É polêmica, está na moda, e ninguém fala

Alô vocês, que já choraram – ou não – a morte dos famosos da semana. Trouxe algo bacana pra ler hoje (e sem h04x, que beleza) e espero que me acompanhem.

Esse post é dedicado a todas as pessoas que desistem do assunto e se chamam de burras, ignorantes e outros adjetivos afins simplesmente por não entenderem, como a dona Sernaiotto:

“(…) política não é comigo, constituição pra mim é grego, não entendo absolutamente nada de direito… sou uma monstra, eu sei. (…) Pode me banir do blog, por ignorância assumidamente vergonhosa.(…)”

O comentário reflete muita gente por aí. Talvez seja por isso que o povo prefere se empenhar em discussões eternas sobre o que o Corinthians tem ou não – e deixa a política brasileira lá no fundinho da memória, lembrando vagamente às vezes, quando temos notícia de algum escândalo.

Somos responsáveis pelo destino do país. Mas estou aqui isentando vocês de boa parte da culpa desse “não sei nada de política e não entendo de direito”. Deixe explicar o motivo. E aqui, a coisa fica cada vez pior.

A Constituição – aquela cartinha bonitinha de 250 artigos que diz “olá, nós somos o Brasil, e fazemos as coisas assim” – entrou em vigor em 1988. 23 anos agora; é uma jovem, madura em algumas coisas, um pouco confusa em outras. Praticamente uma Felicity Porter. Somos responsáveis por ela – somos ela, por assim dizer. Mas como viram, ela é bem novinha. 23 aninhos.

O que tínhamos antes disso? Passado doído que muita gente ainda não superou. Basta ver quanta gente quer mil liberdades, mas não quer conhecer limites. Sua mãe não deixa comer o bolo antes da janta? DITADURA! Seu pai não te leva ao show do Restart? Ditadura! As pessoas confundem limite com ditadura, acontece. E elas também não se interessam muito por política.

Isso é herança de mais de meio século num regime onde era proibido ter interesse no seu país. Não é culpa da geração de agora, nem da anterior. Muita gente apanhou e/ou morreu pra todos aprenderem a não pensar. E ensinarem também.

A lista de argumentos dados para NÃO se pensar é longa, e vai desde aquela reunião chata de condomínio até as eleições para a Presidência do país. Sempre esquivando, evitando encarar os fatos, deixando tudo pra lá… Enfim.

Aconteceu com as mulheres, com os protestantes, com os negros, com os judeus, com os árabes, com os gays… E acontece com os brasileiros também. Eras de abuso em todos os sentidos pra afastar toda e qualquer noção de consciência. Você, pessoa leitora, nascida nesse Brasil varonil, não sofreu metade do que os citados acima tiveram que agüentar. Pra você, bastava NÃO pensar.

Acho irônica a moda de falar disso agora, sendo a prática milenar – e do ponto de vista de quem te tolheu desse jeito, sem que você sequer percebesse, funcional. Mas fica o conceito. Reflita sobre todo esse tempo em que você se convenceu a deixar a política pra lá, por não entender, por não saber, por achar que já tentou e não funciona, por não ter poder pra mudar, por não adiantar…

“atitudes intencionais e repetitivas, exercidas por um ou mais indivíduos, com o objetivo de intimidar ou agredir outrem, dentro de uma relação desigual de poder.”

Vocês podem achar que a ditadura morreu, mas os militares – e quem subiu com eles, como o douto parlamentar José Sarney – continuam comemorando. Afinal de contas, vocês continuam NÃO pensando. Esse não pensar, não saber, não entender e não procurar deixa muita gente feliz. A grande pergunta é: como vai sua vida com isso? Com o mundo de reclamações diárias sobre ônibus, trem, metrô, hospitais, escolas, preços e afins no Twitter, acho que não está assim uma Brastemp.

As vítimas nunca são culpadas pelos atos dos agressores. Mas quando se percebe o abuso, há uma escolha a fazer. E 23 anos depois da Constituição Federal, depois de saber de tudo que aconteceu, e com o poder pra conhecer tudo que podem ou não podem, vocês escolhem se são vítimas ou sobreviventes.

Lembrem-se sempre que quem não sabe, aprende. Quem não sabe é quase herói – porque pode aprender, e é disso que o país precisa: de gente que aprenda mais sobre ele e possa cuidar melhor dele depois. Você, que não sabe e escolhe continuar tentando: você é um sobrevivente. Viu, dona Sernaiotto? Sem cruz. Basta querer, que tudo se entende e aprende.

O problema é continuar sem querer saber. Sem lutar. Sem sobreviver. O problema é escolher ser uma vítima até o fim dos tempos. Pensem nisso toda vez que revirarem os olhos para alguma notícia ou debate sobre o cotidiano do Senado.

Não estou dizendo pra irem às ruas clamando por revolução – porque não é disso que precisamos. A revolução necessária não vem de marchas do Facebook, de destruição dos sistemas, de queda dos poderosos ou coisas afins. Ela vem de vocês. A verdadeira revolução vem no saber, no construir e no transformar. Isso é poder.

É isso. Até o próximo post. E façam o favor de não ficarem ofendidos comigo – aí vão falar que estão sofrendo o bullying do bullying. Sensacional, não?