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O auto dos perus de véspera

De volta às laudas blogueiras. Domingo passado, o pior pesadelo dos estudantes de Direito, conhecido como segunda fase do XIV Exame de Ordem, virou realidade pra mim. Ainda me sinto cansada, física e mentalmente.

Falei do Exame uma vez. Era uma realidade distante. O tempo passou, a distância encurtou, e entrei para o bloco dos 110 mil masoquistas que pagaram 200 dilmas pra tentar a sorte. Hoje, faço parte dos milhares aguardando resultados. Vou resumir o que é “prestar OAB”.

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As provas foram justas (contrariando a tradição circense do Exame). As 80 questões de agosto e as 4 questões com peça de domingo só queriam saber se, nos últimos 5 anos de nossas vidas, conseguimos aprender o mínimo necessário para sermos indispensáveis à administração da Justiça.

(licença, eu gosto de citar a Constituição Federal à toa, obrigada)

Na primeira fase, muita gente vai “conhecer o exame”. São três edições por ano, e não tem limite pra prestar. É a segunda fase que destrói. É a parte do teste que te pergunta se você sabe ser advogado. E vêm as cobranças. Sempre tem o parente que quer dar dicas. Amigos que dizem pra pegar a OAB logo e fazem pegadinhas para “testar seu raciocínio”. Nem preciso comentar o turbilhão na cabeça e no coração de cada um. Você sabe a dor e a delícia de ser você mesmo entre 4 de agosto e 13 de setembro.

É aqui que a gente entende a importância dos cursinhos preparatórios. Dá pra comparar o professor a presidente de fã-clube – sim, o André Paes é nosso fã número 1. O sucesso da gente é o sucesso dele. Ele torce a cada passo, e dá todo o suporte pra gente arrasar na prova.

Não só ele, mas o Rafael Tonassi, a Renata Orsi, o Renato Saraiva, o Josley Soares, o Leone Pereira, a Aryanna Manfredini, a Vólia Bonfim, o Marcos Scalercio… Eles são nossos fãs. E nessa hora de cobrança e nervosismo, ter esse monte de fã ajuda muito, mesmo que você não esteja pagando o cursinho.

(Não, nenhum dos seres acima está me pagando jabá. Eu usei todo o material deles disponível de forma gratuita, tanto na primeira quanto na segunda fase. O meu preferido é a tiete nº 1, ou seja, André Paes. Mas todos foram igualmente importantes pra chegar aqui, e portanto, cabe mencionar. E depois desse ode aos professores de Direito do Trabalho, ninguém desconfia a área que escolhi, imagine)

Horas de treino não te preparam para o rebu do dia: 6 horas numa cadeira absurdamente desconfortável, dentro de uma sala sem ventilação, impossibilitado de se comunicar com outros seres vivos ou receber estímulos (como ouvir música, por exemplo). É você versus você, e todos contra o tempo. Nível Sparta, sabem como é.

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A prova veio e foi. Os resultados serão divulgados em 03.10.2014. Até lá, resta esperar, e isso mata. Os fãs esqueceram de avisar que o pós-prova consta do manual de torturas chinesas. Aqui, você se pega cogitando as piores hipóteses possíveis.

A gente sofre de Síndrome de Peru de Véspera: não sabemos o que pontuamos, nem como. Nossas respostas estão corretas, mas não como o examinador queria. Nossas peças perderam detalhes, e o medo do zero absoluto povoa as imaginações mais férteis. Fica a sensação de que não deu. Por meio ponto, por um décimo, mas você vai reprovar. Igualzinho o peru na véspera.

Sejamos racionais. Só tem duas estradas: aprovar, e tirar a vermelhinha já; ou reprovar, e ter alguns meses pra surfar na repescagem. Fizemos tudo que podíamos, dentro das condições inóspitas que tínhamos, para trilhar a primeira rota. Agora, precisamos esperar o sinal abrir, ou fechar. Estamos no farol amarelo. Surtar não ajuda; faz a gente virar peru.

Estamos no mesmo barco. Se for pra afundar, vamos juntos. E se for pra dobrar o Cabo do Medo e virar a Boa Esperança, também. Mas não seja o peru. Eu sei que é difícil, mas vamos não surtar. Temos foco e vida pra manter. Vamos pensar em sucesso, não no peru.

Já dizia nossa tiete nº 1 da LFG: vai dar certo. Já deu certo. E é verdade. Não precisamos questionar tudo que sabemos. Isso já aconteceu no primeiro estágio, quando o chefe disse “então, você vai fazer uma peça”. As trocentas correções na sua primeira peça não disseram que você não sabia ser advogado. Elas disseram que você precisava melhorar. Se, e apenas se, o examinador reprovar sua peça agora, ele estará dizendo a mesma coisa.

E é bem difícil o ser da caneta vermelha falar isso porque você esqueceu do valor da causa (coisa que até Miguel Reale já esqueceu um dia). Não vamos morrer de véspera com isso. Vamos relaxar. Vamos tocar a vida em frente. A parte importante, a gente já fez: pusemos a cara a tapa e demos o nosso melhor. Somos todos vencedores. E advogados – é só nessa carreira que a gente tenta, tenta, erra e ainda vence na vida (um pouco). Já deu tudo certo. É isso. Chega de terapia.

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Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.