O câncer do Lula e o câncer dos outros

Nossa, mais um texto. As coisas realmente estão movimentadas por aqui. Mas vamos ao que interessa – porque acho que a tropa dos Ursinhos Carinhosos não está olhando para este lado.

A notícia do tumor do ex-presidente Lula foi amplamente divulgada ontem, em todos os meios possíveis e imagináveis. As pessoas logo começaram a comentar, e o questionamento – inevitável – surgiu: por que diabos ele NÃO foi se tratar no SUS?

Antes que se pudesse desenvolver o raciocínio, a tropa dos Ursinhos Carinhosos repreendeu duramente o questionamento. Falta de respeito, ignorância, desumanidade, ressentimento, burguesite aguda e politicagem internética foram alguns dos adjetivos usados por colunistas e twitteiros pra classificar a questão.

Bom… Sem querer polemizar, mas já polemizando: a tropa dos Ursinhos Carinhosos deve ser agora a coisa mais preciosa no coração do Paulo Duque. Lembram dele? O douto parlamentar que arquivou as denúncias contra o Sarney na Comissão de Ética e disse que “opinião pública quem faz é o jornal”? Então. O jornal não me fez, desculpem.

Questionei, como muitos. Lula passou 8 anos defendendo o SUS de todas as críticas que recebia com a frase “o SUS é ótimo, e se eu cair doente, é pra lá que vou”. São palavras DELE, não minhas. Bom, ele caiu doente. Porque não manteve a palavra empenhada?

Não é a primeira vez que temos uma figura pública doente e tendo que escolher onde se tratar. Não que todos aqui queiram que o Lula morra. A coisa é mais simples. Yasser Arafat NÃO quis sair da Palestina pra se tratar em lugares mais avançados (e caros), e depois mudou de idéia. Sem crises aqui. Fidel Castro usa o sistema de saúde que ELE criou em Cuba. Mal não fez – ele está vivo, bem e cansando as pessoas com seus discursos longos desde… Sempre.

Por que o Lula não confia no sistema que defendeu com unhas e dentes? É o que quer saber a “opinião pública” – essa que segundo o parlamentar, não existe, e segundo a tropa dos Ursinhos Carinhosos, é “ignorante, ressentida, burguesa, fascista, revolucionária de sofá, má, desrespeitosa” e afins.

É normal questionar. E eu, que normalmente censuro as manifestações populares que presencio – convenhamos que na maior parte do tempo, vocês não são exatamente engajados – creio que seja necessário dar importância. Porque Lula passou 8 anos dizendo determinada coisa, aqui, ali, acolá. E as pessoas, votantes ou não, LEMBRAM, e cobram. Lembrem-se: questionar é parte da democracia, e ninguém está atacando a pessoa do Lula – não nessa questão. Censurar este questionamento é que é fascismo. Cuidado com a observação das coisas.

Para a nação que, até pouco tempo atrás, não lembrava dos candidatos votados nas últimas eleições, lembrar do que disse o ocupante do cargo e responsabilizá-lo pela manutenção da palavra é um avanço político para o povo. Todos deveriam reconhecer isso, e não oferecer reprimendas a torto e a direito.

Não sei de quem é o câncer: se da laringe do Lula, ou da parcialidade exagerada da mídia.

Agora, a opinião pessoal: ele tem toda a liberdade de se tratar no Sírio Libanês, que é realmente excelente no combate ao câncer. E todo mundo tem liberdade de questionar por que ele não mantém o que disse durante 8 anos e usa o SUS. Sabe o que seria ótimo? A resposta DELE – ele não pode falar, mas tem duas mãos (quase) inteiras pra escrever e mandar pra imprensa – sobre o questionamento que ELE está recebendo. Sim, porque o Gravataí Merengue respondeu, o Gilberto Dimenstein, e tantos outros… Mas a pergunta não é pra eles. É para o ex-presidente. E ele é grandinho, consegue se defender sozinho.

Digo mais:  as pessoas tem um mito mascarado no câncer. Se Alexandre Nardoni dissesse agora “tenho câncer”, seria automaticamente perdoado – porque a doença gera perdão e benevolência automática, como se a pessoa enfrentasse o pior do pior do pior do pior dos males do Universo (como o melhor do melhor do mundo, mas ao contrário). Não é assim. Câncer é uma doença besta, se formos olhar a ALD. Perto de todas as crianças que apareceram no Teleton neste ano, o câncer é nada. A gente vence, ou morre tentando, e é assim, simples. Acredite em mim quando digo isso, porque eu sei do que falo. E sem querer comparar, mas Patrick Swayze, Reinaldo Gianechinni, Hebe Camargo, Martinho da Vila, Sheryl Crow, Drica Moraes, Cynthia Nixon, Michael Douglas e outros famosos com o mesmo problema não receberam tanta atenção – e nem tantos defensores – quanto o ex-presidente Lula, quando questionados sobre suas decisões.