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O terceiro dia do resto do julgamento do mensalão

Cá estamos. Mensalão, dia 3. Fico feliz que estejam gostando da sessão “o STF como ele é” lá no Facebook. O objetivo é deixar um legado digno de Nelson Rodrigues no mundo jurídico. Ontem, começou a maratona para as defesas. Vimos José Dirceu, José Genoíno, Delúbio Soares, Marcos Valério e Ramon Hollerbach.

José Luís de Oliveira Lima, o advogado do Dirceu, e Marcelo Leonardo, advogado do Valério, são os seres que chamarei de Sledgehammers daqui pra frente.

Sledgehammer; marreta, em inglês

Os Sledgehammers malharam tudo que o procurador da República disse – detalhe: os dois usaram as palavras do Gurgel contra ele, desconstruindo tudo que ele disse. Eles foram objetivos, sucintos, duros e implacáveis. E com a vantagem de não levarem cinco horas pra tudo isso. Ah, sim: eles fizeram como manda a Lei. Nem mais, nem menos.

Os buracos abertos na acusação pelos Sledgehammers podem doer para o senso de justiça que vocês esperam. Daqui a pouco falamos disso.

A defesa do Delúbio também foi boa. Não foi a Brastemp dos Sledgehammers, mas foi boa. Segue no mesmo sentido a defesa do Ramon Hollerbach.

Eu fiquei com dó da defesa do Genoíno. O advogado ficou nervoso e acabou não expondo muito bem. Entendo. Se fosse eu ali, com o Joaquim Barbosa de pé me olhando com cara de kryptoniano, eu não seria a pessoa mais calma da sala. Ainda assim, parabéns; não é qualquer um que mesmo nervoso, consegue levar seus argumentos até o fim.

Acho que essa exposição das primeiras defesas conseguiu uma vitória para os réus, porque martelou um ponto importante: a prova a ser considerada é aquela que está no processo, não o que a polícia judiciária tirou da cartola na investigação. Os Sledgehammers demonstraram que muito do que o Gurgel disse já foi solenemente desconsiderado no processo; quais as bases dele pra acusar, então? É aqui que o senso de justiça pode ir pro ralo. Se não temos provas suficientes, como vamos condenar?

Por mais que todos estejam cansados de corrupção – o que sinceramente duvido, pelo monte de provas contra o Sarney existentes e zero processos abertos – é necessário entender que não basta acreditar cegamente que alguém é inocente ou culpado.

Tenho pra mim que, infelizmente, o Brasil tem uma mania triste de simplesmente acreditar, sem levar em conta os fatos. Quando Roberto Jefferson abriu a boca, foi considerado herói. Ninguém escutou a parte em que Jefferson só falou porque o partido dele não foi pago. Ninguém prestou atenção no fato de não ter documento apresentado mostrando alguma coisa. Todo mundo acreditou no que disseram e repetiram até a exaustão. E cá estamos, movimentando o Judiciário por conta de “ele disse, ela disse”. Aí tem a turma da pizza e da marmelada. Oras… Quem quer fazer as coisas, colhe provas e demonstra tudo nos mínimos detalhes.

O Roberto Gurgel se esforçou bastante, mas não falou de prova. E agora? Só Cthulhu sabe. E as 50.000 páginas espalhadas no Plenário do STF.

Mas não desanimem. Ainda tem muita coisa pra acontecer. Vai que alguém escorrega. Vai que o General Zod invade o Plenário pra brigar com o kryptoniano. Vai que eles resolvem proferir uma decisão política e simplesmente acreditar. Hoje temos as defesas de Cristiano de Mello Paz, Rogério Tolentino, Simone Vasconcelos, Geiza Dias e Kátia Rabello.

AH! Os melhores momentos em plenário nesse terceiro dia de trabalhos não tiveram palavras. Vejam que beleza, a festa do pijama no STF.

Quem tiver fotos do Celso de Mello pescando, pode mandar. É verdade. Não darei detalhes, mas quem acompanha pelo Facebook e estava vendo TV Justiça ontem, sabe do vexame que falo. Nunca antes na história desse país um julgamento foi tão divertido.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.