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Com a palavra, a Consciência

Como é sabido, não navego por estas águas sozinha. Este blog tem Oráculos – um deles já revelou seus pensamentos aqui – e a Consciência. Aquele que fica sabendo, antes de todo mundo, do que acontece neste meu mundinho. Pois bem, a Consciência foi convidada para escrever algumas palavrinhas sobre o mundinho dela. E eis o resultado. Não nos responsabilizamos pelas cataratas; mas saibam todos que há mais dessa dupla infalível e implacável (a Insolência, euzinha; a Consciência, ele mesmo) pra ver. Aguardem novidades. E sem mais delongas… Segue o relato.

Fico um pouco pensativo às vezes. Será que realmente me graduei naquilo que eu gostaria?
Sou uma pessoa que tende a fazer as coisas do jeito mais ponderado possível; e, se isso não for possível, ao menos do mais correto. Nem sempre esses dois estão interligados – ainda mais na profissão que escolhi para mim. Como advogado, sinto-me constantemente atingido psicologicamente pelos casos que pego.
Assim como qualquer outra graduação, nós aprendemos a realizar diversos tipos de procedimento, dos mais banais e simples ao mais complexos, que necessitam de precisão para que se tornem efetivos e eficientes dentro do que conseguimos fazer.
Ultimamente, andamos ouvindo muito falar em pequenos fatos isolados, mas muito noticiados, sobre juízes que não honram suas togas – ainda que sejam uma minoria minúscula, e também sobre advogados que não cumprem com seu juramento de agir sempre a favor do bem maior da sociedade. Isso faz muitos pensarem em uma suposta “falência” do Poder Judiciário e da Justiça brasileira como um todo, uma vez que casos isolados de pessoas imorais que, infelizmente, se infiltram em todos os meios, incluindo o meu (ou nosso, por que não dizer?), conseguem, muitas vezes, tomar proporções de um leviatã.

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No entanto, assim como há gente sem honra no Direito, há em outras tão essenciais quanto. Um médico que comete um erro e acaba por levar alguém a óbito nunca fez ninguém pensar que isso leva à “falência da medicina”, já que a esmagadora maioria dos médicos age baseado em princípios éticos rigidamente fiscalizados. Tampouco o professor que ensina algo fundamentando-se em algo ultrapassado leva ao “fim dos tempos do magistério”. Tudo depende da intensidade e da forma com que as coisas são noticiadas. Imagine se todos os advogados fossem entrevistados e fossem dizer dos absurdos que as pessoas contam a eles todos os dias?
Recentemente, fui indagado por um amigo sobre uma inscrição para mestrado em uma universidade federal. Aparentemente, houve uma greve na instituição e ela própria acabaria atrasando a entrega de alguns documentos essenciais para essa inscrição se efetivar. O que meu amigo gostaria de saber é: A Justiça poderia acobertá-lo, caso ele viesse a ser prejudicado por algo que não é culpa dele de forma alguma, uma vez que ele já havia sido bem-sucedido em todas as etapas anteriores para ser aprovado no processo seletivo do mestrado?
A resposta me parece óbvia, até para quem não é bacharel em Direito; é mais do que natural saber que o Poder Judiciário o ajudaria, caso a universidade realmente fosse prejudicá-lo. Mas o que torna a situação curiosa é o fato de que ele já saiu me perguntando os valores que eu cobraria para peticionar a seu favor, sem nem mesmo ter tentado realizar a inscrição no tão sonhado curso. Ainda, ele tentou fazer a petição por si só, do que veio da cabeça dele, ignorando completamente todo o procedimento que existe dentro da Justiça brasileira para se requerer qualquer coisa nela.

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A conclusão que eu tirei disso foi apenas uma: As pessoas andam com uma sede de “justiça” tão grande, que elas acabam deixando de lado o fato de que existem formas e formas de conseguir o que querem. Se algo chega até o Poder Judiciário, é porque a briga é feia mesmo! Acionar alguém judicialmente é caro, demorado, desgastante e, muitas vezes, gera um estremecimento das relações entre as partes envolvidas que nunca mais é resolvido. No caso que descrevi, não seria mais fácil tentar chegar a um acordo, procurar outras vias menos agressivas e solucionar tudo antes de chegar à Justiça? Às vezes, o “agressor” nem sabe que está agindo de tal maneira, e se mostra plenamente disposto a dar um fim ao problema sem nem contatar um advogado. Claro que existem muitas situações em que não há o que fazer fora da via judicial, em especial quando envolvem grandes empresas ou entes públicos, que têm um processo interno rígido e não podem se flexibilizar dessa forma; mas, por que não tentar, de qualquer maneira?
Se isso acontecesse somente no âmbito do Direito, entretanto, que felizes que seríamos! Os famosos “comentários da internet” mostram que estamos sofrendo desse mal, de desqualificar o outro e supervalorizar as próprias virtudes, de forma generalizada. O famoso “vai estudar, seu #@%*&!”.

tumblr_mt8fu8nezz1s3p06ao9_250Hoje mesmo, fui almoçar num restaurante perto de onde trabalho, um japonês simples, que serve pratos rápidos. Sentei-me, fiz meu pedido e comecei a ler uma revista que tinha trazido comigo. Alguns minutos depois, sentaram-se quatro moças, entre seus 20 e 25 anos, ao meu lado, e começaram a conversar avidamente sobre diversos assuntos sociais, tão em voga, graças a deus, hoje. Não sou um grande fã de bisbilhotar a conversa alheia, mas elas falavam tão inflamadas que era impossível não prestar atenção em pelo menos alguma coisa. No meio das falas, eis que uma delas diz: – Sou de família tradicional, mas não sou religiosa porque estudei um semestre de teologia na faculdade. A teologia me mostrou que o catolicismo é errado, por isso sou budista.

Quase pedi para intervir na discussão para dizer que eu também estudei teologia por um tempo mais longo que um semestre. Ao que me conste, o budismo não abandona o seu status de religião; sua essência não é propriamente diferente das de outras fés. Religião é religião, e, embora algumas sejam mais invasivas ou tenham um número maior de seguidores radicais que outras, todas elas compartilham alguns pontos básicos que não permitem que as separemos totalmente umas das outras. Muito menos de “desclassificar” uma ou outra fé, como se o fato de acreditar em algo que um ou outro não gostam ou aprovam fosse um sinal de fraqueza intelectual.
No que pese o juízo de valor sobre qualquer religião, o que quero dizer é o seguinte: seja lá qual for a formação da moça que proferiu a frase que citei, isso a torna uma pior administradora/médica/economista/pedagoga/engenheira/advogada? Todo mundo disse, diz ou dirá alguma besteira, e isso não faz com que as pessoas sejam melhores ou piores que outras automaticamente. Muitas vezes, queremos falar sobre algo mesmo sem conhecer profundamente o tema, mas isso não é um erro tão grande assim se feito com uma certa moderação. Quem erra profundamente é quem apedreja publicamente alguém por não concordar com a opinião da pessoa – aí sim a semente da ignorância absoluta floresce. E é isso que, infelizmente, em uma de minhas áreas de atuação profissional, acontece frequentemente. Falta de diálogo e de boa-vontade que levam estruturas sólidas a ruir lentamente. Bem aventurados não são aqueles que mandam estudar ou generalizam grupos de pessoas, e sim aqueles que estudam e compartilham o que sabem, e aqueles que valorizam os que lutam diariamente para honrar as classes às quais pertencem!

Yay.

Yay.

Luis Fernando Adas é advogado especializado em contencioso criminal e cível em São Paulo – Capital e faz as vezes de Consciência neste blog.

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Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.