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Notícias de uma guerra particular

Disse no Twitter que ando cansada. Apesar da vontade de fazer e falar mil coisas, não sobra ânimo. Talvez seja a maratona de estudos. Mas acho que é a tal da pressão do fim.

São inúmeros os motivos pra escolher um curso, e com ele construir uma carreira. A gente se prepara pra perseguir os objetivos, mas uma hora, o curso acaba. E aí? Como se colocar diante dos pares? Como se apresentar às pessoas como detentor de tal conhecimento e habilitado pra dadas atividades? Como é que a gente sai da caixa do “estudante” e vai pra caixa do “profissional”?

O mundo espera uma transição mágica, com direito a personagens da Disney para a última música e você no topo da montanha. A gente também espera isso – somos humanos e fundamentalmente preguiçosos. Mas não acontece assim.

Isso definitivamente não vai rolar.

Isso definitivamente não vai rolar.

Outro dia, estava no metrô e observei um homem descendo a escada ao telefone. Ele estava bem nervoso, falando (muito) alto. E não deu pra não ouvir a conversa. Ele tinha acabado de sair de algum convênio médico, sem conseguir o plano desejado. Pelo que ele disse, trabalhou por 12 anos em uma empresa, de onde foi dispensado. A “firma” dava o convênio pra ele e pra família. Só que agora eles não podiam usar o plano – e pelo que entendi, eles precisavam daquilo, pois alguém tinha um problema médico que só ali encaixava.

Eu sabia do que ele falava. Ele teve a estabilidade do emprego desrespeitada e foi colocado numa situação de dispensa obstativa. E isso, só do que ouvi. Senti a obrigação de falar com ele, conquistá-lo como cliente, mas… Não sabia como persuadi-lo sem ser chamada de intrometida ou de stalker (e ele teria toda a razão do mundo, convenhamos).

Em outra ocasião, no fórum, aguardava atendimento e um rapaz, com seu processo na mão, começa a fazer perguntas, que respondi numa boa. Antes de ir embora, ele pede meu cartão. Eu nem pensei que já tinha que ter um. No mesmo dia, outras três pessoas pediram cartões. Quatro oportunidades perdidas. Outro reflexo no fim do filme.

Esses dias, no Facebook, alguém falava dos problemas da direção. A pessoa fez os cursos, aprendeu o que podia sobre dirigir o carro, foi aprovada, a Disney cantou pra ela. Agora ela pode pegar o carro quando quiser. Mas ela sente a pressão do fim: acha que já deveria saber uma série de coisas que não sabe.

Nós não recebemos manual da vida durante o curso. A gente aprende na marra. Alguns nunca aprendem. Outros conseguem por acidente, ou pegam por instinto. Eles não sabem explicar o que deu certo, só sabem que deu e continuam nessa. Mas a pressão do fim dá a obrigação de aprender, sob pena de nunca sair da caixa. E isso deixa a gente maluquinho.

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Este texto não tem final feliz. É só uma tentativa de despressurizar. Todos os dias, eu penso em maneiras de me catapultar dessa caixa – ou criar asas mesmo, é um fim de filme da Disney de qualquer forma. Não tem uma fórmula certa. São detalhes preciosos, perdidos (no metrô) ou ganhos (no balcão). O que sei é que não dá pra deixar o mundo ditar o fim dessa estrada. Juro que estou tentando. Como a pessoa motorista também está; uma marcha por vez.

Até a próxima crônica da vidinha, ou o próximo pitaco político, ou a próxima dica jurídica… Não sei. Talvez volte aqui pra publicar meu epitáfio. Ou talvez venha fechar por iniciar uma carreira política. Quem sabe? Eu ainda não sei. Vocês até podem contar onde me preferem. Mas o caminho é todo meu pra fazer.

Imagem de Gilad, no deviantART

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.