Crônicas do sexto ano: cobranças e mais cobranças

A vida não está fácil. As contas não estão fáceis – Dilma que o diga. A coisa não fecha. Mas ela pode cortar gastos e cobrar mais impostos; você, que acabou de se formar, precisa ou arrumar clientes pra começar seu lindo escritório, ou se alistar pra ser escravo processual em alguma banca existente. Enquanto isso, as contas empilham. E a OAB não ajuda.

Tudo isso COM DESCONTO, só pra ter um papelzinho escrito "olha, é advogada mesmo, tá?"
Tudo isso COM DESCONTO, só pra ter um papelzinho escrito “olha, é advogada mesmo, tá?”

Eis que um belo dia, a amiga chama: “olha, te indiquei uma pessoa”. E você se anima. O problema é começar, não é mesmo? O caso é simples e complicado ao mesmo tempo – o mundo é feito de pessoas, que adoram complicar o simples. Mas você já pegou sua OAB, e uma das suas inúmeras funções é descomplicar. Alguns dias e destemperos depois, você consegue testemunhar os resultados da sua atuação. E deu certo, ficou tudo lindo e simples, só faltou a trilha sonora cantada pela Julie Andrews – porque o vilão da Disney esbravejando a derrota no Facebook marcou presença.

giphy Acabou o filme da vida real e você precisa cobrar. Aí você começa a suar frio – porque a OAB tem um valor mínimo pra quase tudo que você faz. Cobrar abaixo dela, você não pode. Você entende, mas será que quem tem que pagar entende isso?Talvez a pessoa tenha visto o Fantástico e ache que advogado só serve pra dar golpe. Porque sempre tem o camarada que diz “mas nossa, você cobrou tudo isso só pra fazer essa coisinha? Advogados só servem pra sugar as pessoas mesmo”. E isso só te prejudica – olha aí, você que é valente contra machismos e assédios, com medo de fazer uma cobrança. Chega a ser deprimente, essa desvalorização do seu serviço. Porque ninguém tem ideia do trabalho que é “fazer uma coisinha” para o advogado, mas o celular de última geração que dobra no bolso porque o material é chinfrim? Ah não, esse vale cada centavo que a pessoa não tem. O que pesa mais na vidinha: O iPhone, ou resolver os problemas pra ficar em paz? Os dois custam quase a mesma coisa.  De volta pra casa, no frio antártico. Hora da maratona de filmes. Você aperta o play e vem o ser chamar no Facebook pra uma e-consulta. “Mas é rapidinho”, ele diz. A perguntinha se transforma num texto gigantesco que revela um problema jurídico de proporções épicas, do tipo “meu pai deixou uma casa pra mim e pro meu irmão, agora a prefeitura me tomou a casa dizendo que eu não paguei o ISS, mas eu não tenho empresa nenhuma, quem tem é o meu irmão, e eu quero a casa de volta”.

Podiam fazer um filme com essa história e... NÃO, PERA
Podiam fazer um filme com essa história e… NÃO, PERA

E ninguém espera uma simples resposta. As pessoas querem que você dê um parecer completo em 12 segundos e recomende uma estratégia em mais 8 segundos, e tudo isso assim, num estalo da genialidade advocatícia. E acreditam – mesmo – que podem pagar essa “coisinha” com um “muito obrigado”. Mas vamos evitar a fadiga? Vamos. Basta fechar o Facebook. O fim de semana passa, e a mensagem fica lá. Um lembrete doloroso de como era bom não depender do tempo que se gastou na faculdade pra viver. E a semana volta, com o cão arrependido, as orelhas fartas e o monte de coisas a fazer. A missão é simples: ir a 3 lugares diferentes, muito próximos e completamente distantes – bem vindos ao caos do Centro, onde é tudo perto, mas tá muito longe – tumblr_inline_mp3dllqrSy1qz4rgppra conseguir consertar pelo menos uma coisa na vida do cliente, com apenas 7 reais no bolso. Cinco horas e muitas bolhas depois, tudo certo e resolvido de novo. E pra cobrar o dia gasto? Lá vem o suadouro de novo. Outro dia, outra bucha múltipla pra resolver. No bolso, zero dilmas. E você vai, e faz tudo que tem que fazer. Passa o dia tomando chá de cadeira da Prefeitura, do juiz, do cartório, do delegado, e até da máquina de xerox. Mas resolve. FHC disse que a política era a arte do impossível; mas ele nunca acompanhou um jovem advogado em suas diligências. Ele ainda não sabe o que é impossível. E nessa sucessão de missões sem o Tom Cruise – cada uma mais cabeluda que a outra – você percebe que o mês já passou. Tá na hora do cliente pagar. A pilha de contas vai se dissolver. E todas as fichas – e esperanças – se concentram no F5 da sua área do cliente no site do banco. 4 da tarde. Seu saldo continua o mesmo: negativo que só ele. Nenhum depósito agendado. E a pilha de contas? Continua feia. Aliás, venceu uma hoje. Pode colocar no parquinho com as amiguinhas, porque é o que resta. E claro, como miséria pouca é bobagem, depois de todas essas correrias – e mais algumas – alguém vai olhar pra sua cara e dizer “mas você não faz nada”. E você? Precisa respirar fundo. O homicídio não compensa. E a última coisa que você quer é colocar honorários de advogado criminalista naquela pilha.

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