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Mjinga

Sou dessas pessoas, que se preocupa. Que perde horas imaginando se está tudo bem com esse ou aquele ser – às vezes, a agonia que dá chega a ser psicótica, e eu nem conhecer conheço. Sou dessas, que se distrai estudando, porque talvez compreender a solução possa salvar o mundo. Sou dessas pessoas idiotas que acreditam que podem mudar o jogo. E que só dormem quando imaginam um mundo onde está tudo bem. Com todos. Até com quem não merece – porque a minha opinião sobre as pessoas não as define.

Sou dessas que não compreende como o próximo não pensa em que seus atos ou palavras vão refletir; se a música alta não vai estressar o vizinho, se o celular sem fones não incomoda os demais passageiros do ônibus, se o empurrão dado na pressa não machucou a pessoa lançada para o outro lado da calçada… Enfim.

Cada um é livre pra fazer o que bem quer da vida. Mas acredito que pra toda liberdade, tem um limite. E esse limite é a liberdade do próximo, invadida pela sua.

Isto nada tem com leis e decisões judiciais – até tem; uma das (muitas) razões pra amar o Direito, é que ele incorpora quase todas as preocupações que tenho com o próximo – mas com aquele negócio que chamamos de Humanidade. Ser homo sapiens, qualquer um consegue, basta nascer. E ser humano? Aí, fica difícil.

Tenho lá meus (muitos, incontáveis, corram) defeitos. Mas nunca, jamais, em tempo algum da existência dessa Terra, dirão que não respeito a vida. Ou o próximo. Ou qualquer coisa que se insira neste contexto. Procuro tratar as pessoas como gostaria de ser tratada, dentro dos limites: atenção e cordialidade. Afeto, às vezes – poucas, mas existem. E se isso não dá certo, trato as pessoas como elas mostram que querem ser tratadas. Por vezes, elas não querem um bom tratamento. Acontece. E nem assim, eu violo a liberdade dessas pessoas (pelo menos, nunca disseram isso). Antes de falar, ou de agir, eu procuro o limite. E não passo dele.

(a não ser que a sua liberdade já tenha invadido a minha. Aí, eu tenho que me defender.)

O meu normal é ser o que eu quero neste mundinho. Quero um mundinho juridicamente pensante (duh). Um mundinho que saiba conversar. Que entenda bem o que é respeito por todas as coisas neste planeta e que saiba o que é coletividade. Um mundinho mais humano.

Mas aí, estamos em 2014. Vimos um tetra. Vimos a ONU quieta e os últimos estágios de um crime bárbaro se desenrolando num canto distante do mundo. É a sinopse de 1994; falta só a rádio comparando dado povo a baratas – se bem que já tem parlamentar acenando pra isso. E já imagino que, quando restar meia dúzia de palestinos no mundo, o Bono vai fazer show e as crianças aprenderão na escola que essa guerra, tão cruel, tão estúpida e tão antiga quanto o céu e a terra (tá, nem tanto) durou pouco, coisa de fim de semana. Aí, quem vai contestar? As pessoas gostam mais de estarem vivas que de fazerem justiça. E quem pode culpá-las? Ninguém.

A sinopse já era parecida desde sempre. Dois povos, historicamente rivais; uma terra. Parece Shakespeare, mas é o resumo da ópera de 99% dos conflitos que assolam este mundo desde que os neandertais tiveram a brilhante ideia de andar em grupo.

Pois bem. Outros seres (vulgo velhas fofoqueiras, interventoras, colonizadoras, facilitadoras, enfim) resolvem fomentar a animosidade, seja com dinheiro, influência, descaso, enfim (qualquer coisa que valha pra hipervalorizar um povo e deixar o outro na lama). Até que esses dois povos – antes rivais, agora realmente inimigos mortais pela picuinha alheia – resolvem se aniquilar. Um deles começa a ganhar disparado no quesito “limpeza étnica”. Ninguém faz nada. Ele vê que ninguém liga. E dá-lhe armar a população, explodir casas, executar na rua a sangue frio. Vale até comunicado nas rádios: “as covas ainda não estão cheias“. Quem liga? Ninguém liga. Está muito longe. Os olhos não veem, os parentes não são seus e o coração não está sentindo.

Somos todos humanos, feitos de carne e osso, e temos medo”, dirão os colunistas/oportunistas, ao comentarem desdobramentos de uma farsa que chamarão de “julgamento por crimes contra a Humanidade”. A terra será reconstruída, nunca mais se falará no assunto, os povos (o que sobrou deles) viverão como Ursinhos Carinhosos. Vez ou outra, um repórter surgirá com relatos emocionantes de sobreviventes, e uma breve “retrospectiva” destes eventos. As vítimas, que provavelmente estarão na casa do milhão no fim de tudo, continuarão sem nome. Sabe a pizza? Então. Ela segue. A vida também. E dirão que somos todos humanos.

E eu me pergunto o que diabos tem a Humanidade com essa coisa que não tem nome, na qual nos transformamos. Eu me preocupo com o rumo que estamos tomando. E me assusto quando vejo que não estamos mais preocupados com isso. É tudo muito longe. Quem liga?

Eu ligo. Mas essa sou eu, idiota. 

Talvez essas palavras em nada acrescentem, a Cruz Vermelha pouco acrescentou no que ocorreu há 20 anos. Mas enfim, é o que é. Ao menos, eu tento.

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.