Carna Greve: eu NÃO vou

Alô vocês. Estamos de volta às laudas blogueiras. Sempre disse: greve no Brasil é praticamente show da Ivete. E os textos por aqui são longos e inconvenientes. Vamos lá. Saquem os óculos e boa leitura. Como sempre, não me responsabilizo por eventuais cataratas, enxaquecas, desilusões, crises existenciais, rompantes de fúria e afins.

Vejam onde Ivete está: na Bahia. É quase uma micareta. E foi para o Rio também. É festa no Brasil.

A PM da Bahia está parada há 10 dias; a do Rio acabou de entrar em greve. Não acho as pretensões ilegítimas. Sendo o salário base deles de R$566,44… Sustente a família com essa. Existem outros fatores, como a PEC 300, relevante para todo policial militar.

História contada, paz na Terra. Mas há mais aqui para ver. Porque estes são servidores públicos, e não podem parar assim, certo? Errado.

Ficam os nossos protestos de “mais alta estima” ao Congresso Nacional. Por quê? O direito de greve dos servidores públicos é resguardado pela Constituição desde 1988, com essa pegadinha.

Art. 37. A administração pública direta e indireta de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência e, também, ao seguinte:

(…)

VII – o direito de greve será exercido nos termos e nos limites definidos em lei específica;

Quero que vocês adivinhem onde está a lei específica. Vinte e quatro anos. Nada de lei. Um brinde à inércia brasileira.

Pelo menos, o Judiciário mexeu os pauzinhos para remediar a situação, determinando que se aplicasse a Lei 7783/89 – que disciplina o direito de greve do setor privado – aos servidores públicos, até que se edite a lei específica.

Ficamos assim: é permitida a greve, pero no mucho. Isto porque existem limites para os chamados “serviços essenciais”. Médicos, motoristas de ônibus, os lixeiros, o povo de Angra II, aeronautas e… Bancários. Dentre outros. É. O que fizeram ano passado? Não podiam fazer. Simples assim.

Nas áreas essenciais, o serviço não pode parar. E convenhamos: todos os serviços públicos são essenciais. Os sindicatos, empregadores e trabalhadores são obrigados a garantir a prestação de serviços. Eles também são obrigados a avisar da greve com pelo menos 72 horas de antecedência. Pergunto-me se o governador da Bahia teve tanto “aviso” quanto o Kassab, na última greve de ônibus.

Para o PM, a coisa piora. Porque eles são militares. Não é só serviço essencial: é militar. Sujeito ao Código Penal Militar, que não é amigo da garotada. Por isso, os PMs não querem terminar a greve sem anistia. O Judiciário não salva ninguém: o STF decidiu que servidores armados não podem parar.

Eles sabem que fizeram caquinha. E eles sabem que não vai passar em branco. Mas por que não terminam a greve? É o que todos perguntam. Quando a greve chega naquele beco sem saída onde ninguém acha bonito e apoio é mito… Por que eles não param?

A resposta se traduz numa agremiação sanguessuga fundada para desserviços aos associados. Esse monstrinho é mais conhecido como sindicato. Um dia, quando Gandalf ainda caminhava pela Terra Média, o sindicato era importantíssimo para o trabalhador. O que faz o sindicato hoje? Ele diz que defende interesses econômicos, profissionais, sociais e políticos dos trabalhadores. Também diz que faz muito para melhoria de salários e condições de trabalho. Palmas.

Você, que está lendo. É filiado a algum sindicato? Então, responda essa. O que o sindicato faz por você, depois de comer as “módicas” quantias de contribuição sindical?

“Ah, o sindicato luta pelo poder dos trabalhadores oprimidos e…”

Sim, conheço a cartilha do PSTU. Mas o que o sindicato faz por você?

Ele negocia planos de saúde com seus empregadores? Checa a qualidade dos alimentos na sua cesta básica? Fiscaliza EPIs? Busca convênios melhores para transporte? Oferece cursos de verdade? Mantém clube, academia, biblioteca, qualquer coisa que te ajude a relaxar, cuidar da saúde (sem ser no hospital) e crescer? Ele negocia, de verdade, os salários com os empregadores? Você vê seu sindicato fazendo propostas durante o ano de negociação da Convenção Coletiva? Você vê o sindicato negociando, de verdade, para que ninguém perca o emprego em épocas duras das empresas?

Ele faz isso? Ou só envia newsletters falando da “luta pelo trabalhador” e convoca todos, às vésperas de algo político importante – ou do fim da convenção coletiva – para a GREVE?

Se a sua resposta resta traduzida em reticências, sugiro que comece a perguntar ao sindicato o que ele realmente faz por você. Porque ele ganha uma boa parte do seu dinheiro para isso. E serviço, ele não está mostrando. O que o sindicato mostra é o que está na Bahia. E agora, no Rio de Janeiro. Ele mostra prejuízo, e só isso.