(Mais) notícias de uma guerra particular

Na fila da padaria, as pessoas conversam. Elas falam alto – o mundo precisa instalar um botão de volume no cérebro. O pior é saber como resolver o que você está ouvindo, cutucar, apresentar uma solução e ter que engolir um “não falei com você”. Pelo menos, a culpa disso nos outros – porque se você não tivesse ouvido o nobre comentador de um post anterior, nem teria aberto a boca.

Outra pessoa te cutuca, pede mais detalhes. Chega outro na fila. E outro. E outro. Todos interessados. Querem conversar mais tarde. Pedem cartão – aquele, que ainda não tem. Não, moço, não tem cartão. Você dá seu telefone. Informa que tem um (quase-tá-tudo-encaminhado-vamos-ver-como-isso-sai) sócio, dá nome e telefone também. Se vai dar certo? Só os deuses e as operadoras de telefonia que adoram sonegar sinal sabem.

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Você precisa de um celular novo. Não é luxo; seu aparelho está parando de funcionar. Não adianta culpar a TIM quando é a Samsung de 3 anos atrás que apronta. E se te ligarem e o negócio explodir na orelha? Perde a vida e o cliente, calamidade. Tem bons aparelhos em 5 vezes sem juros no Visa. Quem mandou ser besta e não trabalhar com cheques e cartões, essas coisas que todo mundo ama e você passou cinco anos aprendendo que são o demônio? Assim você nunca pode assinar a Last FM. Não tem boleto lá.

Horas depois, mil cartões chegam pelo Correio. Lindos, vermelhos, cheios de esperança e prontos para serem distribuídos aos confins do universo. Mas agora, você não está mais na fila da padaria. E no selo de entrega está escrito que deveria ter vindo na semana anterior. Obrigada, SEDEX, pelo timing precioso. E sua mãe faz cara de bolinho. “Você não comprou pra mim”, ela repete, mesmo depois de saber que foi um presente.

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Mas nada disso é relevante. Você está sem estágio, afinal. Convenhamos, só servia pra pagar contas. A bolsa faz falta pra… Tudo. Mas tem ali os bicos. Tem TCC pra formatar, tem diligência pra fazer… O problema é o povo pagar. Falando nisso, hora de mandar e-mail para aquele cliente que pediu uma diligência monstruosa, e disse que pagaria em 3 dias… Há 2 semanas. É desagradável chegar nesse ponto, e você se sente a última miserável do planeta por precisar tanto cobrar 2 dígitos. Vamos agradecer ao Fantástico por fazer as pessoas acreditarem que somos todos golpistas milionários enquanto disputamos 2 dígitos a tapa.

E sempre tem aquele que pergunta “mas você não vai voltar pro outro lugar? Era tão bom lá”. O museu aceita muito passado. Ele vive disso. Você, não. E o amigo te oferece uma vaga boa, num lugar renomado, muito útil para a tal de projeção da carreira que você tanto quer. E você recusa, mas passa o resto dos dias pensando se fez a coisa certa. A sociedade tá encaminhada, mas vai precisar de dinheiro, o que não nasce em árvore. Como você vai tirar isso do chão sem o vil metal? Mas se aceitar a vaga pra acumular as dilmas, não vai poder ter sociedade. Quantos gumes numa faca só.

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Você já tem a aprovação da entidade de classe. Devia ter pego isso de primeira, dizem os puristas. Repescagem é para losers. O importante é ter e fechar 99% das coisas importantes antes do fim da faculdade (e os puristas que morram). Seis meses para o fim da faculdade. Falta só o tal do canudo. E você acha que vai ser um semestre sem soluços. A faculdade discorda solenemente e parece comprometida com a velha tradição de complicar tudo que é simples, apenas pra prejudicar os alunos. E por isso, a turma que deveria terminar o curso junta não pode fazer isso – a faculdade resolveu pulverizar alunos nos confins do universo. Deve ser parte do Q de qualidade dela.

Você tenta dialogar com a faculdade. E o coordenador diz “você desempenha muito bem o papel de advogada”. Obrigada pela educação. Você sempre sai das reuniões achando que falou e escreveu muita m***a. Mas as pessoas dizem que foi “um ótimo trabalho”. Aí você acabou representante de sala nos 12 minutos do segundo tempo da prorrogação. Ou não. Vai que eles não sabem o que estavam votando.

Yay.
Yay.

Enquanto isso, mais Tinder, mais novidade, menos weirdos. Agora você faz parte de um clube do livro, por conta do app do demonho. A primeira leitura? George Orwell. Aquele, que você jurou que não ia ler nunca na vida. Tinder: quebrando barreiras E promessas. E recordes de noção: porque o tanto que você estuda pra poder dar um jeito naquele bolo de problemas que o ser cavou ao simplesmente emprestar o apê pro amigo do amigo do amigo não é trabalho, aparentemente.

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2015 ainda não completou 2 meses, mas já rendeu mais que novela. Isso que você nem contou da sociedade. Se começou assim, onde acha que 2015 vai terminar?

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