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Crônicas do sexto ano: o lugar ao sol

Fui sugada pelo buraco negro do fim de curso. Foram seis meses tensos (que puderam, em ocasiões particularmente desagradáveis, ser acompanhados pelo Diário de São Paulo). Eles encerraram um período de muita luta. Se antes eram notícias de uma guerra particular, agora são as crônicas do sexto ano. Os professores falaram muito nisso nos últimos dias. tumblr_m7fqmrQkXT1rx419io1_400Alguns deram palavras de conforto, outros de cautela. A gente faz cara de paisagem e finge que sabe do que se trata – mas ninguém faz ideia do que vem por aí.

Tem um texto no Conjur que fala um pouco disso. Coloca como “época de definição profissional”. Destaca alguns dados pomposos e conclui que “é um momento bom para os jovens”. Mas a sacada do texto é convencer o leitor de que não há razão pra se preocupar: o mercado está aberto e você vai achar um lugar ao sol… Com carteira assinada, ou outro tipo de vínculo. A solução está reservada no resort alheio.

Mas e quem quer um resort próprio? Não quero vaga no resort de Miami alheio. Quero o meu espaço, conquistar e defender as causas em que acredito. Quero construir uma casinha ali na pontinha da praia, mesmo que seja de palha. Aí, o artigo falta. Apenas palavrinhas do comercial da Molico. Cadê os dados pomposos agora? Cadê as análises mercadológicas complexas sobre as minhas chances de montar minha casinha no canto da praia? Não tem. Obstáculo número 1: a advocacia é um clube do Bolinha, e você, jovem egresso da faculdade, não foi convidado.

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Em 2018, o Brasil terá um milhão de advogados, segundo estimativas encontradas no Blog Exame de Ordem. Um milhão de pessoas indispensáveis à administração da justiça, pra 200 milhões de brasileiros precisando dela. Parece que tem pra todos. Duzentos milhões de seres tentando montar ou manter negócios, resolver as pendengas daquela conta de telefone que a Vivo insiste em cobrar, pensando no que fazer depois que o empregador mandou embora sem pagar um centavo, ou intimados a quitar um tributo do qual nem tinham ouvido falar.

Olhem pro lado, rolem a barra do Facebook, passem um tempinho no Twitter. Toda hora tem alguém precisando de um advogado, de alguém que possa defender interesses e resolver problemas (judicialmente ou não). Todo mundo precisa de alguém como eu e como os 120 (só na minha sala) pra descomplicar a vida – não parece, mas é pra isso que a gente se forma e faz advogado: descomplicar as vidas e desfazer os nós que vocês dão nas próprias vidas. Duzentos milhões de seres com problemas como esses, e outros, para um milhão de seres aptos a resolver tudo isso.

Pra conseguir seu espaço, nobre formando, você precisa sair voando – e ninguém vai facilitar. Sabe a confiança? Começa aqui. Os cinco anos de “qual a matéria de prova” precisam se transformar em “posso resolver o seu caso”. Você precisa convencer as pessoas de que você sabe o que está fazendo, e de que você pode, com o que sabe, resolver a vida delas, ou ao menos brigar por isso com todas as suas forças.

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Você precisa mostrar o seu valor. E acredite: você vale bem mais que os 3 mil mensais que querem te pagar pra ser advogado empregado naquele escritório 6 estrelas. Então, levante a cabeça e vá voar pela sua clientela. Você merece. Mas não basta confiar no próprio taco: precisa trazer os outros pra essa rede de confiança, e colocar um preço nela. Precisa dar pra essa rede um espaço físico digno dela, pegar material de escritório compatível, contratar pessoas no mesmo patamar, estabelecer políticas condizentes, e… Nada disso cabe no seu bolso desempregado, no SPC e devendo as mensalidades do último semestre. Certo?

Por isso muitos sonhos morrem antes de nascer: a realidade esmaga. Mas já estamos no meio do caminho, com direito a Bom Jovem no rádio. Basta sabermos o que temos, e qual o cenário que estamos enfrentando – e já temos as ferramentas pra resolver o problema. Então calma. Respira. Faz aquela lista esperta do que tem, do que não tem, e não se esqueça de que o principal está dentro de você.

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(o post só funciona se tiver Bon Jovi no karaokê. Até a próxima)

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.