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O segundo dia do resto do julgamento do mensalão

Daqui a pouco começa a novela.  O julgamento do mensalão retorna com muita emoção: começam as defesas dos réus. Para hoje, temos José Dirceu, José Genoino, Delúbio Soares, Marcos Valério e Ramon Hollerbach, sócio de Marcos Valério, cada um com uma hora pra falar. A sessão promete pegar fogo.

Todo mundo precisa de um resumo dos capítulos anteriores pra se situar na história. Sexta-feira foi o dia mais chatinho dessa saga (até agora). A Procuradoria Geral da República pediu a condenação de 36 dos 38 réus do mensalão, com a absolvição de Luiz Gushiken e Antônio Lamas.  Pra fazer isso, Roberto Gurgel precisou de cinco horas e muito energético.

Não levem a mal. Como expositor, Gurgel é péssimo. Seu discurso não empolga, não prende atenção e muitas vezes perde o foco. Isso aconteceu em 4 das 5 horas de Grilo Falante dessa sexta.

A primeira hora surpreendeu. Fez um discurso técnico, mas com cunho político forte. Teve até certo carisma. Mas suspeito que tenha sido apenas pra cutucar o José Dirceu.

Convenhamos: o material disponível era vasto (em mais de 50.000 páginas, até Britney Spears acha material). Ele poderia ter sido bem mais incisivo, bem mais técnico e bem mais sucinto. Após a terceira hora, Gurgel entrou numa espiral da morte discursiva: já estava perdido nas próprias falas.

Roberto Gurgel buscou traçar uma “cronologia do mensalão”. Pelo que vi na sexta, não estou muito convencida, que segundo Gurgel, é baseada em depoimentos. Acho muito arriscado apoiar um caso desse porte em “ele disse, ela disse” –a síntese de um depoimento. Ainda temos indícios de xabu: ministros do STF encontraram rachaduras na tese da Procuradoria. Os advogados de defesa dizem que Gurgel jogou sujo na sexta-feira, incluindo documentos já descartados no processo e mudando as acusações. Se for verdade, é realmente problemático para a Procuradoria. Pega mal mudar a história, né gente?

Vamos aos pontos positivos do Gurgel. Ele mandou pras cucuias a tese que se divulga na imprensa, de caixa eleitoral. E justificou legalmente o foro privilegiado de todos: para ele, como os eventos ocorreram quando os réus exerciam cargo público ou eram associados a atividade pública, quem precisa ver isso é a autoridade competente pra tratar desses assuntos. Não é uma má ideia.

Roberto Gurgel foi bem abrangente. Poderia ter sido melhor. E poderia apresentar outras bases. Mas tratando de um caso desse porte, e sendo quem é, reconheço que fez o seu melhor. Só me preocupa imaginar se esse melhor é o suficiente para dar às pessoas o senso de justiça que buscam.

É isso. Agora, olho na tela, a novela começa daqui a pouco.

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.