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Machismo mata

Eu ia fazer textão no Facebook, mas já que estamos há tanto tempo sem publicar aqui, por que não? Lá vamos de post no blog. Já aviso que não sou responsável por cataratas, enxaquecas e ressacas morais da leitura.

Neste fim de semana, uma mulher – uma juíza federal, diga-se de passagem – morreu. O esposo dela resolveu que podia dar um tiro na testa dela. Depois, deu um tiro na própria testa. Ela foi vítima de violência doméstica, mas ninguém está dizendo nada a respeito. Ninguém parece reconhecer isso.

A narrativa na imprensa é de compaixãopor ele. Falam dela como se ela fosse efeito colateral do que aconteceu. O destaque é dado a ele, com praticamente todo o currículo profissional exposto. Ela? Era a mulher dele, “uma juíza do trabalho”. Um adereço na vida dele. Em alguns artigos, sequer escrevem o nome dela. Os parentes e amigos dele são entrevistados. Estão em choque. A depressão dele era muito grave, dizem. Da família dela, nenhuma palavra – não vi sequer menção de tentativa de contato com os familiares dela.

Todos lamentam muito. Mas do elefante na sala, ninguém quer falar. O esforço que se faz para exculpar este homem, e enaltecê-lo, é digno de vergonha. O que me parece é que tentam estigmatizar (novamente) os transtornos mentais para não enfrentar o machismo, essa coisa invisível que acorrenta, tortura, violenta e mata milhões e milhões de mulheres no mundo; me parece ainda que a ausência de enfrentamento tem o objetivo de manter esse quadro horrendo, mesmo com o fortalecimento feminino em alta.

Desculpem se isso parece insensível, mas o que este homem fez não foi fruto da depressão. Foi fruto direto do machismo. E esse fruto planta mais sementes no tratamento que a imprensa dá ao caso.

Caso ninguém tenha notado, ele fez questão de tirar as crianças do local e inventar uma história para que ninguém fosse ver o que estava acontecendo com ela, a esposa. Independentemente da doença dele, independentemente do que ele tencionava contra a pessoa dele, os relatos apontam que ele planejava o mesmo para ela. Sem consulta, provavelmente. Como se essa mulher não tivesse voz e a pessoa dela estivesse à disposição dele para todos os efeitos. Ela morreu porque ele acreditava que podia dispor da vida dela.

A imprensa está tratando essa mulher – deixa repetir: juíza federal, juíza do Trabalho, há 22 anos batalhando pela manutenção das prerrogativas constitucionais de organização do trabalho – numa nota de rodapé da tragédia pessoal do delegado, como ele tratou a vida dela como um abajur bonito para levar com ele.

E se esse quadro não expõe a extensão do machismo na sociedade brasileira, então não sei como desenhar. Ela virou algo descartável, menos interessante.

Depressão é coisa séria. Milhões de pessoas lutam com esse estranho dentro delas. É uma batalha diária. Em verdade, duas: as pessoas lutam diariamente contra seus transtornos mentais e contra os estigmas sociais que lhes são impostos. Para estas pessoas, sair às ruas é uma guerra. E agora, cá estamos cavando mais uma trincheira para elas.

Nenhum transtorno mental, incluindo a depressão, deve ser usado como escudo para a prática de crimes, e menos ainda para toda e qualquer falha de caráter que se possa identificar em alguém. E apenas para deixar bem claro: ser machista, acreditar, ainda que inconscientemente, que a mulher é menos que você simplesmente por ser mulher, é falta de caráter.

Machismo é coisa séria. Milhões de vidas são perdidas para essa praga cultural todos os dias. Aparentemente, ninguém considera essa luta séria o suficiente para reconhecer esse problema. Não se pode dizer que é doença, pois seguimos perpetuando essa cultura deliberadamente. Estamos num país onde a sistemática é tratar as mulheres como pessoas de segunda classe, que dão todo o sangue, e não ganham o copo de suco no final, sem nunca tomar a responsabilidade por essas práticas horrendas.

A culpa é delas, claro. O vestido era muito curto. Ou as pernas estavam andando muito rápido. Ou o eclipse lunar estava a pleno vapor. Talvez não tenha ficado em casa com os filhos. Parece que estava inteligente demais, devia ter emburrecido para estar à altura dele. Ganhava muito, e sustentava a casa; isso não é papel de mulher. Tomava café muito forte? Coisa de macho, mulher que faz isso deve morrer. Ou… O rapaz tinha depressão, e ela ralhou pelo remédio. Claro que ela ia morrer, correto? Uma fatalidade. Olha só o moço. Tão novo, coitado.

Colocar uma abominação como o machismo no mesmo patamar da batalha dos transtornos mentais, ou pior ainda, tentar mascará-la usando estes transtornos, é simplesmente hediondo. É um retrocesso sem precedentes, num momento onde a mulher protagoniza as mudanças culturais, ter um caso tão emblemático da violência de gênero tornado invisível pela imprensa, de uma forma tão leviana.

Vinte e dois anos da vida lutando pela Justiça, apagados sem mais nem menos, por uma barbárie. Vinte e dois anos de magistratura impecáveis, que se tornaram nota de rodapé para uma imprensa engessada e retrógrada, que prefere disseminar a desinformação e reforçar estigmas errôneos em vez de educar as pessoas e reconhecer as dimensões absurdas que a cultura machista tomou no Brasil.

É de doer.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.