O selo de qualidade da OAB e o Oscar do Leonardo Di Caprio

NOTA: este texto foi publicado no LinkedIn em janeiro de 2016, durante a temível Era das Trevas deste blog (vulgo falta de grana pra pagar a hospedagem). Não me responsabilizo pelas cataratas, mas vale a pena ler se você é fã de um mini barraco de classe, ou se nunca viu minha pessoa conciliadora.

NOTA POSTERIOR AO TEXTO: tá vendo como nada é eterno? Um mês depois desse texto, Leonardo Di Caprio ganhou o Oscar e teve o trabalho reconhecido pela Academia. Fica a dica para as universidades. A FMU, em particular, começou 2016 mudando várias políticas (horríveis) de outrora, renovando o corpo docente, expandindo as capacidades dos professores dali (espero que a remuneração esteja proporcional a estas expansões) e até trocando a coordenação do curso. Espero que isso se reflita em selinho. Resultados, por favor.  Você deve estar se perguntando porque escrevi esse texto. Não, não é publieditorial do Q de Qualidade. Toda a celeuma veio de algumas pessoas, que já não integram os quadros da faculdade fizeram polêmicas no Facebook com os resultados da lista da OAB (pra variar, porque dor de cotovelo é como a zoeira: não tem limites) e incitaram uma onda de manifestações pró e anti faculdade, às vezes atacando alguns professores. Algo completamente desnecessário, mas que precisava de uma resposta. 

A OAB deu selinho de qualidade para 139 cursos de Direito no Brasil. E teve gente que se incomodou de certas instituições não estarem na lista. Primeiramente, é bom a gente lembrar que se o INMETRO começasse a certificar entidades de classe agora, a OAB jamais ganharia selinho. O órgão provavelmente esqueceu do próprio teto de vidro. Só pra lembrar, a OAB é a entidade que deixa associados levarem calote, dentre outros “feitos invejáveis“.

Aliás, vamos observar que não tem UMA edição do Exame de Ordem que mereça selinho de qualidade. Ou podemos pensar em certificar com qualidade uma prova que SEMPRE vem com questões claramente nulas, mas nunca enxerga os próprios erros crassos? Acho que não. Mas enfim.

Ninguém liga. Porque ninguém dá liga.

A credibilidade da OAB, seja suficiente ou não, é irrelevante aqui. Porque querendo ou não, é o órgão que mais possui interesse no crescimento (qualitativo) dos cursos de Direito em terrae brasilis e quem mais recebe os acadêmicos em seus quadros, como profissionais. Ela está envolvida no ensino jurídico, oferecendo palestras e cursos como o CEPA – Curso de Estágio Profissional de Advocacia, coisa que outros órgãos, como a magistratura, não possuem. É natural, portanto, que a OAB tome essa responsabilidade de investigar a qualidade do ensino jurídico pra si, e que elabore essas listas de certificação.

Foi o que ocorreu aqui. Muitas universidades excelentes ficaram de fora; algumas, não tão boas, estão na lista. Acontece com qualquer “premiação” desse tipo, e o Leonardo Di Caprio sem Oscar está aí pra provar isso. Robin Williams passou anos encantando as pessoas antes que a Academia se tocasse de que ele precisava ganhar um prêmio. O cinema brasileiro passou décadas no ostracismo até Fernanda Montenegro lembrar todo mundo que aqui não se faz só novela do Maneco, em Central do Brasil.

Essas coisas acontecem, mas a presença – ou ausência – de uma universidade no clubinho dos selinhos nunca vai alterar a qualidade do trabalho que se faz nelas, desenvolvido ao longo dos anos. Não sei por que estamos nos incomodando tanto com o fato da FMU não estar na lista, ou a FAAP. Independentemente do que diz a OAB, estas são universidades boas, e fornecem bons cursos de Direito. Fazem e continuam fazendo um bom trabalho. Acredito que falta compreensão das pessoas nesse aspecto, principalmente no que tange a FMU – só me manifesto hoje porque vi o volume de pessoas acusando e defendendo a instituição com unhas e dentes. Alguns desmerecem a universidade, simplesmente por não estar lá. E outros defendem a bandeira com unhas e dentes, menosprezando a lista. Não acho que possamos ir a extremos dessa forma.

A FMU tem defeitos? Sim. Sempre fui uma crítica ferrenha da faculdade, para terror dos coordenadores de curso. Mas esses defeitos não anulam as qualidades do curso e também não apagam o fato de que a FMU tem, sim, um histórico de bons trabalhos na formação de operadores do Direito. A lista não fará a FMU baixar as portas para todo o sempre: todos os envolvidos continuarão lá, fazendo seus trabalhos. Se possível, empenhando esforços para solucionar os problemas e ter menos defeitos. Talvez o curso se empenhe tanto que esteja na lista no próximo ano; talvez, não. Mas continuará lá, fazendo seu trabalho.

Leonardo Di Caprio já está mais que acostumado a sair da cerimônia do Oscar de mãos vazias. É um dos memes mais vistos da internet; ele sempre é indicado, e sempre perde. Alguém já viu Di Caprio dizer “parei de atuar! Cansei de ser o ator que não ganha, vou virar neurocirurgião” por isso? Não. Ele continua entregando bons filmes e surpreendendo as pessoas com suas performances.

Chega mais, 2015, o palco é todo seu.

Ele não é um ator menor por não levar a estatueta. As faculdades de fora da lista (bem, algumas) também não são menos qualificadas por não ganharem selo – e algumas das pessoas que estão nas redes sociais afirmando isso, e incitando seguidores a “questionar a coordenação”, deveriam ter o mínimo de senso. Aliás, acho inadmissível a pessoa se dizer formada em Filosofia e não PENSAR sobre o que escreve – e não podem ser crucificadas por isso. Acontece.

Outra coisa que não se vê, é Leonardo Di Caprio esnobando a Academia quando é nomeado concorrente. Alguém já viu o ator dizendo “não quero minha indicação esse ano porque é marmelada”? Claro que não. Porque apesar dos pesares, a Academia é um órgão importantíssimo na indústria cinematográfica norte-americana, como a OAB também é essencial para o nosso sistema jurídico (e para a advocacia em particular).

Mesmo que a Academia faça vazar exemplares de filmes para os torrents, ou que a OAB nunca explique onde vão parar os valores gigantescos pagos em anuidades, estas são entidades extremamente relevantes em seu meio. O que elas dizem é importante; nos inspira a evoluir. É esse o espírito. Continuar tocando as coisas boas, e eliminar as ruins, pra que tudo possa melhorar. Nada neste mundo é definitivo. Se sua faculdade não entrou nesta lista, ela tem 365 dias para se aperfeiçoar, e talvez esteja na próxima. Isso, claro, sem perder o que já tem de bom.

Era só isso que eu tinha a dizer. Acho que todos nós poderíamos pegar uma dica ou duas de Leonardo Di Caprio. Seria bom levar algumas dessas lições para a vida e sermos mais sensatos, mantendo as qualidades de nossos trabalhos.

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