Depois do mensalão… As batatas

Precisamos fazer aquele balanço. Sete anos, 238 volumes, 500 apensos e 51211 folhas depois (haja árvore), o monstrinho começa a se despedir. Joaquim Barbosa é o herói da nação – nem Batman, nem Superman: o povo quer Quinzinho Man para presidente. Coisa linda de se ver. Ou não.

Vocês vão dizer que sou burguesa, nazista, elitista, enfim. Mas gostaria de ter visto a Justiça ali no STF. A enxurrada de condenações não se qualifica como tal.

Desde que Joaquim Barbosa teve peito para aceitar a denúncia inepta da Procuradoria Geral da República, eu torci (muito) pra trazer o vigor do devido processo legal ao cenário político do Brasil. Torci de forma corinthiana pra ver a Constituição Federal como o martelo dos hereges. Hoje, todo mundo “gosta muito” de Direito. Todos acham que a justiça prevalece. Eu não acho.

Joaquim Barbosa foi meu herói quando acolheu a denúncia. Mesmo diante de um conjunto bem capenga, ele chamou a responsabilidade e deu ao Ministério Público o tempo e a chance de fazer um processo de verdade. Desses bonitos, que tem provas cabais e tudo.

A Procuradoria teve a faca e o queijo na mão. Pergunto a vocês: já viram o monstrinho? Se tivessem visto, colocariam o Roberto Gurgel na cadeia por desperdiçar uma das oportunidades mais lindas de fazer uma faxina completa na política. Repito: eles tinham TUDO pra produzir as provas, deixar o rastro da corrupção escancarado, pra que todo brasileiro soubesse por onde entrava esse cupim desgraçado no governo. Eles podiam ter feito história. Escolheram dormir. E o que era épico, virou novela do Maneco.

Fico triste por Joaquim Barbosa deixar de ser guardião das minhas (e suas) leis pra virar cicerone de circo. Fico triste por ter de ouvir asneiras da Rosa Weber aclamadas aos quatro cantos. Fico chateada de ver o pobre Lewandowski crucificado como “toga amiga”, quando ele é o único lembrando o propósito do Supremo.

O STF agiu mal. Ele não apreciou o caso. Ele não julgou ninguém. E certamente não honrou a Constituição. O que se fez em plenário foi bem diferente.

Eles não condenaram a alta cúpula do PT por ter prova, ou sequer indício, de que algo muito podre foi feito. Eles condenaram porque acreditam que algum evento cósmico permite que decidam a vida alheia com o que cada um acha que houve. E uma das poucas certezas que se tem no Judiciário é que só se tira algo de alguém (dinheiro, liberdade, direitos, enfim) se houver certeza ABSOLUTA de que o ser merece, por ter feito algo digno disso.

Por mais que a gente ache que roubaram, é o que estamos fazendo: achando. É o que os ministros estão fazendo. E vidas – algumas não valem muito, mas a Constituição nos proíbe de discriminar – serão transformadas por isso. Não por provas, ou certezas. Mas porque alguém acha.

Não estou defendendo o José Dirceu dizendo isso. Eu só queria que todos os réus do mensalão tivessem sido julgados de verdade. Até no Irã temos julgamentos mais legítimos.

Agora, por conta do Supremo Achismo Federal, é capaz de todo juiz no Brasil achar que “sentença” vem de “sentir” e decidir os processos conforme a TPM do dia. Sou pessimista ao extremo e pode ser exagero: mas tenho receio de ver, dia desses, um juiz trabalhista dizer que os controles de ponto da empresa são, na analogia do direito comparado, “frutos de árvore venenosa”, descartá-los todos e acolher o horário que o Reclamante quiser. E isso, só porque o juiz acha o dono da empresa feio.

Mas… Bola pra frente. Porque nem tudo é triste sobre o mensalão. Ainda precisamos ver como ficou o PT com essa.