blog-post-img-1028

O absurdo manda lembranças

Vamos a outro assunto espinhoso, com texto comprido. Eu juro que editei montes.

Há quem diga que sou radical por não querer representatividade religiosa. Acredito que as regras gerais pra tentarmos conviver de forma civilizada dependem da ausência de peças religiosas – elas tendem a se institucionalizar, se acharem melhores que outras e imporem seus códigos a todos. Elas também tendem a ignorar solenemente os direitos bonitinhos do vídeo.

Mesmo as religiões que não possuem essa característica predatória podem se corromper, então vamos não arriscar.

Chamem de xiita, se quiserem. Precisamos que quem elabora e aplica leis seja laico. Que exerça a razão livre da paixão, examinando a sociedade de forma objetiva, para equilibrar nossas relações complicadas.

A fé sem uma pitada de razão vira paixão, e deixa as pessoas fanáticas. Eu não posso ter fanáticos examinando questões de saúde pública como o aborto, ou as drogas. Aliás, você também não pode. Não dá pra julgar pelos outros com base no que eu acho que meu deus acha deles.

É simples: discordamos veementemente no conceito de deus. E do que nós achamos que eles, os deuses de cada um, acham.

O meu deus não pegou procuração do seu deus e nem me repassou nada pra que eu decida por você. Mas se a representatividade religiosa estivesse aí, nosso mundo seria assim. Lembram do vídeo? Então, foi pelo ralo.

Tenho receio quando pessoas como o deputado João Campos (eu sei, estou devendo, aguardem novidades pela newsletter) propõem que façamos… Exatamente isso. Chamem de niilista. Não quero correr riscos com minhas prerrogativas constitucionais.

No Rio de Janeiro, a Justiça do Trabalho foi obrigada a examinar um caso peculiar de justa causa. Qual justa causa? Bruxaria.

Estamos em 2012, não em 1202; mas alguém achou que a lei permitia demitir com base no que se acha que o deus acha que é direito. A defesa, apresentada por um advogado e membro da Assembléia de Deus, dizia que a empregada tinha “o canto da sereia” e que fazia “despachos em sua casa”. Também disse que a mulher tinha “posto o demônio” em seu filho. As barbaridades seguem. Querem mais? Vejam o relatório da sentença. Vejam o que foi dito em audiência também.

O Estado é laico. As leis são laicas. Mas vejam bem: estamos em 2012. E tem gente aplicando leis por conta própria, sem autorização do Poder Judiciário. Pior ainda: aplicando as leis com base no que acha que seu deus acha certo. Tem lógica? Não. Tem só o que você acredita. Não é paranoia, nem pegadinha do Mallandro. Isso aconteceu ONTEM.

Um homem que em tese é treinado para exercer a razão sem paixão, registrou toda a paixão e o fanatismo adjacente no processo. Isso prova que meus medos não são paranoia – imaginem se esse ser amanhã vira vereador. Ou deputado. Ele só vai fazer o que ele acha que o deus dele acha que é certo. E nós, ficamos como?

O que me consola é saber que tenho uma estrutura judicial que consegue exercer a razão livre da paixão e observar os fatos, e não os fatos de acordo com o que alguém acha que deus vê.

Fico feliz quando percebo que tenho um Poder Judiciário que não se dobra para dogmas religiosos, e que ainda enxerga que a justiça dos homens não tem nada a ver com a justiça dos deuses, sejam estes quem forem. E fico em êxtase quando esse Poder Judiciário manda recado para igrejas afins nestes termos: nessa terra, o poder do seu deus acaba quando viola o meu direito de ter outro conceito de deus.

Deixo aqui os agradecimentos ao juiz do trabalho Leonardo da Silveira Pacheco, por mostrar a este “rábula de Deus” como se faz Direito nesse país. E espero que o advogado em questão não tenha a pachorra de recorrer dessa decisão “com fé em Deus”. Caso isso ocorra, espero que a Justiça do Trabalho do Rio de Janeiro mantenha a clareza de espírito de Leonardo da Silveira Pacheco intacta. E que, em nome do Sumo Vademecum, o deus dos sujeitos de Direito, não confiram a este mentecapto direito que nem ele, nem o deus dele demonstraram ter.

Só isso.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • Lekkerding

    Já é feio fazer isso por si só. Imagine botando Deus no meio.

  • Rafael Bortoletto

    O texto da sentença é quase digno da imaginação e inteligência do nosso querido martin. Culpar a pobre empregada pela cabeça do filho enfiada no vaso sanitário ( ri nessa parte me desculpem os mais puritanos ) inanição do filho, por problemas de roubos de objetos e afins é simplesmente transferir a responsabilidade ou melhor, a irresponsabilidade das pessoas por não cumprirem a lei.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.