Como ser bode expiatório da burrice alheia, por revista Veja

Neste mundinho, nada acontece sem ser fotografado, comentado e compartilhado. Não sei quem criou essa simbiose dos veículos de comunicação com a “Síndrome de Attention Whore” dos seres humanos. Só sei que é assim. E que às vezes, tem consequências sérias. E claro, muitos facepalms.

Mas antes de prosseguir, peço que você pegue todos os pensamentos anti-tudo e jogue ali na lixeira. Isso vale para os pró-tudo também. Todos vocês: usem o bom senso.

Ser anti-tudo, ou pró-tudo, não te leva a lugar nenhum. E vai fazer com que você não entenda uma palavra do que digo. Quem não entende, distorce. E quem distorce me dá enxaqueca. Então, pelo bem da minha saúde, não seja assim enquanto lê.

Primeiro: a Veja não incentivou crime federal nenhum. Tem gente repassando isso como mantra. Não, gente. A prova deixou de ser sigilosa no momento em que foi entregue. A partir daí, ela era de domínio público, observando-se as regras do ENEM.

Por que o tweet da Veja é tão especial? O UOL cobria o ENEM com imagens. O Estadão também. Mas eles não estão na grelha.

O problema, como diria meu chefe, é que o inferno está cheio de boas intenções. O tweet em si não incita nada. É uma tentativa de interagir com internautas sobre esse evento. Mas o tweet não restringiu nada, e isso causou erros na interpretação da coisa.

A Veja não disse “passem fotos da prova aí”. Ela disse “compartilhe fotos do ENEM”. O ENEM é um grande evento estudantil. Por fotos do ENEM, podemos compreender o povo barrado no portão, o lixo produzido por panfletos de cursinhos nas portas das escolas, o trânsito… E sim, a prova. Muita coisa num contexto só. A Veja não excluiu a margem de erro que coloca a prova ali no meio. Isso levou algumas mentes – nada brilhantes – ao justo erro. O dano é evidente: a chance de universidade foi perdida (ao que eu particularmente dou graças, porque nossas universidades não aguentam mais gente burra tentando tapear até se formar).

A pergunta que não quer calar, pra muita gente, é a seguinte: a Veja tem responsabilidade nisso? Eu entendo que em termos. De cara, isso não aparece. Mas se alguém quiser – e depois do rebu da Maria Frô, alguém vai querer – responsabilizar a Veja pela desclassificação no ENEM… O tweet gera uma vulnerabilidade complicada. O ENEM proibia o registro da prova (e a fotografia é um registro, oi), e o uso de qualquer aparelho eletrônico no local da prova. Três fatos, então, devem ser considerados:

1 – O MEC proibiu expressamente o registro da prova, e o uso dos aparelhos eletrônicos no local de prova;

2 – A Veja twittou antes da prova;

3 – Os candidatos foram desclassificados por postarem imagens digitais durante a realização da prova.

Aqui, as coisas entortam. O MEC não puniu só quem tirou foto da prova; quem estava brincando no Instagram durante a prova pra qualquer coisa, foi punido. Teve gente que foi desclassificada por tirar foto de banheiro quebrado no local de prova. Curiosamente, fotos assim estão debaixo da hashtag da Veja. Entramos numa área nebulosa da coisa, onde estabelecer a responsabilidade da revista depende bastante da capacidade intelectual de cada um.

pedromagicxl2Juridicamente, esta é uma emboscada. Há quem entenda “culpa exclusiva da vítima” aqui: quem compartilhou fotos o fez sabendo das consequências, já que tinham noção das proibições. E isso está correto. Há quem – como eu – entenda nesse tweet um excesso no exercício do direito. A Veja queria explorar o máximo de seu fim social na cobertura desse evento, mas acabou extrapolando. Mas este excesso deverá ser demonstrado nos mínimos detalhes (e não sou eu quem vai fazer isso, oras). E isso também está correto.

Há ainda os consumeiristas. Estes entendem que a Veja provê informação. É um produto pra eles. E que o tweet é um vício no produto. O mesmo raciocínio se aplica quando pensamos que prover informação é um serviço. E isso, claro, gera consequências que caem no quintal do amigo PROCON. Pois é, mais uma correta.

O que fazer com tantas coisas certas? Oras… Não tem muito a fazer. Como diriam as crianças de Jogos Vorazes: que a sorte esteja a seu favor, no que você escolher.

O que eu acho? A Veja deveria ser advertida pelo MEC, pra que isso não se repita. Meu máximo aqui é dar lugar no Panteão dos Parvos para o tweet infeliz. E só. A revista não tem culpa da burrice alheia, mas deveria deixar de dar motivo para ser bode expiatório. No entanto, sei que muitos buscarão conforto nos braços do Judiciário, já que o questionamento persiste. É por isso que AMO Direito. Aqui, todo mundo pode ser ouvido. E teses bem construídas são ponderadas. Mesmo que sejam tapados, os seres que tiraram fotos ainda podem provar seu valor por meio de um bom embate jurídico – e pelas canetadas que seguem.

É isso. Falemos das eleições municipais após as eleições americanas. Ou não, porque isso pode demorar.