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Crônicas da Blogosfera

Há algum tempo, queria ter um espaço desses aqui. Alguma liberdade pra falar do que vejo ocorrendo na blogosfera. Pode ter muita relevância, pode ter nenhuma, mas enfim. Já disse uma vez: esse é o único espaço aberto na internet onde eu posso dizer o que me der na telha – vale pra mim, pra você, pra Claudia Leitte, pro Marco Feliciano… Enfim.

A Abercrombie & Fitch, vulgo “marca de roupa que simplesmente não me interessa” deu uma declaração interessante (?) essa semana. O CEO, Mark Jeffries, disse o seguinte:

“Good-looking people attract other good-looking people, and we want to market to cool, good-looking people. We don’t market to anyone other than that. In every school there are the cool and popular kids, and then there are the not-so-cool kids. Candidly, we go after the cool kids. We go after the attractive all-American kid with a great attitude and a lot of friends. A lot of people don’t belong [in our clothes], and they can’t belong. Are we exclusionary? Absolutely.” Tradução: “Pessoas bonitas atraem pessoas bonitas, e queremos vender para estas pessoas. Não queremos vender para alguém que não seja isso. Em toda escola, há a turma dos descolados e populares, e a turma não tão descolada e popular. Sinceramente, nós queremos os descolados. Vamos atrás da garotada tipicamente americana, cheia de amigos e de atitude. Muita gente não está nessa categoria, e não consegue entrar. Somos excludentes? Absolutamente.”

Muita gente ficou revoltada. Bom… Muita gente que conhece a marca ficou revoltada. Pessoas que, como eu, não dão a mínima pra essas intrigas da moda, nem faziam ideia do barraco.Fiquei sabendo por este post no Weightless. O que se seguiu foi uma guerra de comentários. E em guerras, as baixas são grandes. E deu nisso. Por um lado, sinto invejinha – vocês nunca fizeram barracos aqui no TSL, mimimi. Por outro lado, me pergunto o que leva as pessoas a acreditarem que precisam MESMO chegar a esse ponto de estupidez na internet. Já passei por isso no Twitter algumas vezes. Mas o meu cinismo sempre quebrou as pessoas antes que pudessem chegar a esse ponto, onde se perde o senso do ridículo.

Can't stop now someone is wrong on the internet

Os bacanas que procedem dessa forma acham que nada pode acontecer. “Tô na internet, ninguém me acha”. Eles estão redondamente e quadradamente enganados. Fosse eu o autor do post, apresentaria tudo isso na delegacia mais próxima para investigação das injúrias ali proferidas. E assim que se conseguisse chegar na pessoa (apesar de já saber quem ela é, porque sei brincar de IP também), eu pegaria todos os dados do inquérito e pediria danos morais em outra esfera judicial. Oras, alguém que defende seus argumentos com tanta (falta de) classe deve ter o troco da indenização, certo? Pois é. Talvez os blogueiros devessem se incomodar mais e aprontar mais dessas, pra ver se pessoas como essa aprendem.

Eu poderia fazer tudo isso, só pra atormentar. Mas eu não alcançaria muita coisa. Infelizmente, não existe decisão judicial capaz de aumentar Q.I.s ou remover pobreza de espírito. E por isso, pacas como essa (que as pacas me perdoem a ofensa da comparação) nunca aprenderão. É injusto com o autor do post – que sim, cometeu seus deslizes no calor da discussão, mas se pautou pelo respeito sempre – ter que aturar? É. Mas são os ossos do ofício na blogosfera. E vocês aí, achando que ter blog é bolinho.

Como o blog é o último espaço para a liberdade de expressão absoluta (pelo menos a meu ver), acredito que não me cabe criticar a posição do texto lá. É a opinião da pessoa. O blog também é dela. E ela tem todo direito. Discordando dela ou não, eu tenho que respeitar isso. Tenho que respeitar a pessoa que escreve – principalmente porque não a conheço, e não me cabe julgar. Você aí, quer me apontar o dedo e chamar de burguesa e nazista? À vontade. Vou rir até domingo, porque você simplesmente não sabe de quem está falando. E isso não é uma carteirada, é um fato. Quantos aí sabem dizer onde morei na adolescência? Quantos aí sabem onde eu nasci? Alguém pode dizer qual a cor natural do meu cabelo? Alguém sabe o nome da minha mãe? Do meu pai? A resposta é não pra todas essas. E vocês não fazem ideia de quem eu sou.

Respeito. O significado dessa palavra é meio estranho na nets. Mas um dia, a gente chega lá. Engraçado é que tudo isso se deu por um tópico tão irrelevante quanto a cor da camisa da Dilma na homenagem aos venezuelanos.

Sejamos sinceros. De certa forma, marcas são como pessoas. Elas nascem com características próprias, e não é porque ganharam certa notoriedade que precisam mudar essas características. A Abercrombie & Fitch gosta de vestir os descolados made-in-Newport-Beach. A Cavalera gosta de vestir os hipsters. A Ashley Stewart só veste as gordinhas (homens: vocês foram chutados). É absolutamente normal escolher um nicho e ficar com ele. Nunca vi gente reclamando da Vera Wang por não fazer vestidos maiores que o tamanho 42; nunca vi ninguém reclamando na Lunnender por não ter roupa menor que o 42. Pessoas são diferentes, marcas também. Acontece.

Isso não é agressivo, polêmico e muito menos nazista – porque ser sarado não é uma raça, e também não demonstra superioridade. A A&B também não está defendendo que todo mundo acima dos 70 kg seja detido num campo de trabalhos forçados em prol das marombas superiores, e não se define como o verdadeiro império do work-out. É só mais uma marca no mundo falando de nicho. Com tantas – TANTAS – outras iguais, e com tanta coisa pra fazer da vida… Vamos mesmo perder tempo com essa picuinha? 

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.