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Mais um desabafo sobre o aborto

Sejamos claros, sim?

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“46 milhões de abortos ocorrem todo ano. São 126 mil todos os dias. 20 milhões desses ocorrem ilegalmente. A expectativa de vida é de um aborto por mulher.”

1 – A Lei 12.845/2013 NÃO LEGALIZA ABORTO. Nem na prática, nem na teoria, nem em lugar nenhum. Essa lei regulamenta o disposto nos artigos 127 e 213 a 218 do Código Penal. Estes artigos descrevem, há ERAS, o estupro, a possibilidade de aborto nestes casos e a permissão de atendimento imediato das vítimas, mas a lei carecia de normas específicas. É só.

2 – A regulamentação do aborto em caso de estupro não tem NADA a ver com o julgamento do STF sobre anencefalia. E já que nos lembramos dela, convém mencionar: anencefalia não é uma “má formação”. Má formação ainda te deixa viver. Você já viu um anencéfalo nascido? Eu já. É pior que olhar o corpo num caixão. O corpo, pelo menos, você sabe que foi. A criança anencéfala, não. Ela parece que vai crescer, parece que vai te dar o mundo. Mas aí, ela não respira direito, não abre os olhos, não se mexe sozinha, não esboça reação pra nada. E se você olha a cabeça dela, você entende, naquele buraco aberto, que ela se foi muito antes de nascer – e que o seu egoísmo (e a sua incapacidade de entender o que diabos é vida) mantém a casquinha dela ali.

3 – Não, fazer um aborto não é homicídio – ao menos legalmente, já que aqui no Brasil a vida começa no nascimento, de acordo com o Código Civil. O Código Penal também não considera aborto um homicídio; podem ir lá ver, ele é colocado numa categoria especial de crime contra a vida (e dentro dessa categoria, há ressalvas que priorizam a vida e a escolha da mãe). Desde 1940, os caras sabem que aborto NÃO é homicídio. Mas eles não sabem exatamente onde encaixar essa polêmica.

"Se algo é racional, lógico e sensato, então simplesmente não é feito."

“Se algo é racional, lógico e sensato, então simplesmente não é feito.”

4 – Parem de polemizar a “troca de termos”. Vocês deveriam ser mais espertos. Podemos debater a ética da coisa por horas, se quiserem. Mas sejamos objetivos: é um procedimento cirúrgico, como qualquer outro. E no olhar mais frio – e objetivo, novamente; o Brasil parece ter esquecido o significado da objetividade, ao lembrar tantos outros signos irrelevantes – que se pode ter, o estado gravídico é condição de saúde que requer tratamento, qualquer que seja o resultado. Portanto, tudo relacionado (vitaminas da gestante, ultrassom pra sexo da criança, e sim, aborto) é profilaxia. Não tremam, crianças nascidas no Sete de Setembro: profilaxia significa tratamento de condições do organismo. Eu sei que a Wikipedia diz outra coisa, mas ela está errada.

5 – De novo: parem de tentar usar o dicionário e a Wikipedia pra distorcer as coisas com significados simplórios. Eles até se ofendem. O embrião não é um patógeno. É uma condição de todo organismo – já foi a condição de todos vocês, e é a condição do organismo daquela mãe ali. Porque o útero é dela. A sua vida é amarrada na dela até o fim. O pai sempre pode fugir, a família pode virar as costas, os amigos podem ignorar… Todo mundo tem a escolha de não se envolver com aquele embrião. Menos ela, justamente quem mais vai ter a vida afetada por ele – entendam: ela pode criar, pode dar pra adoção, pode terminar… O que quer que seja, vai ficar com ela pra sempre. Vocês superam, esquecem, afogam num happy hour ou no próximo update polêmico do Facebook. A mãe, não. Ela não pode fazer isso. Sempre haverá um documento, uma cicatriz, uma imagem, enfim, alguma coisa pra lembrar o embrião e fazer doer (ou alegrar) a escolha dela.

6 – se vocês REALMENTE querem meter o bedelho nos úteros alheios, TENHAM RESPEITO. Todo mundo tem direito de ter uma opinião, e o que a Constituição dá, eu não posso tirar. Mas pelo amor de Cthulhu, dos Sete, dos Dementadores, qualquer que seja sua escolha de fé: não sejam simplórios. Eu sou contrária a homens falando de assuntos do útero, porque eles simplesmente não sabem do que estão falando. Mas já que vão se embrenhar nesse terreno que desconhecem, ao menos façam o favor de fazê-lo com respeito. Porque é duro engolir um manolo do altos de seus 20 e poucos anos de Restart comparando aborto a fazer xixi. Sério. Vocês não tem noção do peso que é ter que pensar nisso (e fazer) para qualquer mulher, mas estão falando como se fosse super fácil. Como se fosse a festa do caqui versão feminina.  Isso, claro, na concepção dos embriões nascidos e crescidos e sábios usuários de Facebook que não fazem IDEIA do que é ter um útero, mas falam como se fossem PhDs nisso.

Pronto, desabafei. Mas como diz a sabedoria das coisas…

"O bom senso é uma flor que não cresce em todo jardim"

“O bom senso é uma flor que não cresce em todo jardim”

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

Comentários

  1. […] – só hoje – não vou tecer comentários sobre a estupidez da Humanidade, pois estou cansada de constatar o quão imbecis somos, de uma forma ou de outra. Hoje, vou me limitar a um pequeno (grande) […]

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.