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“Lave a boca pra falar da minha luta”

Desde já aviso; texto longo. Não me responsabilizo por enxaquecas ou cataratas pós-leitura.

Sem querer ser reacionária, mas já sendo: sentar na rua não é iniciativa. Queimar ônibus e apedrejar a estação de metrô, menos.

Eu uso esse blog há anos, pra explicar (ou ao menos tentar) como as coisas funcionam. Sempre incentivo as pessoas a usarem o sistema, a entenderem o que acontece e lutarem contra o que acham errado, pelos termos corretos. Outros fazem o mesmo. Vejam bem: não sou eu quem acha que estes são os termos corretos. É a Constituição quem os diz. Ela não é coisa de outro mundo. Ela é sua expressão; o seu jeito de dizer “eu sou o Brasil, e as coisas aqui funcionam assim, como eu quero que funcionem”.

Podem falar que os órgãos públicos não servem pra nada, que a polícia é agressiva, enfim. Não é desculpa pra ignorar a sua Constituição. Não é desculpa pra sair à rua, quebrar as suas coisas e prejudicar todo mundo. Aliás, suas coisas a vírgula; são nossas coisas.

Tudo isso se torna besta, quando a gente percebe o que estão ignorando. O Brasil se tornou um Estado Democrático de Direito em 1988. O que tínhamos antes disso mesmo? Ditadura. Não o que vocês acham que é ditadura, mas uma ditadura de verdade. Um Estado totalitário. Nessa abominação, muito sangue foi derramado para que o povo tivesse leis próprias, e dentro dessas leis, uma voz própria. Milhares perderam tudo para deixar esse presente às gerações futuras. Muita gente morreu pra que essa Constituição existisse.

A Constituição te dá todas as ferramentas – exceto o advogado – para questionar as tarifas do transporte. Ela dá ferramentas para travar o Estatuto do Nascituro, ou propor a Lei do Aborto. E você não depende dos órgãos públicos pra fazer acontecer. Você pode usá-los, se bem quiser, mas no fim das contas, a iniciativa é só sua.

Estou aqui há alguns anos falando isso. Mas todo esse tempo falando, pra quê mesmo? Ninguém está usando as leis. Elas são bobas, feias e chatas, cheias de “palavras vazias”. Vamos quebrar tudo. Bem melhor.

“Palavras vazias”. O blog foi hoje classificado assim. E pelo que presenciei na quinta-feira (alô você, que invadiu o meu ônibus e tentou me fazer engolir jornal molhado: eu espero que seu olho ainda esteja roxo), é isso mesmo. Porque vasculhei os órgãos do Judiciário paulista, pra saber se alguém tinha se erguido pelos termos corretos: nada vi. Mas estão todos nas ruas, fazendo a alegria da imprensa sensacionalista e dos políticos ultraconservadores e ultra larápios que temos aí – esses mesmos que, por alguma razão cósmica, serão reeleitos por todos os seres que queimaram coisas na rua contra eles.

As palavras realmente parecem vazias quando a situação é essa. As lutas parecem ter sido em vão. Os estudantes mortos nos anos de chumbo viraram decoração de escrivaninha. A Constituição é só enfeite de livraria. E a voz, que eles morreram pra entregar… Virou eco. Desses fraquinhos, abafados pela fumaça da bomba no Metrô Brigadeiro.

Muitos querem comparar essas manifestações aos movimentos ocorridos na Turquia, no Líbano e etc. Não vi ninguém na Turquia com capuz no rosto. Também não vi ninguém queimando ônibus lá. Ah sim, o detalhe máximo: Lá na Turquia, eles protestam pela censura. Aqui, protestamos por 20 centavos. Que lindo. Por 20 centavos, foram todos fazer cosplay de internos da FEBEM. Eu me lembro bem. Unidade Imigrantes. Os internos estavam iguais aos seres nessa imagem.

Se bobear, estes são os internos crescidos.

Se bobear, estes são os internos crescidos.

Acho que essa é uma ofensa sem limites ao pai do Marcelo Rubens Paiva. Tanta gente que perdeu tudo – e mais um pouco – pra que vocês tivessem instrumentos próprios e precisos pra controlar o seu Estado e o seu governo. Tanta gente que perde tempo lendo e escrevendo pra explicar pra vocês como funciona, demonstrar os vários casos de sucesso quando esse sistema é usado. Tanta gente que passa dias trabalhando pra que vocês continuem tendo isso, sem perder controle para igrejas e afins… Toda essa luta silenciosa, e pra quê? Pra vocês trazerem isso aqui.

O cúmulo do absurdo é dizerem que a culpa é “da repressão”. Eu queria entender. Horas antes, no mesmo local, houve manifestação de policiais civis e servidores de saúde de SP. No mesmo lugar, horas antes, eles fizeram seus protestos. Ninguém colocou uma lasca de unha neles. Fico imaginando o que os Caras-Pintadas acham dessas cenas pitorescas. Aliás, imagino qual a desculpa de vocês: os pintados marcharam Paulista acima e Consolação abaixo até Collor cair. A PM nunca encostou um dedo neles. Detalhe: eles nunca quebraram nada. Talvez os pintadinhos tivessem algo que vocês não têm: respeito.

1992. Protesto pelo impeachment. E você aí, achando que é revolucionário. Tá bom, companheiro CRUJ.

1992. Protesto pelo impeachment. E você aí, achando que é revolucionário. Tá bom, companheiro CRUJ.

Vocês querem respeito, querem voz. Mas pisam em todo mundo que lhes deu o respeito e a voz. E isso, por causa de 20 centavos. Vocês querem que a gente lave a boca pra falar dessa luta, mas vocês por acaso lavaram os pés, as mãos, as pedras e os isqueiros antes de enxovalhar a luta deles? E antes de pisar na nossa luta, vocês lavaram a boca? Antes de simplesmente desprezar anos e vidas passadas tentando dar TUDO pra vocês, alguém aí tomou um banho que fosse? Alguém estudou algum meio de combate que não envolvesse o puro e o simples vandalismo? Eu duvido muito.

O que sei é que ver o que está acontecendo me entristece. É sangue, suor e sofrimento demais, tudo ignorado por vocês. É muita falta de bom senso. Mas como disse um jornal internacional, há algum tempo: o Brasil é um país sem memória e sem vitórias.

Parabéns aos envolvidos no movimento Passe Livre, que dão provas quase diárias dessa “máxima”. E meus pêsames ao povo brasileiro, o maior prejudicado.

P.S.: Fica o apelo pessoal para Nina Capello: saia deste curso. Uma pessoa que trata as coisas como você está tratando não tem lugar nenhum no Direito.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.