DORGAS, MANOLOS

Cá estamos nós. Deveríamos estar em luto. Mas entre planos para o Carnaval e o julgamento (ou a farsa jurídico-midiática) de Lindemberg Alves, ainda precisamos saber o que houve com Whitney Houston. É nessa hora que todos relacionam a morte à luta contra as drogas. E começam as loucuras dos debates sobre o uso dessas substâncias.

Precisamos mesmo discutir o que fazer, mas o debate precisa ser esclarecido. Gostaria de fazer uma observação: a visão sobre o assunto “DORGAS MANO” é boba demais. Quem defende a descriminalização, vê nas drogas a salvação do universo; quem defende a repressão, vê nelas a origem de todo o mal.

Maniqueísmo, romantismo e superficialidade não vão resolver o problema, e também não vão ressuscitar Whitney, Amy, Elis e Janis. Já passou da hora de tratarmos assuntos importantes como adultos. Se vamos falar de drogas, vamos falar de todas.

Cafeína é droga. E não é fraca: plantas usam cafeína como pesticida natural. Isso já deveria alertar para o potencial da substância. Mas ninguém lembra essa quando debate o narcotráfico, sentado numa poltrona do Starbucks.

Quem diz que maconha é inofensiva, esquece que os modos mais simples de se consumir a erva danada são dois. Bebendo dela, e fumando. Detalhe básico que acaba com o nexo da proposta: o fumo – e não interessa se é tabaco, maconha ou flor de lis – mata.

A substância pode acelerar o processo (ou não), mas no fim das contas, o que vai matar é o ato de queimar os pulmões com a “doce” baforada. Ou seja: maconha, no fim das contas, mata. Com o vinho dela, entramos nos domínios do Mc Donalds e do Johnny Walker: estes sim, sabem apodrecer um fígado.

A pessoa leitora é contra as drogas, mas aprecia um Big Mac? Bom, tem muita coisa errada com o Mc Donalds e vários experimentos já provaram que bem, isso não faz. Mas você continua adorando, certo? Fale a verdade, você não vive sem o seu Mc Donalds.

O álcool é o demônio do século XXI, junto ao cigarro. O engraçado é que os dois têm uso medicinal. O álcool é usado em cirurgias cardíacas, e substâncias análogas à nicotina estão em remédios para problemas estomacais.

Apenas exemplos. Nenhum de nós está livre das drogas, nem daquelas que “odiamos”.

Que não se entenda a droga como a salvação – ou destruição – do mundo. Que se veja o que é: a substância que altera seu metabolismo de alguma forma e gera simbiose, que pode se tornar dependência. Está em tudo que consumimos.

Todos nós usamos drogas. Pode ser um chá, um copo de guaraná, um pacote de biscoitos, um comprimido para dor de cabeça, um pirulito, carnes e vegetais de procedência duvidosa, enfim. Você e Whitney – ou Amy, ou Elis, ou Janis – não são diferentes. Elas gostavam de coca em pó. Você gosta de Coca-Cola.

Todas as drogas têm efeitos negativos; alguns bem documentados e outros apenas mitos. Elas também têm efeitos positivos. As temidas anfetaminas das raves provavelmente evitariam metade das cirurgias de redução de estômago (e problemas delas derivados) no país. O equilíbrio existe.

Mas ninguém vai enxergar esse equilíbrio sem antes perceber isso: todos nós usamos drogas, voluntariamente ou não. E todas as drogas que usamos têm efeitos bons e ruins para nós e para a sociedade. Precisamos pensar nos fatos. Depois de reunir as informações, podemos decidir – de verdade – o que é positivo e aproveitável, e o que é negativo e descartável.