É difícil de engolir

Resolvi contar essa história. Aconteceu nessa Sampa tão “querida” da gente. A passagem ainda era $3 e todos estavam vivendo suas vidinhas.

Estava eu no ônibus, sentada atrás de um senhor idoso. Não tão idoso assim: não aparentava mais que 60 anos. Um grupo de ciclistas mudava de faixa na Av. Paulista. E este senhor começou a falar alto, xingando os ciclistas. Quando digo “falar alto”, fica o detalhe: eu estava usando fones. E a música tocava em volume máximo. Não era alto de acordo com os meus parâmetros; era alto. Mesmo.

Se sua voz ultrapassa essa música no último, pare de falar. Sério, você está berrando.

Pois bem. Uma mulher, sentada do outro lado, pediu silêncio. Nenhuma palavra a mais ou a menos; ela disse “meu senhor, dava pra fazer silêncio?” e voltou ao que estava fazendo. Ela lia um livro – 50 Tons de Cinza. Ai, minha gastrite.

A música tinha mudado, continuava alta, mas agora eu estava sem um dos fones. E ouvi o homem responder “ah vá, sua v*** velha”.

Tipos... Hein?
Tipos… Hein?

Assim, sem mais. Quem estava perto, ficou olhando. A mulher estava chocada. E eu não pensei muito no que fiz, mas fiz. Dei um tapão na cabeça do homem. Ele olhou pra trás, meio desconcertado, meio furioso, meio tudo. Quando ele ia começar a falar, bati de novo. Levantei do assento – ônibus passando o Conjunto Nacional – e disse: “nunca mais na sua vida você vai desrespeitar uma mulher assim, você entendeu? Nunca mais nessa sua vida. E cala essa boca, que todo mundo cansou”.

Aí, ele simplesmente ficou ali, de olho arregalado, meio besta. E ruminando: ah vá… E foi assim, olhando e ruminando, que ele desceu do ônibus. No último ponto da Paulista. Eu continuei olhando pra ele. Firme. Feio. Quem me conhece sabe a cara de demônio que eu tenho quando fico nervosa.

As pessoas em volta aplaudiram. E eu não sei por quê, só fiz minha obrigação. A mulher agradeceu, e voltou ao livro dela. Ela continuava constrangida. O que eu fiz não apagou aquela violência contra ela.

Hoje, fiquei sabendo o que aconteceu com Nigella Lawson. E me pergunto: vocês não tem vergonha? Fotos, testemunhas, etc. Todo mundo parou pra olhar, registrar e expor o que ela sofreu. Mas ninguém intercedeu. Eu não sei quem agrediu mais: se o marido, ou se as pessoas que, em vez de interceder, resolveram expor a mulher desse jeito. Explorar a violência contra ela é simplesmente errado.

Ser mulher não é bolinho, e todo mundo sabe. Mas não adianta estar ciente da coisa, se nada é feito pra mudar isso.

Eu me considero superior. Por quê? Eu sou mulher, oras. E apesar de acreditar nisso, não trato homem nenhum como menos, nem quando devia. Toda mulher é assim. E é por isso que considero mulheres melhores que homens.

Talvez seja hora dos moços reconhecerem o que sabem – e que tentam abafar na pancada – há tantos séculos.

Ok, desabafei.

É por isso que digo: Lisbeth Salander pra presidente.
É por isso que digo: Lisbeth Salander pra presidente.