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Não me dê parabéns

Boa parte deste texto foi concebido em 2013 e está no ar lá no Facebook, em forma de nota. Resolvi trazer pra cá hoje por 2 motivos:

1 – precisava iniciar minhas participações nas blogagens coletivas do Rotaroots, um grupo de blogueiros saudosistas que resgata a velha e verdadeira paixão por manter seus diários virtuais. Quer participar? Então faça parte do nosso grupo no Facebook e inscreva-se no Rotation.

2 – Boa parte do texto ainda vale. Mas acredito que mais coisas deveriam ser ditas. Então, lá vai.

Nas duas últimas semanas, passei por três episódios. Pra quem lê, eles podem ser peculiares; pra mim, it’s everyday business. Primeiro: estava no Carnametrô (ou seja, tive que usar a estação Sé no horário do rush), aguardando o trem, e um ser começa a se roçar em mim. Olhei pra trás, e ele deu um sorriso, se achando o Gianecchini da plataforma. E eu usei meu guarda-chuva da melhor forma possível – na cabeça dele. Repetidamente, até ele beijar o chão.

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“Se você encostar em mim, vou fazer mais que te assustar.”

As pessoas em volta, em choque, acudiram o “rapaz”. E depois de me chamar de louca (claro), perguntaram por que eu tinha feito essa coisa horrível. Eu relatei os fatos, como sempre faço. As respostas variaram de “isso não é motivo” para “ele não tem culpa”.

O trem chegou – já era o terceiro passando, e eu não poderia, de forma alguma, perder a maravilhosa aula do professor que mais parece a Fera da Disney – e eu embarquei, apesar dos protestos. Queriam que eu permanecesse ali até chegar a polícia, eu tinha que responder por meu “crime”. E eu disse: não houve crime algum. Minha integridade foi ameaçada e eu tive de me defender da única maneira possível.

dragon-pleaseAs respostas dadas me deixaram pensando. Alguém encostar em mim com intuitos sexuais e sem minha autorização NÃO é motivo pra que eu me defenda? Os vikings discordariam solenemente dessa noção. Entre os nórdicos livres, o estupro, ou a mera tentativa, era punido com a morte. Aqui, nessa sociedade tão “evoluída”, eu não posso me defender. O ser se esfregar em mim sem autorização – para os vikings, isso era tentativa, viu? – não é motivo pra isso. Mas a bicicleta da Caloi roubada é motivo de acorrentar gente no poste, certo? Ok. E como assim, “não tem culpa”? Oi? Ele por acaso era algum robô comandado por mentes malignas e não tinha controle de seus atos? Já sei, estava sonâmbulo. Ou era esquizofrênico. Ou a culpa era minha. Claro, sou eu a culpada, quem mandou estar ali parada esperando o metrô, certo? Ninguém faz isso. Como assim, a pessoa espera o trem parada na plataforma? Eu deveria ser apedrejada em praça pública, estava pedindo por isso.

Em outra ocasião, estava no metrô – não mais Carna – e entra um rapaz no vagão. Todo lindo, todo sexy and he knows it. Parou na minha frente. Virou de costas. Olhei pra baixo. Como  diria um amigo meu, a caixa era grande. Passei um tempo olhando, e minha estação chegando perto. Aí, chegou. As portas abriram. E antes de sair, minha mão direita convenientemente caiu na caixa do rapaz e ali ficou. Eu devia ter tirado uma foto da cara dele. Mas acho que isso aqui resume como ele ficou.

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O rapaz não teve tempo de esboçar uma reação, as portas fecharam antes que ele pudesse fazer isso. Mas acho que ele deve ter entendido como mulheres se sentem na CPTM. Moço, se você por acaso der de cara com este post: não vou pedir desculpas. Não acho errado fazer isso com você. É um elogio, certo? Afinal de contas, um mocinho todo bonito, todo totoso e todo saliente se mostrando no metrô… Ele quer isso, né? Se não quisesse ser cobiçado e apalpado, nem sairia de casa vestido desse jeito provocante. Convenhamos que sua calça jeans não era respeitável. E camiseta azul? Quem usa isso na rua pede pra ser assediado, cara. Seja sincero, você queria atenção. E fez a cara ofendida, mas adorou o que eu fiz.
fuck_you_you_fucking_fuck_LISBETH_SALANDER_5_1Se a sociedade pensa isso tudo de mim quando resolvo usar um vestido, ou se vou pra academia com roupa de ginástica (duh), acredito que esteja tudo ok de pensar isso de você. E dos próximos rapazes que passarem pelo meu caminho.

Tá, e por que contei essas histórias meigas? E cadê a terceira história?

Bom, estou contando isso porque hoje é Dia Internacional da Mulher. Oito de março é uma data pra celebrar, é dia de comprar rosas e distribuir às mulheres da sua vida – em casa, no escritório, etc etc etc – e fazer aqueles poeminhas bobos pra compartilhar no Facebook. Maravilha. Se você acredita firmemente que este é o único dia do ano em que deve escrever coisas bonitinhas, entregar rosas e lavar a louça, à vontade. Só peço uma coisa: não me dê parabéns. Por favor.

Se você é dessas pessoas que trata as empregadas como se fossem caixas de sapato e acha que está tudo bem, por favor, não me dê parabéns. Se você é desses que só lembra que tem mãe ou namorada (ou esposa, ou irmã, ou whatever) na hora de pegar a cerveja pro jogo do Parmera ou buscar aquela cueca que ficou no varal, por favor, não me dê parabéns. Se você é desses que votou na Dilma porque “estava na hora de vender o preconceito”, mas trata sua irmã igual um capacho porque ela não conseguiu levar as 15668675 caixas de bebida que você deixou pra trás porque “o edredom é pesado”, então faz o favor de ficar quieto. Se você é desses que adora uma pedreiragem e trata toda e qualquer mulher na rua como a ultimate boneca inflável da Apple, faça-me o favor: não me dê parabéns. Se você é desses que posta coisas lindas anti-preconceito no seu blog e enche a mão na bunda das “amigas” e garçonetes no bar, por favor, me esqueça. Finja que sou homem.

Mate-se, porque o mundo ficará melhor sem você.

tumblr_n1lyiiBlOo1s2vkvco1_500O dia de hoje não foi criado porque as mulheres queriam rosinhas bonitinhas. Tiveram que criar este dia, pra lembrar uns e outros que mulher não é brinquedo. Ela não é sua serviçal, não é enfeite da sala, não é algo à sua disposição. É uma pessoa, igual a você, que merece RESPEITO. E reverência também – porque você não aguenta metade do que elas (nós, oi) aguentam. Pode fazer o bico que quiser: você não consegue subir num salto. Não adianta tentar, porque você não vai terminar a depilação bem – duvido sequer que comece sem chorar feito criança. Desista, porque você não consegue andar de saia sem assar. Você não funciona com gripe. Você, querido Homem, não consegue fazer 1/3 do que as mulheres fazem com uma mão nas costas. Isso, só pra falar das coisinhas esquisitas que a estética do mundo – que surprise, surprise, é bem machista – agrega ao “ser mulher”.

Este dia foi criado pra que entendam, de uma vez por todas, que o devido lugar da mulher é onde ela bem quiser e entender. Não é desculpa comercial pra vender rosas. Se você entende isso, então tá. Se você acredita que Lisbeth Salander é bem mais legal que Katniss Everdeen, então tá bom, pode me pagar uma garrafa de vinho. Se você me enxerga como igual, pode dar os parabéns, eu aceito.

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E se você discorda, a porta da rua é serventia da casa. Apresento-lhe o Conde Weissefüder. E torço pra que você nunca me encontre na rua, e que não tente a sua sorte se me encontrar.

"Eu sou louca."

“Eu sou louca.”

“Continua faltando uma história”

Sim, mas essa história fica para o próximo post. Quem viver e continuar aturando, verá.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.