O martelo dos hereges

A sociedade vive mudando. Às vezes, isso é um problema. Porque mudança não é, necessariamente, evolução. Ah, sim, todo mundo gostaria de ser Poliana como Rousseau e ter o mundo ideal todo dia. Mas não dá.

Não dá, porque o que muda demais, nunca sabe se está indo pra trás ou pra frente. A não ser em raríssimos momentos na História. São momentos onde fica muito, muito claro: estamos fazendo isto errado. E isso é tão óbvio que chega a doer.

A Idade Média – ou Idade das Trevas – é uma das poucas partes de História Geral que toda escola fixa BEM na mente do aluno. Passamos um ano do ensino fundamental estudando o que aconteceu lá. Um ano inteiro dedicado ao começo, meio e fim de uma era que nem durou tanto pra ser lembrada (a Antiguidade durou mais, e a não ser que os maias cheguem ao fim do ano, a Idade Contemporânea ainda tem muito pela frente), mas que é analisada de cabo a rabo por todo professor, até os mais bocós.

Prestem muita atenção nisso: muita matéria passa correndo. Mas essa parte específica, não. As escolas mais relapsas se dedicam cuidadosamente a estudar pedaço por pedaço da Idade Média. E não é acidente; é um alerta.

A Barsa mais próxima ensina: o início da descrição da Idade Média é “o período marcado pela dominação da Igreja sobre a sociedade”. Assim começamos os estudos sobre o que professores diziam ser a época mais funesta da História. Os eventos documentados nesta era não são bonitos; foi nela que conhecemos e entendemos o que é tortura. Nela, conhecemos a repressão. O medo. A ignorância. Nessa tal de Idade Média, conseguimos explorar a fundo tudo que há de mais podre na Humanidade.

Perdemos 1000 anos na Idade Média, obviamente fazendo tudo errado. Mil anos de descobertas filosóficas e tecnológicas atrasados, porque fizemos tudo errado. E fizemos errado em nome de “Deus”.

As escolas fazem questão de deixar isso claro para o aluno. Não é por acaso; como disse, fica o alerta. Porque cabe aos alunos, estes que crescem, viram homens e mulheres com perfis badalados no Facebook, não deixar que isto se repita.

Entidade religiosa

Pois bem. Estamos tentando… Ou não. Porque a Câmara dos Deputados anuncia uma PEC – Projeto de Emenda à Constituição – que dá a entidades religiosas a prerrogativa de propor Ação Direta de Inconstitucionalidade e Ação Declaratória de Constitucionalidade perante o STF – Supremo Tribunal Federal.

Sabe o que isso quer dizer? Quer dizer que o ilustre (e por ilustre entenda-se protozoário gigante desprovido de atividade cerebral e dono de orifício nada ornamentado por pregas) deputado pretende dar às igrejas do país o direito de dizer ao povo o que se pode ou não fazer. As ações citadas previamente têm esse poder mágico: elas podem dizer quais leis são e quais não são boas para a Constituição Federal, que é a máxima expressão de uma nação. É este o poder que o deputado quer dar às igrejas.

Ele quer dar ao Edir Macedo, soberano da Igreja Universal, o poder de tornar inconstitucional – e proibido – o casamento gay. Quer dar ao Papa Bento XVI, soberano da Igreja Católica, o poder de tornar constitucional (e claro, válido) o ensino de Religião nas escolas, do maternal até o colegial. Quer dar ao pastor Silas Malafaia, soberano de sei-lá-onde, o poder de tornar constitucionais as cotas de música gospel no rádio e na TV. Em vez de BBB, todo mundo seria obrigado a ver isso.

 Achou absurdo? Exagero? Drama? Também acho. Mas as moças judias queimadas por heresia na época de Torquemada morreram pensando o mesmo.

Hypatia de Alexandria

A nação em questão é o Brasil. Nem Irã, nem Líbia, nem Síria e menos ainda a Arábia Saudita. É o Brasil. O país do Estado laico. O país do multiculturalismo, da mistura de povos, crenças e afins. O país que acabou de aprovar o Estatuto da Igualdade Racial e que luta bastante para aprovar uma lei anti-homofobia. Um país que, apesar do povo lerdo e dos políticos corruptos, recusa terminantemente a tolerância às injustiças, ao atraso, à ignorância, às trevas. E que está em xeque outra vez.

O problema é saber se o país resiste sozinho. E julgando pela PEC apresentada por um representante do POVO – ou seja, ele deveria advogar para as pessoas de Goiás, não pelas igrejas – o país está sem forças.

Enquanto o país está sem forças pra combater os horrores que estão fazendo a ele, você, povo, está aí sentado. Talvez esteja lendo. Talvez esteja vendo o pay-per-view do BBB. Talvez esteja só coçando o saco. Mas aí está você, muito ocupado fazendo nada. E depois quer vir debater políticas e teorias gerais do Direito no Facebook, não é mesmo?

Bom… Digo a vocês o que vou fazer. Vou redigir a minha ação popular. Vou conversar com quem conheço – quer elas queiram ouvir ou não – sobre fazer o mesmo. Vou lutar, com as armas que tenho. Vou encher caixa de e-mail e correio de todos os deputados e senadores possíveis. Vou gastar tudo que não posso ligando pra Brasília; vocês verão, vou conversar até com o Tiririca. Quero esse homem numa Comissão de Ética já, porque ele abusou – e muito – do poder que tem. Poder que EU dei. Porque esta Constituição Federal, que tanto querem mudar, é MINHA pra mudar, não deles. As leis são MINHAS. Eu sou povo. Você também, embora morra de vergonha de admitir isso. A Constituição é minha pra honrar, e só eu – ou quem eu legitimei pra falar disso – é que pode fazer algo. Eu não reconheço a legitimidade de qualquer igreja pra dizer o que eu posso ou não fazer. Isto, quem decide sou EU, O POVO. Mais ninguém.

Passou da hora de acordarem pra vida, brasucas. O poder de verdade não está na mão dos políticos, da elite, da polícia, dos Teletubbies, da Globo ou de quem mais quiserem inventar para rodas de filosofia. O poder é de VOCÊS, e só de vocês. Aprendam a usar esse poder, ou essa PEC vai passar. E todo mundo vai pagar CARO por isso.

“Houve um tempo em que todos acreditavam num Deus e a Igreja reinava. Este tempo era chamado de Era das Trevas.”