Onde você guarda o seu machismo?

Parem as máquinas. Algo precisa ser dito. Hoje, uma manchete da Veja – nem sei por que isso ainda existe – chamou minha atenção com estes dizeres: Delegado carioca ataca mulheres policiais pelo Twitter.

Li a “reportagem”. Como não se pode confiar no que diz a Veja, fui pesquisar em outros locais, sem sucesso. Acho que o jornalismo morreu – ninguém informando nada, só dando pitaco.

Fiz o que qualquer pessoa dotada de massa encefálica faria: fui ao Twitter do delegado. E comecei a rir. Porque o delegado, em seus tweets, disse só uma coisa: as pessoas que trabalham em sua (ex) delegacia são preguiçosas. Independentemente de serem mulheres, foi o que ele disse.

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Vocês estão cansando a beleza da Dita com isso.

Não é porque sou mulher que todo mundo é obrigado a presumir que sou uma Valquíria. Meninas, entendam: se fôssemos todas perfeitas, não reclamaríamos tanto de peso, pele, unha e afins. Você receberá críticas por seu trabalho – e não por ser mulher, mas porque o trabalho não está satisfatório. Homens recebem as mesmas durezas da vida, nesse quesito. As exigências aumentam quando se escolhe uma carreira policial, e não adianta dizer que é machismo, ou preconceito. Acontece. As pessoas que escolhem isso devem saber que nesse front, não se pode simplesmente bater o ponto e pronto. Como bem disse o delegado: é uma vida cheia de sacrifícios.

Não sei se o delegado é casado, se tem filhos, se os pais ainda vivem. Mas uma certeza eu tenho: ele já precisou perder muito da própria vida pra viver a vida do policial, a vida do cara que serve o estado e a sociedade sem lembrar de si mesmo. E já teve que escutar coisas bem piores que as ditas no Twitter dos chefes, merecendo ou não. Isso vem com a carreira.

Ele, que via o trabalho da mulherada diariamente, fez uma crítica aberta ao trabalho delas. E só. O resto é viagem na maionese de quem não tem capacidade pra ler um texto simples que seja. Respondam: por que são mulheres, o delegado não pode dizer que são preguiçosas? Não podemos mais falar do trabalho delas, mesmo que seja péssimo? Por acaso, ter a Giovanna Antonelli fazendo uma delegada na novela das 8 desautoriza qualquer crítica às policiais mulheres?

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O machismo é de vocês. Porque se este delegado tivesse falado de 13 homens preguiçosos, os palavrões portugueses faltariam ao vocabulário pra pedir a demissão sumária desses policiais. Mas ele falava de mulheres. Tadinhas, elas não podem ser preguiçosas, são mulheres. Morte ao delegado.

Vocês entenderam o que foi feito? O delegado foi exonerado – demitido – por denunciar preguiça no serviço público. Vocês queimaram alguém que queria trabalhar e deixaram 13 pessoas sentadas em suas cadeiras, atrasando investigações importantes para a comunidade daquele distrito. Por conta disso, uma mãe talvez não saiba quem matou o filho, ou não consiga recuperar o carro roubado. Isto, porque as 13 santinhas vão atrasar o andamento da coisa – tudo pra saírem no horário sem fazer nada no serviço. Porque são mulheres, vocês decidiram que elas podem fazer algo similar ao que o médico do caso Adrielly fez.  E assim começa 2013 no blog. Não quero nem ver o que trará o resto do ano.