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Falha nossa?

Tá tendo Copa sim (disse a Borboletando), e o Tinder funciona às mil maravilhas. Assumam, vocês usam o app. Nada de etiquetas aqui, é legal ver gente nova sem o perigo de estragar o círculo de amigos E ganhar histórias (engraçadas ou não) pra contar.

Já vou avisando: este é um texto para dar pitacos. Ele será longo. Não sou responsável pelas cataratas, depressões e afins vindos da leitura; continue por sua conta e risco. E se você for parente meu e tiver alguma ilusão sobre minha pessoa: corra. Aqui morrerão suas formiguinhas.

Vi Transcendence. Crítica boa à nossa humanidade (se é que ela existe) diante da tecnologia. Por ironia do destino, dei de cara com artigos sobre o uso do Tinder na Copa. Entendi isso como um sinal das forças ocultas para emitir meu pitaco.

"Ligaram do Além e disseram que se você não falasse, ia passar uma temporada em Silent Hill"

“Ligaram do Além e disseram que se você não falasse, ia passar uma temporada em Silent Hill”

“ok, seu blog não devia falar dessas coisinhas mundanas, fale da Dilma e do Aécio”

A gente chega lá, aguentem aí. Continuando… Ainda me espanto quando sites de relacionamento, apps e afins viram assunto. Ninguém diz nada quando a mãe rifa o filho pras filhas das amigas. Estamos no ápice da tecnologia e da libertação sexual. Se pode usar a mãe pra achar amizade colorida, por que não pode usar a internets?

 

Eu uso o Tinder. Com ele, conheci e foi nessa hora que eu parei pra contar com quantos seres saí e acabaram os dedos pessoas bacanas, e pessoas não tão bacanas. Não importa se você conhece Fulano no colégio ou no Rotaroots, sabe? Ele pode ser legal, ou não. Vocês podem ficar amigos, ou não. A vida é assim.

O que eu notei no Tinder, é que as pessoas se conhecem, se “conhecem”, e não se entendem. Isso não é culpa do app; já acontecia há algum tempo, mas parece que ele “legalizou” isso nas pessoas. Ficamos nos nossos fantásticos mundos, acompanhando (e dando pitaco) na comédia (ou tragédia) das vidas alheias.

Meredith Grey quer saber quem teve um dia pior que o dela. Quem se habilita?

Meredith Grey quer saber quem teve um dia pior que o dela. Quem se habilita?

Somos muito conectados aos nossos feeds, nossos gostos, nossas descrições e imagens no Tinder. Somos muito atentos a isso. Mas estamos desconectados do próximo. Sabe aquele vídeo da realidade das redes? Então.

Aquele retrato que você acabou de colocar na lista de combinações é gente, como você. Mas não é isso que faz dar o like, é o seu gosto pelo ser. Se der combinação, o ser também teve gosto por você. Oba. Mas e depois?

Antes não conta. Antes, estão todos muito empenhados em manter aquilo que se dispôs no aplicativo – aquele perfil todo trabalhado no Feng Shui. Mas depois… Não tem mais isso. O negócio já se consumou. Já estamos todos vestidos, as serotoninas já voltaram ao lugar, a vida está seguindo. E aí?

Ninguém liga. Porque ninguém dá liga.

Ninguém liga. Porque ninguém dá liga.

Aí complica. As pessoas entendem bugalho onde se disse salsinha e a gente não se entende; não escutamos o próximo, ou escutamos o que a gente acha que o próximo disse. Tá certo, não estamos lá pra achar o par perfeito (ainda bem), mas ainda devemos o mínimo de civilidade uns com os outros. Se você entra em qualquer site de relacionamento buscando maquininhas de orgasmos, é melhor deletar o perfil e ir para o sex shop, a satisfação será mais garantida. Mas… No Tinder, no Par Perfeito, no Sonico e afins? Você lida com pessoas. E precisa agir de acordo.

Tive experiências extremas com isso. Teve o ser que descobriu onde eu trabalhava e quis ir dar show porque eu não quis mais sair (!). Teve o ser que entendeu que eu estava apaixonada quando eu disse pra repetirmos (!). Teve o ser que resolveu cantar Caetano Veloso no whatsapp pra mim, menos de 24 horas depois de um encontro (!). Teve a pessoa que decidiu que não poderia sair com alguém tão exposto na internet – isto depois que eu disse “tenho um blog” (!). Teve o ser que se ofendeu porque eu disse “não” às Billy Ribs que ele pediu pra mim, sem autorização (eu disse que não estava com fome e tinha acabado de me entupir de pastéis. Detalhe: já tinha avisado que não como carne). Teve o ser que precisava dizer “eu também” a cada três coisas que eu dizia, e quando perguntado sobre, desconversava. Teve o ser que achou que eu era mórmon (!) por usar camisas brancas (!). Teve o ser que se recusou a sair de novo, porque minha religião era condizente com magia negra (!).

Cada um desses seres ouviu algo estranho de algo simples. Em alguns casos, eu dei margem de erro. Escolhi palavras erradas, e ativei a falha comunicativa básica. Assumo minha parcela de responsabilidade. Mas se estivéssemos conectando pessoas, fazendo e dando a liga, tenho certeza que alguém ia dizer “não entendi”, ou ao menos esperar concluir a frase pra atravessar resposta.

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Com todas as pessoas conhecidas nesse app, rolando algo ou não, muita coisa não foi compreendida. Aí tudo vira novela. E você tenta explicar, e a coisa complica mais, e de repente um personagem da Disney começa a cantar atrás de você e…

Gente?

Gente?

Isso não é exclusivo do aplicativo, ou das pessoas que o usam. Olhem ao redor. Quantas discussões esse mês se arrastaram por falhas de comunicação? E isso não poderia ser evitado se você respirasse fundo e ouvisse até o fim, em vez de atravessar uma resposta ao que você achou que ouviu?

Pode assumir. Eu sei que você abaixou a cabeça, respirou fundo e fez o Thiago Silva agora.

Calma que passa.

Calma que passa.

Isso reflete na política também. Lembram-se do texto anterior? Então. Precisamos nos entender. Precisamos falar o que pensamos (sem rodeios) e ouvir o que nos é dito (sem achismos). Sem isso, nunca conseguiremos captar a mensagem da Dilma, ou do Aécio, ou de sei lá quem (ainda não vi os presidenciáveis, desculpem). E também não conseguiremos sacar a ausência de uma mensagem, pois estaremos muito ocupados fazendo mais barulho de nossas próprias desconexões.

Vamos mudar esse jogo um pouquinho. Vamos praticar no Tinder. Refaça os seus passos com algumas pessoas. Veja se você falou, e se ouviu também. Tente de novo, veja se acha o mau contato no fio. Vai que dá certo. Se não der certo, pelo menos coloque os pingos nos is. E se tudo mais falhar, chame a polícia. Stalkers existem (experiência própria).

É isso. Deixo vocês com a musiquinha feliz de quem não tem nada pra fazer na véspera de Brasil X Colômbia (ou Shakiros X Valescos, como digo). Até a próxima. Juro que vou me inteirar dos presidenciáveis.

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.