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Cinquenta Tons de Sils Maria

Ok, depois dessa folguinha, eu ia começar a fazer as resenhas dos filmes do Oscar. Mas o fim de semana estava no meio do caminho, e o Nostalgia Critic também. No último episódio de Sibling Rivalry, Doug e Robert Walker comentaram o filme mais odiado de 2015. Ou mais amado, enfim. Tem cinquenta tons de reações espalhadas por aí sobre esse filme.

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(preciso MESMO soletrar o nome do filme, ou todo mundo já pescou?)

Depois de ouvir como Cinquenta Tons de Cinza é ridículo pelo vlog (eu já sabia, mas é sempre bom confirmar), resolvi assistir um filme e tirar a cabeça da procrastinação eterna. E assim cheguei a Clouds of Sils Maria, um filme franco-americano com Juliette Binoche e Kristen Stewart. Nesse filme, La Binoche (não encham, é chique) vive Maria Enders, uma atriz consagrada e amada por tudo e todos no universo, e a Cara-de-Nada é a assistente pessoal dela, Val. Encontramos Maria indo pra Zurique receber um prêmio em nome do homem que a lançou ao estrelato quando lhe deu o primeiro papel de sua vida, numa peça dele: Maloja Snake. Mas no meio do caminho…

Sensibilidade é uma maravilha...

Sensibilidade é uma maravilha…

No meio do caminho, Maria fica sabendo que o todo poderoso morreu. Mas mesmo triste com a notícia, ela precisa receber o prêmio e fazer a homenagem. Alguns reencontros, reflexões e desgostos depois, Maria encontra Klaus Diesterweg, um diretor que quer montar a peça lendária, mas com um twist. A tal lenda dos palcos trata o relacionamento de duas mulheres, Sigrid e Helena, e os efeitos desse affair nelas. A estreia de Maria foi como a avassaladora Sigrid; Klaus quer que Maria agora encarne Helena, a mulher frágil no olho do furacão. E a Sigrid agora vai pra uma atriz nova (como ela era): Jo Ann Ellis, interpretada por Chloe Grace Moretz.

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Mesmo relutante, Maria topa a empreitada, em respeito ao amigo morto. E embarca numa viagem com a assistente cara-de-nada, onde aprende mais sobre o enredo enquanto ensaia à exaustão. Entre os ensaios, as descobertas e os desgostos, Maria é forçada a lidar com o sumiço da Val (ela cansa de ter cara-de-nada e vira… Nada), os constantes ataques inconscientes de estrelismo de Jo Ann e a mudança de foco (antes, todas as atenções estavam em Maria Enders; agora, todo mundo quer saber de Jo Ann Ellis e o último escândalo). Claro que eu não vou contar tudo, porque quero que vocês vejam o filme. Mas ninguém morre no final, fiquem sossegados. Ou não.

Elas estão rindo do César que a Kristen Stewart ganhou por esse filme.

Elas estão rindo do César que a Kristen Stewart ganhou por esse filme.

E vocês estão imaginando o que isso tem a ver com os cinquenta tons de chatice em cartaz nos cinemas. O filme, em si, nada tem a ver com os cinquenta tons. Mas as mensagens plantadas – principalmente ao redor da peça – são críticas pesadas ao mundinho de entretenimento que nos cerca.

Os roteiristas estão de parabéns por proporcionarem certas ironias da vidinha – como a cena da Kristen Stewart narrando os escândalos da personagem da Chloe Grace Moretz, levemente (ou totalmente, em alguns aspectos) baseados nos escândalos da própria Stewart. A Maria de Juliette Binoche é praticamente Sir Ian McKellen: uma atriz fabulosa e querida por tudo e todos (e que detesta ser lembrada pelo papel de mutante que fez). Grace-Moretz foi caracterizada ora como a Stewart, ora como a Lindsay Lohan (e sabendo disso, você entende porque a Cara-de-Nada recusou o papel da Moretz).

A própria peça, que tem uma história super simples (até sem graça), mas é glorificada por todo mundo – o que provoca o ódio supremo da Maria Enders – parece muito com os famigerados Cinquenta Tons de Cinza: uma história simples, por vezes sem graça, que foi glorificada demais. Dakota Johnson e Jamie Dornan, daqui 20 anos, podem ser como Juliette Binoche no filme: vão odiar ser lembrados como Nemesis.

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Eu também ficaria brava, La Binoche. Muito brava.

Eu só achei uma coincidência incrível ter visto esse filme, com todas essas mensagens, logo depois de aturar o burburinho da fila de ingressos para os 50 Tons no Center 3, na sequência de ter visto (mais) um vlog acabando com a história toda. E quis dividir a experiência. Mas os franceses são assim mesmo. Eles adoram fazer filmes pra forçarem as criaturas a pensarem sobre as coisas da vidinha. Vejam Clouds of Sils Maria e pensem vocês também.

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.