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Movimento estudantil existe?

Eu perguntei se queriam alguma manifestação sobre o “problema da USP” no blog. Quem respondeu, disse que sim. E como não pega bem fazer o Pôncio Pilatos atualmente – tio Lula estragou essa – lá vai. Post longo. Saquem os óculos e boa leitura.
Como sempre, não me responsabilizo por eventuais cataratas, enxaquecas, desilusões, crises existenciais (recebi um e-mail que me culpava por essa, sério), rompantes de fúria e afins.

Longe de mim querer entender ‘o problema da USP”. Eu NÃO estudo lá. Mas gostaria de entender “o problema do movimento estudantil”.
Este foi um dia a maior arma desse país. Se você pode hoje invadir reitorias usando Chilli Beans e GAP pela bagatela de R$545 (a fiança estipulada pela “terrível e brutal” polícia paulista), agradeça ao movimento estudantil de verdade. Aquele que sangrou horrores na USP e na PUC pra que você tivesse hoje um “território livre”. Veja bem, eu disse PROTESTAR. Invadir prédios, depredar tudo, fazer festas e armazenar coquetéis Molotov na recepção NÃO encaixam na categoria.
Uma coisa bonita de ver seria um “protesto” assim no segundo em que um estuprador ataca na Cidade Universitária. E vejam, eu NÃO estudo na USP e sei que estupradores e seqüestradores estão pra Cidade Universitária como o chuchu está para o governo de São Paulo, digo, para a feira.
Não quero julgar. Não quero me meter. O que eu quero é entender algumas coisas.
Quero entender por que a maioria dos ocupantes do prédio NÃO era aluno da USP. Fontes não-documentadas dizem que o prédio estava cheio de membros do MNN –Movimento Negação da Negação. Isto é um partido político, a quem possa interessar. Todos bem formados em universidades particulares elitistas top de linha e sem qualquer vínculo acadêmico com a USP. Foi o que soube.
(parênteses abertos: sempre achei que o bom estudante de Letras, Filosofia e Ciências Humanas, por amor ao argumento e ao livre pensar, não se aproximava de entidades com discurso altamente xiita. O MNN é um partido xiita. Digo por experiência própria. Aliás, é de membros do MNN que vem meu arquétipo infalível do “estudante de Ciências Sociais”. parênteses fechados.)
Quero saber por que o movimento composto por membros de um partido político alheio ao cotidiano do centro universitário liderou essa ação contra os desígnios da comunidade acadêmica. Sim, estudantes. Aqueles que “devem prevalecer”. Caso você não saiba ainda, os alunos da USP são a favor do policiamento. A saber: toda universidade com campus livre – sem catracas e restrições de acesso ao público – possui policiais militares circulando.
(parênteses abertos novamente: não que seja a PMSP o modelo de virtude, bem sabemos que quando querem conseguem ultrapassar George W. Bush no quesito estupidez. Ainda assim, a PM é nossa instituição de segurança. Ela não é ideal, mas é o que tem pra hoje. E se não gostamos dela, cabe somente a nós, cidadãos, buscar a melhoria da instituição. Precisamos lembrar que onde a circulação da PM aumentou, a criminalidade diminuiu. E criminalidade em alta não contribui para o desenvolvimento acadêmico. Os alunos de Columbine que o digam. E não adianta defender segurança privada para a USP: dê uma olhada nisso e decida por si mesmo se a polícia no campus não tem efeito. Parênteses fechados novamente.)
Dizem que tudo isso ocorre porque os estudantes querem manter o livre pensar na USP, e a polícia no campus coíbe isso. Bom… Estou aqui, pensando livremente. Faço isso todos os dias. Moro a duas quadras de um distrito policial e passo por bases comunitárias móveis diariamente. Nunca um policial entrou na minha mente e fez corredor polonês nas minhas sinapses.
Dizem que tudo isso ocorre porque os estudantes querem manter a liberdade de discurso na USP, e a polícia no campus coíbe isso. Devo dizer que já fui abordada algumas vezes por policiais. E mesmo assim, nenhum policial me impediu de pensar – ou de dizer exatamente o que eu pensava.
(parênteses abertos mais uma vez: não sou “burguesinha”. Eu sei o que é truculência de polícia e de bandido – o que também não me impediu de desafiá-los. É simples: eu mantenho minha liberdade de ser quem sou, contra quem for. Não recomendo: precisa ter cojones e um desapego tremendo. Pra quem não é assim maluco, acredito que seja preferível geral da polícia a geral de bandido. Parênteses fechados mais uma vez.)
A polícia não coíbe a liberdade de discurso em lugar algum – a não ser, é claro, que você cometa um crime enquanto exerce essa tal liberdade. Nós estudantes exercemos nossa liberdade de discurso até demais, falando mais que professor em aula. Nunca vi a PM arrancar línguas para impedir a liberdade de discurso. Nem celular de funkeiro sem fone eles arrancam no ônibus – deveriam, é verdade. Fica o questionamento para os PMs: por que não confiscam aparelhos sonoros no ônibus, no metrô e na CPTM? Seria ótimo. Serviço prestado à sociedade, eu diria.
Dizem ainda que o antagonismo à PM é resquício de repúdio à ditadura. Eu NUNCA entendo porque a extrema esquerda chama a ditadura em toda oportunidade que tem. Porque nenhum dos barbados ali ocupando o prédio viveu a ditadura. E nenhum dos defensores desse pensamento viveu isso também. Os estudantes que viram a ditadura de perto dentro da USP censuraram o movimento e repudiaram esse raciocínio.
Nenhum de nós tem direito de falar de ditadura. É simples: nós não vivemos isso. Nós não sangramos isso. O mínimo do respeito por quem viveu e lutou é parar de choramingar por ditadura toda vez que levamos um “não” na cara. Esta não é nossa bandeira e não é a nossa época. Vamos respeitar isso.
Eu sei, vivemos numa época sem graça, onde toda revolução nasce e morre no sofá. É chato. O modelo social conhecido está caindo aos pedaços pelo desuso – culpe seu comodismo – e não sabemos como reinventar o mundo. E nós, estudantes, a maldita geração do futuro, é que temos que trazer a solução mágica para o presente. Eu sei que é muita pressão e muita frustração.Isso não nos dá o direito de roubar e distorcer as conquistas das gerações anteriores. Façamos a nossa, e façamos direito.
Mas, caso ainda seja um mistério, elucidando: o que foi feito na USP não é conquista. Também não é revolução. É outra coisa. O quê, não sei. Mas é outra coisa.
Gostaria que alguém coerente explicasse essa “coisa”. E gostaria de saber o que foi alcançado com isso. A resposta é “nada”? Então, não me satisfaz.
Por mais adjetivos negativos que se queira destinar a qualquer instituição do país – incluindo nisso o “movimento estudantil” – elas são exatamente isso: instituições. Criadas e legitimadas por você – não precisa olhar para o lado, porque você é tão povo quanto eu ou as pessoas que elaboraram e aprovaram a sua Constituição e ainda NÃO a contestaram (por contestação, entendam-se medidas válidas e nela previstas para contestar). Estas instituições devem ser respeitadas, não porque são instituições, mas porque são você. O Estado é você. Se você não se respeita, ninguém tem obrigação de respeitar.
Você pode querer a polícia fora do campus. Eu quero a fortuna do Eike Batista, quero um mundo sem gente pobre e quero o fim da época de provas nas universidades. Mas querer e poder, às vezes, são coisas muito diferentes.
Isso acontece quando decidimos viver numa pequena “maravilha” chamada SOCIEDADE. Nem sempre, satisfazemos nossos umbigos. Há outros nos quais temos que pensar.
Respeito é a chave de tudo nessa nada mole vidinha. Sem ele, somos todos bobos da corte dos outros, usando GAP e Chilli Beans, e escrevendo tudo errado em rolos de papelão.
Vou deixar aqui as palavras da Patrícia Xavier, que colocou as coisas em perspectiva. Talvez o “movimento estudantil” deixe a moça subir ao púlpito na próxima assembléia. Aposto que o que eles não resolveram na invasão, ela resolve numa conversa.

“Se a mídia insiste em colocar o movimento estudantil como um projeto infantil e inconseqüente, os estudantes ajudam – e muito, no trabalho. Mimimi: o movimento estudantil não tem como se expressar na grande mídia. Sério mesmo? Num mundo com internet, blogs, youtube, facebook, twitter, etc, não dá pra conseguir se expressar de uma forma coerente e articulada? Eu entendo as passeatas, as pichações, o bate-panela dos anos 70, em um mundo aonde não haviam outras formas de se expressar, em um mundo aonde a censura não era apenas real, mas institucionalizada. Hoje, essas atitudes não fazem mais o menor sentido e só acabam por colocar um grande rótulo nos estudantes: maconheiro-pau-no-cu.”

E com isso, uma nota: espero que o “movimento estudantil” não evolua desta forma. Porque o mundo já viu onde esse tipo de Godzilla vai parar. Era isso. Até a próxima.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • Lekkerding

    A presença da instituição que garante a ordem não é ruim, em lugar algum. Ok, eles são lesos e não tem trato com o público. Por que não cobramos alteração do regimento interno, pra que sejam treinados pra isso?

  • rafael

    Movimento sem sentido. Acho muito boa a presença da PM nos portões da UFPA, pena que não ficam dentro do campus como na USP.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.