blog-post-img-657

O martelo dos hereges

A sociedade vive mudando. Às vezes, isso é um problema. Porque mudança não é, necessariamente, evolução. Ah, sim, todo mundo gostaria de ser Poliana como Rousseau e ter o mundo ideal todo dia. Mas não dá.

Não dá, porque o que muda demais, nunca sabe se está indo pra trás ou pra frente. A não ser em raríssimos momentos na História. São momentos onde fica muito, muito claro: estamos fazendo isto errado. E isso é tão óbvio que chega a doer.

A Idade Média – ou Idade das Trevas – é uma das poucas partes de História Geral que toda escola fixa BEM na mente do aluno. Passamos um ano do ensino fundamental estudando o que aconteceu lá. Um ano inteiro dedicado ao começo, meio e fim de uma era que nem durou tanto pra ser lembrada (a Antiguidade durou mais, e a não ser que os maias cheguem ao fim do ano, a Idade Contemporânea ainda tem muito pela frente), mas que é analisada de cabo a rabo por todo professor, até os mais bocós.

Prestem muita atenção nisso: muita matéria passa correndo. Mas essa parte específica, não. As escolas mais relapsas se dedicam cuidadosamente a estudar pedaço por pedaço da Idade Média. E não é acidente; é um alerta.

A Barsa mais próxima ensina: o início da descrição da Idade Média é “o período marcado pela dominação da Igreja sobre a sociedade”. Assim começamos os estudos sobre o que professores diziam ser a época mais funesta da História. Os eventos documentados nesta era não são bonitos; foi nela que conhecemos e entendemos o que é tortura. Nela, conhecemos a repressão. O medo. A ignorância. Nessa tal de Idade Média, conseguimos explorar a fundo tudo que há de mais podre na Humanidade.

Perdemos 1000 anos na Idade Média, obviamente fazendo tudo errado. Mil anos de descobertas filosóficas e tecnológicas atrasados, porque fizemos tudo errado. E fizemos errado em nome de “Deus”.

As escolas fazem questão de deixar isso claro para o aluno. Não é por acaso; como disse, fica o alerta. Porque cabe aos alunos, estes que crescem, viram homens e mulheres com perfis badalados no Facebook, não deixar que isto se repita.

Entidade religiosa

Pois bem. Estamos tentando… Ou não. Porque a Câmara dos Deputados anuncia uma PEC – Projeto de Emenda à Constituição – que dá a entidades religiosas a prerrogativa de propor Ação Direta de Inconstitucionalidade e Ação Declaratória de Constitucionalidade perante o STF – Supremo Tribunal Federal.

Sabe o que isso quer dizer? Quer dizer que o ilustre (e por ilustre entenda-se protozoário gigante desprovido de atividade cerebral e dono de orifício nada ornamentado por pregas) deputado pretende dar às igrejas do país o direito de dizer ao povo o que se pode ou não fazer. As ações citadas previamente têm esse poder mágico: elas podem dizer quais leis são e quais não são boas para a Constituição Federal, que é a máxima expressão de uma nação. É este o poder que o deputado quer dar às igrejas.

Ele quer dar ao Edir Macedo, soberano da Igreja Universal, o poder de tornar inconstitucional – e proibido – o casamento gay. Quer dar ao Papa Bento XVI, soberano da Igreja Católica, o poder de tornar constitucional (e claro, válido) o ensino de Religião nas escolas, do maternal até o colegial. Quer dar ao pastor Silas Malafaia, soberano de sei-lá-onde, o poder de tornar constitucionais as cotas de música gospel no rádio e na TV. Em vez de BBB, todo mundo seria obrigado a ver isso.

 Achou absurdo? Exagero? Drama? Também acho. Mas as moças judias queimadas por heresia na época de Torquemada morreram pensando o mesmo.

Hypatia de Alexandria

A nação em questão é o Brasil. Nem Irã, nem Líbia, nem Síria e menos ainda a Arábia Saudita. É o Brasil. O país do Estado laico. O país do multiculturalismo, da mistura de povos, crenças e afins. O país que acabou de aprovar o Estatuto da Igualdade Racial e que luta bastante para aprovar uma lei anti-homofobia. Um país que, apesar do povo lerdo e dos políticos corruptos, recusa terminantemente a tolerância às injustiças, ao atraso, à ignorância, às trevas. E que está em xeque outra vez.

O problema é saber se o país resiste sozinho. E julgando pela PEC apresentada por um representante do POVO – ou seja, ele deveria advogar para as pessoas de Goiás, não pelas igrejas – o país está sem forças.

Enquanto o país está sem forças pra combater os horrores que estão fazendo a ele, você, povo, está aí sentado. Talvez esteja lendo. Talvez esteja vendo o pay-per-view do BBB. Talvez esteja só coçando o saco. Mas aí está você, muito ocupado fazendo nada. E depois quer vir debater políticas e teorias gerais do Direito no Facebook, não é mesmo?

Bom… Digo a vocês o que vou fazer. Vou redigir a minha ação popular. Vou conversar com quem conheço – quer elas queiram ouvir ou não – sobre fazer o mesmo. Vou lutar, com as armas que tenho. Vou encher caixa de e-mail e correio de todos os deputados e senadores possíveis. Vou gastar tudo que não posso ligando pra Brasília; vocês verão, vou conversar até com o Tiririca. Quero esse homem numa Comissão de Ética já, porque ele abusou – e muito – do poder que tem. Poder que EU dei. Porque esta Constituição Federal, que tanto querem mudar, é MINHA pra mudar, não deles. As leis são MINHAS. Eu sou povo. Você também, embora morra de vergonha de admitir isso. A Constituição é minha pra honrar, e só eu – ou quem eu legitimei pra falar disso – é que pode fazer algo. Eu não reconheço a legitimidade de qualquer igreja pra dizer o que eu posso ou não fazer. Isto, quem decide sou EU, O POVO. Mais ninguém.

Passou da hora de acordarem pra vida, brasucas. O poder de verdade não está na mão dos políticos, da elite, da polícia, dos Teletubbies, da Globo ou de quem mais quiserem inventar para rodas de filosofia. O poder é de VOCÊS, e só de vocês. Aprendam a usar esse poder, ou essa PEC vai passar. E todo mundo vai pagar CARO por isso.

“Houve um tempo em que todos acreditavam num Deus e a Igreja reinava. Este tempo era chamado de Era das Trevas.”

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • Pingback: Muito falar e nada fazer - TSL()

  • Pingback: Rapidinho: cura gay | TSL()

  • Pingback: O absurdo manda lembranças | TSL()

  • Lekkerding

    Obrigada! Espero que você venha lutar por ela também!

  • Ju Kiefer

    Espero que sigas lutando mais pela CF do que por seu time do coração. Parabéns, esse país precisa de cérebros pensantes. Abraços!

  • Lekkerding

    Isso tem tanta relevância quanto as formigas na África, para os aliens. Não é efetivo, não tem efeito real, não tem nada. É só uma pinturinha bonita.

  • Lekkerding

    Então… Hora de fazer algo a respeito.

  • Dar poder pra quem já tem poder demais???
    Não.

  • Lekkerding

    Esse deputado que resolveu apresentar essa PEC… Ou é realmente muito religioso, ou estava muito bêbado, ou ganhou muito dinheiro. Porque pra ofender a Constituição assim, na cara larga e ainda sorrir, não tem outra explicação.

    Acredito que os ateus são os que menos sofreriam nessa – os religiosos já desacreditam e ignoram solenemente. O problema é o embate de quem acredita diferente. Como seria? Quantas mil ADINs X ADECONs o STF enfrentaria, por exemplo, no casamento gay? Há religiões que condenam, e há religiões que abraçam. Por quanto tempo eles ficariam medindo forças com todos nós no meio?

    Não se preocupe, pois disponibilizo em PDF no blog, assim que terminada. E mando aviso pelo Facebook quando for distribuir. Espero que faça o mesmo! Deixar barato, não dá.

  • ssrodrigues

    Olá!
    Fiquei tão surpresa com essa…essa coisa absurda que fui pesquisar para ver se era isso mesmo.
    Não costumo ter dificuldade em expressar minhas opiniões, mas nesse momento não encontro palavras adequadas para dar conta do tamanho da minha indignação. Num país onde as coisas mais absurdas passam a parecer normais, essa PEC sem dúvida extrapolou.
    E me assusta muito pensar que essa abominação possa ser concretizada, dado o grau de paralisia que a sociedade tem apresentado perante os absurdos que ultimamente nos assolam.
    Embora ateia, minha preocupação não deriva dessa minha condição, mas de pensar quanto mal pode ser causado quando indivíduos passam a poder criar leis baseados em critérios tão subjetivos quanto possam ser aqueles originados na fé.
    A religião já governou parte significativa do mundo e os resultados foram os piores possíveis. A religião governa alguns lugares no mundo e os resultados vemos quase todo dia, na forma de violências de todo tipo.
    A dificuldade talvez resida no seguinte: as pessoas, se instadas a se pronunciarem sobre essa emenda terão a exata noção do alcance dela, ou se deixarão levar por seus próprios critérios subjetivos de fé?
    Quando concretizar sua Ação Popular, por favor, envie o link para meu email.

  • Lekkerding

    A ação popular – infelizmente – tem uma série de rococós jurídicos. Não dá pra redigir uma dessas sem ter noções de Direito Constitucional, então só o advogado saberá como fazer isso (ou um bom estudante de Direito, que já esteja no 3º ano). Não se pode dar entrada numa dessas sem estar representado (sim, amarraram a ação popular com a advocacia, é chato, mas é isso). A Defensoria Pública pode e deve ser procurada pra isso. É função deles também, até onde sei.

  • Zarife

    A respeito da ação popular, eu mesma devo redigir o texto ou fica a encargo do advogado? Eu posso procurar um advogado público pra esses fins?

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.