blog-post-img-900

Erykah Badu and The Flaming Lips

Olás, raparigas e raparigos (no sentido lusitano da coisa). Hora de voltar às laudas blogueiras. E como diria Jaqen H’ghar, três textos para o deus do Google são devidos. Vamos ao primeiro. Um blogueiro precisa ter um assunto.

O cenário musical indie andava ansioso pelo trabalho novo do Flaming Lips. O álbum The Flaming Lips and Heady Fwends, lançado em abril, tinha um time de peso nas colaborações; Bon Iver, Chris Martin, Ke$ha, Kyllie Minogue, Yoko Ono e Erykah Badu. Impressionante, não? As músicas do álbum são bacaninhas – eu não sou exatamente fã do Flaming Lips, é muito pseudo-psicodélico-conceitual-intelectualóide pra minha cabeça. Mas o álbum conseguiu prender atenção, talvez pelo time estelar que faz parte dele.

Mas o que é a indústria musical sem um bom barraco, não é mesmo? E o Flaming Lips conseguiu um desses com a diva Erykah Badu. Foi mais ou menos assim: Ms. Badu topou gravar com eles a música First Time Ever I Saw Your Face, e um clipe. Tudo ia às mil maravilhas, com direito a foto toda conceitual no Twitter.

Até que Wayne Coyne soltou o vídeo no Pitchfork sem edição nenhuma. Isso significa muita tela verde e… Erykah Badu nua em pêlo.

Não viram o vídeo ainda? Então confiram aqui. Erykah e Nayrok, sua irmã mais nova, participaram do clipe, segundo Badu, veiculando um conceito “cósmico” de Coyne. O que se viu pela internet tinha bastante purpurina, leite (?) e sangue (?), mas nada interestelar. Segue relato. O que pude apurar – e deduzir – do caso foi isso:

Não vejo nada de errado na Erykah Badu – que é linda – aparecer assim num clipe. Ninguém fala da Lady Gaga simulando gang bangs em Alejandro, ou da Britney Spears e suas lantejoulas em Toxic, ou ainda das danças do acasalamento da Beyoncé em Baby Boy. Oras, ninguém está falando dos órgãos brilhantes de Florence Welch. Então não vejo razão pra todo o frisson moralista com Erykah Badu.

O problema foi soltarem o vídeo sem autorização de Ms. Badu. Ok, eu sei que vocês detestam Direito. Também sei que não são idiotas e tem noção de que nosso sistema jurídico é bem diferente do sistema americano. Mas existe algo juridicamente universal a dividir aqui.

Pacta sunt servanda.

Em latim, significa “acordos devem ser cumpridos”. Por conta dessa frase, muita gente malhou – e muita gente defendeu – o jogador Oscar, anteriormente contratado (ou seja, com licença poética do português, pactado suntado servandado) pelo SPFC. Depois da dica, sabem o que se define por essa base?

O contrato. É, isso mesmo. Quando colaborações artísticas acontecem, contratos são elaborados. A maioria deles contém cláusulas que especificam autorização expressa do colaborador na exibição da obra.

Eu não vi o contrato assinado por Erykah Badu e pelos Flaming Lips. Mas acredito que essa cláusula exista lá, pelas declarações que ela deu, antes e depois do lançamento do vídeo. O clipe não foi autorizado, e menos ainda combinado entre as partes. E nossa pacta sunt servanda, onde foi parar? Procurem no nono dos infernos, ela deve estar por lá.

Mesmo que o vídeo tenha ido ao ar sem querer (o que é bastante provável, já que percebemos que NADA nesse vídeo foi editado; só colaram as imagens juntas. Os materiais estão expostos, a tela verde está toda ali e duvido que Coyne se prestaria ao papel de palhaço olhando um sei-lá-o-quê prateado no ar), Erykah não o viu. Ela não tinha noção do que seria aproveitado ali. Isso, por si só, já demonstra violação do contrato deles.

Aí nos lembramos de Sean Bean, e suas sábias palavras em O Senhor dos Anéis – a Sociedade do Anel: one does not simply breaches a contract. Traduzindo: não se pode simplesmente violar um contrato – sem querer, querendo ou sem querer querendo – sem sofrer as consequências.

Não sei o que Erykah e Nayrok pretendem fazer. Mas certamente as equipes jurídicas que cuidam das carreiras das irmãs já tem “uma vaga ideia”. Essa ideia deve ter seus seis ou sete dígitos.

Era o que eu tinha a dizer sobre esse assunto. Temos mais dois na semana. Três textos: assim disse Jaqen.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.