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O líquido e o certo

Hora do desabafo jurídico. Vou contar a vocês sobre como ter um advogado muda o jogo.

Eu gosto de estudar. Isto não se reflete tanto nas notas como gostaria, mas traz o suficiente para que eu consiga trabalhar, manter esse bloguinho, escrever artigos e outras coisas. E a faculdade deve cobrar do aluno os critérios necessários para progredir no curso. Mas isso tudo se torna irrelevante quando a instituição de ensino resolve cobrar shenanigans do aluno pra não assumir um erro.

Mais fácil o gato morto miar que eu entender Penal...

Mais fácil o gato morto miar que eu entender Penal…

Ao conto. Eram duas dependências – DPs, para os íntimos do sistema universitário. E com DP, não se brinca. O semestre estava cheio de matérias relacionadas a Direito Penal. Eu já previa, a Criminalística seria meu fim. Minhas DPs precisavam ir embora, ou eu tinha de virar um gênio penal.

Atenção, pseudo-moralistas: os melhores profissionais não são os que só tiram 10. Bom no que faz é quem briga muito – até consigo mesmo – pra aprender. Esse sabe como doeu chegar ali. O cara dos 10 só sabe tirar 10. Perguntem ao Nucci se ele nunca pegou uma DP na vida.

O tempo passou, o semestre também: nada de poder fazer as DPs. Passei milênios na Secretaria questionando, e a resposta era sempre a mesma: “aguarde a atualização do sistema”. Mesmo depois do fim do semestre, eles pediam pra aguardar. Numa das últimas vezes em que fui à Secretaria, fui informada de que a grade curricular tinha mudado. Uma das minhas DPs se juntou aos rinocerontes africanos e foi extinta. Perguntei o que aconteceria com quem tinha DP dela. A resposta foi categórica: “provável que tenha dispensa. Isso a gente resolve semestre que vem”.

Um bálsamo pra quem tinha acabado de pegar três DPs – o Direito Penal é meu Nemesis. Foram as férias. Antes da volta às aulas, soube que o rinoceronte, digo, matéria, tinha sido obliterado da grade, mas ressuscitava pra me reprovar.

“Não, você não terá aulas dessa matéria. Não, você não poderá fazer prova e passar nessa matéria. Ela vai ficar no seu currículo para toda a eternidade, congelada como um mamute no pleistoceno. Ah, você destrancou e pagou? Sinto muito, nosso sistema não registra nada disso. Você tem provas? Ah, isto não é conosco.”

Perdi duas horas da minha vida ouvindo isso em loop infinito. Não parece coisa da Matrix? Eu, pelo menos, me senti o Neo ali.

A lógica acadêmica não tinha lógica, e eu precisava consertar isso. Estudo Direito; mas eu, sozinha, não faço nada. Eu precisava seguir o conselho que dou pra vocês sempre. Eu precisava de um advogado. E achei o meu rápido.

Expus o caso. Ele ouviu, deu um parecer e topou. Entre essa conversa e o início do processo, foram 6 dias. Devo dizer, entendo como Deus se sentia no domingo. Dali por diante, foram 14 dias de pura incerteza. Mas o caso foi resolvido. A faculdade reconheceu o erro assim que foi intimada pra dar informações – o juiz nem tinha dado canetadas comprometedoras, mas a simples possibilidade disso (e a diligência do meu advogado) mostrou a eles que não estávamos mais no Kansas.

E meu direito líquido e certo de não reprovar foi respeitado. God save o Mandado de Segurança.

E meu direito líquido e certo de não reprovar foi respeitado.

Isso só aconteceu porque, diante dessa situação dantesca, eu fiz a melhor coisa que podia fazer: procurei um advogado. Ele defendeu meus interesses com tudo que tinha – incluindo atravessar Sampa no meio da hora do rush pra despachar – e orientou da melhor forma possível, pra conseguir terminar esse pesadelo. Se não fosse pelo advogado, eu ainda teria de aguentar o constrangimento gratuito a que fui exposta nesses 14 dias pelo resto do semestre. Porque eu não estava reprovada, mas tive que engolir isso. Também tinha o direito de ser atendida pela coordenação; em vez disso, além de ganhar um bolo, tive um show de grosseria gratuita nos corredores de brinde. Se não fosse pelo nobre causídico, eu ainda estaria sujeita a tudo isso – e tenho certeza que mais brindes viriam por aí. A moral da história? Valorize seu advogado. E fique atento ao que sua faculdade faz com seus dados acadêmicos – não é interesse deles garantir seus estudos. É só seu.

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.