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Entre Armani e Cérebro

Alô vocês. O texto a seguir retrata minha opinião sobre um artigo publicado na Revista Consultor Jurídico. Vamos lá.

Esse artigo, escrito por Vladimir Passos, fala de imagem e etiqueta nas profissões jurídicas. Até aí, tudo bem. O Direito é cheio de tradições. Algumas são ridículas – como as togas com frufrus obrigatórias durante o Tribunal do Júri e o puxa-saquismo instituído nos endereçamentos de petições – e outras necessárias para a sobrevivência do próprio processo, como a ordem de palavra das partes numa audiência.

Realmente, o que você apresenta determina o que as pessoas podem esperar de você. Mas o autor afirma que você é o que você veste, e não é assim que o mundo funciona. Não é porque o aluno comparece à aula de bermuda em pleno verão (ou de moletom em pleno inverno) que ele é um idiota perdedor, como o autor do artigo infere. Não é porque a estagiária se empolga no salto 15 que trabalha no meretrício. E não é porque o juiz dá “boa tarde” para as partes e comenta um pouco do último jogo do Corinthians antes de começar os trabalhos, que é um incompetente.

Pelo que diz o artigo, parece que só tem dignidade jurídica aquele que dorme e acorda de terno e gravata. Bom, o douto senador da República José Sarney é assim. Fica a dúvida: ele é mais digno que eu por isso? Ele é mais digno que o professor que se apresenta numa palestra ao som de “Breaking the Law”?  Se Vladimir Passos estivesse certo, Narcisa Tamborindeguy seria mais digna que o estudante de Direito alemão que conseguiu reunir provas pra processar o Facebook. Ela usa camisas e saias tubinho, é melhor que o resto. Certo?

Desculpe, Doutora, mas a cor do batom deixa clara sua incompetência para exercer a advocacia – por Vladimir Passos

ERRADO. Porque a roupa não determina a capacidade da pessoa de exercer qualquer carreira; é o conhecimento dela pra isso, e a maneira de aplicá-lo. Tudo que Vladimir Passos fez em seu texto foi alimentar preconceitos. Logo ele, um juiz, um daqueles que deveriam zelar pelo cumprimento das leis – aquelas mesmas leis que tratam de igualdade – decidiu parar num dos maiores portais jurídicos do Brasil pra disseminar preconceito e pisar nos princípios da Consituição. Uma salva de palmas para Vladimir Passos, o homem que vestiu a camisa do Panteão dos Parvos.

Observem em salas de aula, se quiserem. Muitas vezes, o aluno que usa bermudão e trata alguns professores de “mano” é mil vezes melhor que aluno engravatado que adora arrotar sua carteira de “técnico judiciário”, mas escreve coisas como “ouvece” e “fiquisar” em documentos oficiais. Quem quiser comprovar, pode fazer o teste e entregar um processo na mão de cada um, para um resumo. Aposto que o estudante da bermuda vai explicar – nos mínimos detalhes – cada pedaço do processo. O ‘técnico judiciário” vai fazer o que 95% dos cartorários fazem: enrolar até o fim dos tempos.

Repito: o que você veste não determina suas habilidades. Mesmo que Vladimir Passos queira muito que isso aconteça – talvez por ser ele o nosso “técnico judiciário” exemplar que deu sorte de cair numa vaga de juiz – o mundo não funciona assim.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.