É dia de Consciência, não de festa

Textão. Não me responsabilizo por eventuais cataratas, raivas de carapuças servidas e afins.

Mais um Dia da Consciência Negra. Festa, marcha, todo mundo vai postar a foto do Pantera Negra na Olimpíada, citações de Malcolm X vão surgir na internet e Nina Simone vai disparar no Spotify. Que maravilha… Só que não. Porque esta NÃO é uma data comemorativa. Certas datas estão no calendário porque tiveram que colocar uma data específica para que se refletisse sobre os erros cometidos todos os dias com as tais “minorias”.

Aspas são necessárias para demonstrar a ironia da minoria. O que você chama de minoria – mulheres, negros, LGBT – é tudo, menos isso. Estamos em maioria. Nossas vozes deveriam ser mais ruidosas, porque somos mais; mas por alguma razão cósmica, elas estão caladas.

As mulheres são maioria na população, mas não conseguem tomar as rédeas dos próprios destinos, já que a maioria dos membros dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário são homens. As pessoas que fazem e aplicam as leis e políticas públicas são as mesmas que propagam e mantém uma cultura opressora, onde mulheres ganham menos que os homens nas mesmas funções (trabalhando bem mais que eles), sofrem com assédio moral e sexual institucionalizado – ou chantagem mesmo, né Feliciano? – e com a leniência com agressores, que vive terminando em tragédia e mais audiência para pessoas como o Datena.

Isso sim, é uma maioria silenciosa. Uma que não quer suas rosas no 08 de Março. Este é o Dia Internacional da Mulher, e foi criado para que você, pessoa leitora, reflita sobre o paradeiro do seu machismo, e qual o seu papel nesse mundo que realmente acredita que somos todas Barbies, e que só servimos pra fazer a comida e ser a comida. É um dia para se pensar, e não para movimentar a floricultura.

giphy (2)

O mesmo ocorre com o Dia da Consciência Negra. É pra pensar onde você guarda os seus preconceitos, e o que tem feito pra obliterá-los. Esse é um dia para refletir sobre o seu papel numa sociedade que insiste em acreditar que o negro não faz parte dela. Não é hora de contar os amigos negros que você tem, nem de fazer homenagem. É um dia sério, fúnebre e solene.  Sabe o que se lembra hoje no Brasil? A morte de Zumbi dos Palmares.

Esta foi a data escolhida para refletirmos sobre como o preconceito está intrínseco na sociedade brasileira, como ele sufoca a maioria negra da população, e como podemos mudar isso. Precisamos lembrar da morte de um homem, para tentar recuperar a história brasileira; passamos muito tempo contando somente a versão “bonita”, aquela onde os bandeirantes são heróis e você não morre de vergonha pelo que seus ancestrais fizeram. Hoje, com a morte deste homem, nós refletimos sobre todas as consequências da “brilhante” ideia que tiveram os navegadores de outrora: a de chegar no continente alheio e chamar os donos da terra de coisas.

Entendam, de uma vez por todas, que consciência negra não é comemorar o fim da escravidão ou falar “nossa tenho vários amigos negros” nas redes sociais. Não é colocar a foto do Jorge Ben e compartilhar a música da Sandra de Sá. Consciência negra é entender o racismo. A noção pejorativa que se tem das pessoas negras, simplesmente por serem negras. Consciência negra é aprender um pouco mais sobre a história de um continente inteiro.

Consciência negra é parar de dizer para filhos e netos que os escravos vieram da África. Pessoas vieram da África, e foram transformadas em escravas, depois de serem desumanizadas. Repito: eram todos livres, e iguais, e donos de suas vidas no continente, até um europeu “feliz” desembarcar e dizer aos donos da terra que eles eram coisas. Que eram menos que gente. Que eram a última praga da Terra. Consciência negra é compreender que esse raciocínio permeia todos os aspectos de tratamento étnico-racial na sociedade, e lutar para mudar isso.

giphy-1

Dizem que o Quilombo dos Palmares caiu no dia em que esse homem morreu. Um lugar que não existiria, se as pessoas não acreditassem que o RGB determina seu status no mundo. Uma época não muito distante, em que se acreditava que quanto mais escuro o RGB de alguém, menos gente esta pessoa era. Zumbi cometeu um crime só na vida: acreditar que ninguém era menos por ser negro. Foi o suficiente para que se determinasse sua morte e se exibisse sua cabeça em praça pública. Como assim, um negro achando que pode ser gente? Igual a todas as gentes? Cortem-lhe a cabeça.

Isso aconteceu em 1695. Não está muito distante. Porque hoje, mesmo o negro sendo tão maioria quanto a mulher, ele possui zero representatividade. As mulheres ainda são vistas; mas a sociedade ainda se recusa a ver o negro como gente. 321 anos depois, o Brasil ainda acredita que combater o racismo é questão de opinião, enquanto vê a população negra, e tudo que se relaciona a ela, como menos. Há quem acredite que lutar por representatividade de raça e etnia nas instituições é “pensar em subclasses”, ou simplesmente “vitimismo“. Sério, sociedade, esta esquizofrenia precisa de tratamento urgente. Terapia já.

oie_GxD7Lpr3IIbW

Não fomos muito longe. Comemoramos o 13 de Maio, como se fosse favor parar de coisificar as pessoas; mas o 20 de Novembro… Esse, ninguém sabe o que significa. Mesmo sendo obrigatório ensinar História da África, e cultura dos negros no Brasil, as crianças não fazem ideia de quem seja Zumbi, e nem o que acontece na Rasa321 anos, e ainda estamos numa sociedade que não conta a história toda. Os relatos nos livros ainda pintam os quilombos como modas tão passageiras quanto os penteados dos anos 80; os bandeirantes possuem estátuas (horríveis) em toda cidade, mas ninguém se manifesta sobre o Aristocrata, ou o GTPLUN. Também não falam da retratação da Erundina por cassar o Museu Afrobrasil.

321 anos. Ainda há quem acredite justo, perfeito e cabível requerer que uma desembargadora decline da competência para um branco. Estamos num país onde o negro não pode ser padre, a paróquia não aceita. A criança negra parada na loja não pode estar ali para consumir; tem que ser ambulante, ou pedinte. Os rapazes negros saindo da loja só podem ser assaltantes, mesmo que tenham a nota fiscal. E enquanto o culto da gritaria na Igreja Universal é sagrado, a festa das crianças é coisa de macumbeiro que joga maldição nos outros. O pastor gritando, sapateando e dançando o tchan no palco é coisa séria, mas a ialorixá entoando seus cantos é palhaçada.

O professor negro não pode dar aulas sem ser chamado de macaco. A jornalista negra não pode fazer seu trabalho sem ter ofensas escritas aos montes nas redes sociais – e nem a atriz negra escapa disso. O goleiro negro não pode defender uma bola  sem ser ofendido da mesma forma. O jogador negro é expulso de campo por não tolerar isso. E só para coroar a não-evolução da sociedade brasileira, o mercado de escravos está aberto no Mercado Livre.

321 anos, e não estamos distantes. Negro continua sendo menos que gente, continua sendo algo – não alguém; algo – suspeito, ruim, e que precisa provar que tem direitos e competências. Essa maioria silenciosa e invisível está presa num sistema social esquizofrênico, que recusa tratamento psiquiátrico. Essa maioria negra ganha menos que todo mundo, tem as piores taxas de escolaridade (graças às piores escolas fornecidas do universo. Por que será, não é mesmo?) e as maiores taxas de desemprego do país, embora possua recordes de trabalho infantil e população carcerária. E quando supera todos os obstáculos do preconceito e chega a patamares altos, ainda precisa provar que pertence àquele lugar.

O negro é sempre visto como menos. E fica cada vez mais difícil nivelar isso numa sociedade que não reconhece a mulher negra como dona da casa, e sim como a subalterna; e uma foto de um negro fazendo cooper é associada à fuga de um ladrão. É complexo discutir o paradeiro do racismo numa sociedade que chama o vídeo do Governo do Paraná de “manipulação”. Não dá pra refletir sobre o preconceito, caro leitor, se você continua fingindo que racismo não existe. Não adianta ignorar, chorar na internet e falar que cota racial é bobagem. Não adianta sentar na timeline alheia do Facebook e falar que reclamar de não ter professor negro é mimimi.

tumblr_ls26f1trzp1qf6kqwo1_250

Sabe o que adianta? Reconhecer. Aceitar. Mudar. Lutar. Reconhecer que sim, o preconceito existe, está institucionalizado e precisa urgentemente ser combatido, em todos os fronts, e a ironia das minorias já perdeu a graça. Aceitar que você é parte deste problema, por estar inserido numa sociedade que propaga o preconceito, o racismo, o sexismo e a homofobia em níveis Sith. Mudar, e abrir as portas e janelas para todas as maiorias silenciosas, dando voz, valor e representatividade. Lutar para que a distância entre 1695 e 2016 aumente, e possamos dizer que somos todos gente.

Ninguém é menos. Ninguém é subclasse. E meu status de ser humano não é questão de opinião. Você não tem direito de me julgar pelo meu cabelo, pelo meu RGB, pelo tamanho do meu nariz, ou por qualquer coisa. Você não tem direito de controlar a minha história. E você não tem direito de negar a minha ascensão, ou dos meus pares, na sociedade. Acabou a época do preenchimento de cota; somos muitos, somos Legião, e estamos aqui para tomar nossos lugares de direito.

Hoje é Dia da Consciência Negra. E querendo ou não, caro leitor, os fatos são estes. Estamos aqui. Não vamos embora. Continuamos lutando para que você finalmente tome seu Gardenal e comece a terapia do preconceito. Somos negros, conhecemos nossa história, e contamos aos quatro ventos. Não ficamos calados, e rejeitamos os rótulos dados pelo seu preconceito. Você, caro leitor, pode aceitar isso e refletir sobre o paradeiro do seu preconceito, ou não. Mas as vozes da resistência só vão aumentar, até o dia em que você não conseguirá ouvir sua própria voz carregada de ismos.

giphy

É isso.