esta força poderia ser muito bem aproveitada questionando todos os feitos de João Vaccari Neto a partir de agora – e você nem sabe quem é o ser, não é? Confira aqui.

Essa mobilização poderia ser eficaz em ação concreta contra os doutos parlamentares, que agora andaram mexendo na regulamentação de concursos; e pelo jeito que vai, é capaz de mexerem na Constituição para retirar a obrigatoriedade da prova. Aí fica mais fácil nomear a filha, o mordomo, o vizinho e o cachorro, tudo cortesia do seu bolso.

Mas aí está você. Lendo este post e sendo xiita a respeito. A palavra “bobagem” deve ter passado por sua mente algumas vezes, caro leitor. Eu sei disso. Costumamos ser xiitas a respeito do que nos é dito, sendo verdade ou não. Porque cada um de nós é especial – e somos xiitas ao acreditar que por isso, nossa percepção do mundo ao redor é absoluta. Nem eu estou imune a isso.

A grande ironia é que somos tão xiitas quanto ao nosso xiitismo, que sequer admitimos que ele seja mencionado. Se isso ocorre, nos tornamos xiitas na negação, e na ignorância também. E assim, permanecemos alienados em nossos turbantes. Não peço que mude, nem que concorde, caro leitor. Peço apenas que avalie cada pedacinho de sua consciência. Se encontrar algum traço xiita, não se desfaça dele, e nem o isole. Converse com seu aiatolá. Tente compreendê-lo… Sem julgar.

Originalmente postado em 23 de novembro de 2009.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.