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Panteão for Africa

Estava aqui, cuidando dos afazeres, quando caiu no meu colo esse Panteão dos Parvos. Quando a gente se propõe a tratar de África, precisamos escolher – muito bem – as palavras e as batalhas. Porque África é um continente inteirinho, tanto geográfico quanto político – e até nessas definições a coisa fica complexa. É grande, é cheio de peculiaridades, e cada cantinho do continente tem um abismo de diferença do resto.

É impossível fazer qualquer afirmação geral sobre África sem cair na terra da generalização, ainda que se tenha todas as boas intenções do universo (o inferno, aliás, está cheio delas. Mas deixo essa pro Papa Francisco discutir). Mas enfim, “herrar é umano e tá serto assim”, diria o poeta. Passou pela timeline no Facebook uma postagem da pessoa que chamaremos de “Globalmente Preocupada”. Esta pessoa disse o seguinte, ao compartilhar dados sobre violência contra mulheres em países da África e do Oriente Médio:

“Mulheres tendo seus rostos queimados por ácido no Oriente, sendo mutiladas e castradas na África.. a cultura da mulher-objeto em seu aspecto mais cruel e devastador… Lembro das palavras de um psicólogo da ONU que palestrava sobre seu trabalho na África, como era difícil para os profissionais a atuação em países em que o estupro e a castração feminina são fatos cotidianos, tradicionalizados por religiões e crenças locais…”

A declaração incomodou. Posso estar louca, mas se essa publicação não fosse acompanhada de uma ilustração – e dados complementares – daria a entender que a África inteirinha é assim.  Ela pode até funcionar para os bons entendedores de África – esses, que primeiro compreendem que ela fala do continente, e não do país; e que depois percebem que ela refere os países relacionados – mas vira areia movediça pra quem cai de paraquedas e não conhece mais que o meme do Kony. Não que eu acredite que a Globalmente Preocupada tenha feito de propósito, mas é sempre bom falar.

Adoro quando as pessoas dizem “África” e esquecem que é um continente inteiro, cheio de países, etnias e peculiaridades – e que grande parte desses não estão na categoria abordada. Também adoro quando esquecem de olhar para a história dos justos países abordados e apontar responsabilidades.

A Globalmente Preocupada defendeu seu comentário. Eu até entendi o que ela quis dizer.

Primeiro que eu não estou dizendo que a África é o único lugar onde acontece isso… Se puder observar o que eu falei, também comentei sobre as mulheres que são queimadas no Oriente. Segundo, as pessoas dizem África por serem diversos países do continente africano. Quando rolam coisas em diversos países da América do Sul, também falam “na América do Sul”. Quando rolam coisas em países do Oriente Médio, também falam “no Oriente Médio”.

Respondi e relevei. Não havia por que discutir mais. Minha posição estava exposta.

Quando coisas acontecem em países da América do Sul, as pessoas dizem “países da América do Sul”. Quando pula pro Oriente Médio, dizem “países do Oriente Médio”. O normal é não generalizar. Mas “tá serto”.

Mas eis que chega ele. Ou ela. Ou como bem definiu um dos  Oráculos deste Panteão, “um ser marinho abissal, talvez”.  Vamos chamar este ser de “Brasuca Sintático”.

Retrato falado do sujeito.

Retrato falado do sujeito.

Segue a conversa, com comentários. Ficou longo e não me responsabilizo pelos efeitos colaterais da leitura – famílias, não me processem se o leitor morrer de rir.

Brasuca Sintático: Os dois modos estão corretos, um “país da América do Sul”, fica “na América do Sul”, da mesma maneira que se algo acontece em um país africano, acontece na África. Mas enfim, como eu detesto perder tempo com comentários que pouco tem a ver com o conteúdo da postagem, vou aproveitar a passada para *assuntos pertinentes somente à Globalmente Preocupada*. Fala sobre a prática da circuncisão feminina na Somália, um país africano que fica na África, logo a prática se dá na África.

carrossel-01Vamos voltar ao primário, quando a professora deu a lição de continente. Vamos lembrar as ilhas (que a África tem de monte) e os territórios em conflito (tipo a Caxemira, que ainda não decidiu se é Ásia ou Oriente Médio). Será mesmo que basta estar plantado ali no meio do continente pra ser do continente? Porque geograficamente, não existe África, Europa e Ásia.  O que existe é “Eurafrásia”, – as três massas gigantes, na verdade, são uma só. Então, a França também fica na África. E a Namíbia fica na Ásia. A China está na Europa. Será que os franceses praticam circuncisões femininas? Sabem como é. Eles estão na África.

Nós usamos definições continentais políticas e culturais. Aí, fica ainda mais perigoso de generalizar a dona África: nesses termos, o continente africano se divide em (pelo menos) dois, excluídas as zonas de guerra civil. E a Somália, fica onde nessa África? Não precisa ser entendedor de África pra saber disso, basta visitar a Wikipedia que ela conta algumas coisas. Dizer que “a prática se dá na África” dá muita confusão, e pouca informação. Cadê o Deus do Brasuca Sintático nessa hora? Talvez você só saiba disso agora, mas eu sabia quando li o comentário. A minha seriedade foi embora na hora.

Lekkerding: Quanta erudição, meu Deus. Vocês sabem tudo de África! Deve ser lá que ficam os elefantes, certo? Estou bestificada com tanta sabedoria à distância.

Brasuca Sintático: Quer que eu desenhe? Isso não tem nada a ver com saber tudo de África, mas saber o básico de gramática, mais precisamente sintaxe.

Então eu não preciso conhecer nada do lugar pra falar dele, basta ter sempre à mão o livro da Samira Challub. Viu, Dilma? Agora você já sabe. Não precisava nem saber o nome do Papa, era só decorar onde fica o objeto direto da coisa. É por isso que turistas se perdem na França: eles obviamente não sabem fazer o exame das frases, orações e períodos!

Lekkerding: Claro! Desenhe aí toda a sua sapiência africana do continente africano que fica na África. Por favor. Oh sim! Que gênio, meu Deus. Como pude esquecer da sintaxe da frase africana que fica na África?

Brasuca Sintático: Vc sabe o que é sintaxe?

E assim, vocês entenderam o batismo do novo membro do Panteão…

Lekkerding Acho que não sei, sabe? Estou tão chocada com tanto saber que me perdi.

Brasuca Sintático: Não duvido. Só isso explica vc tentar corrigir uma frase que não estava errada.

Mas o ser abissal não entendeu um dos meus muitos idiomas. Aí tive de ser clara.

Lekkerding: Claro. Com certeza. Só isso explica minha opinião sobre uma frase que generaliza práticas oriundas de colonização em dados países acossados por guerras civis a todo um continente cheio de coisas que o resto não entende. E só isso explica minha opinião se qualificar a seus olhos como correção, sendo que bati especificamente no conteúdo que a publicação propaga – conteúdo que reafirmo, generaliza de forma predatória. Mas tudo bem, é a sintaxe. Sua sapiência me rende. Só um instante, vou ali parar a Av. Paulista em protesto contra minha falta de sabedoria.

Brasuca Sintático: Seu erro esta em achar que a frase generaliza.

oraculos_historia_sem_fimFoi aqui que eu parei e fui questionar os Oráculos do Panteão. Porque a possibilidade desta que vos fala ter enlouquecido, ou errado feio, existe. Mas os Oráculos foram categóricos: a frase generaliza sim. E essa generalização pode induzir ao erro. A gente sabe que não é assim, que a informação remete a alguns pontos do continente inteiro. Mas o texto é direcionado pra todo tipo de público, e é bom especificar do que se fala – o objetivo era mostrar dados, então o correto era apresentar os dados específicos e não generalizar.

Como estava à toa, decidi aprimorar meus estudos em trollagem comunicativa nas redes sociais e continuei a conversa.

Lekkerding: Sim, perfeitamente, estou muito errada em ver que a frase “mulheres sendo mutiladas na África” não denota que mulheres são mutiladas na África. Essa frase, obviamente, denota que mulheres são mutiladas na Oceania.

Brasuca Sintático: Se fosse assim, dizer que neva no Rio Grande do Sul seria generalizar também. Vou explicar: Não neva em todas as cidades do RS, mas dizer que neva no RS não quer dizer que neva em TODO RS. Assim como dizer que mulheres são mutiladas na África não significa dizer que mulheres são mutiladas em TODO África.

A pessoa senta pra dar lição de sintaxe. A concordância verbal vai bem, obrigada. A concordância nominal não podia ir melhor.

Lekkerding: é precisamente por isso que não se diz isso. Regra número 1 da comunicação: especifique o conteúdo da mensagem e não induza o receptor a erro. Uma pessoa tão sintática certamente sabe disso.

Brasuca Sintático: Onde vc leu esta regra?

Lekkerding: Qualquer livro didático da 8ª série te dá essa, and others

Eu obviamente não pude indicar meus livros didáticos da oitava série – faz tempo que passei por lá. Faz muito tempo. Desculpem, mas na minha época, não tinha mamata de acordo ortográfico. E os ídolos adolescentes não cuspiam em seus fãs.

Brasuca Sintático: Eu estou te explicando as regras da língua portuguesa de acordo com o Bechara ( Gramático). Me indique um livro em que esta regra se encontra.

De novo: a pessoa senta pra dar lição de sintaxe, me apresenta isso de concordância e não se lembra das funções de linguagem e suas regras. Preciso dizer mais alguma coisa?

Brasuca Sintático: Outra coisa, alí não induz a erro nenhum. Não especificar e generalizar são coisas diferentes. E isso sim vc encontra em qualquer livro didático.

Guardem essa passagem, vocês vão rir daqui a pouco.

Lekkerding: Você pode consultar qualquer livro de comunicação e linguagem escrito por Maria José Constantino Petri ou Humberto de Aragão. Aliás, o prof. Humberto tem facebook e você pode tirar suas dúvidas por inbox. Mas sim, claro. Se você não especifica, nunca quer dizer que enquadrou o tema de forma geral e nunca quer dizer que a premissa abarcou o todo. Sua razão não alcança limites. Provavelmente, eu não tive nenhum livro didático bom pra ler, acho que só os seus me trariam a luz. No mais, obrigada por dividir tanta sabedoria gramatical e sintática. Agora eu preciso recolher meus erros fatais e minhas correções opinativas aos afazeres da vidinha.

Foi aqui que parei e fui cuidar de meus afazeres. Cachorros, trabalhos, projetos do blog, socorro aos amigues, ver o Thor sem roupa no trailer… Coisas normais do cotidiano. Mas quando voltei, vi o que se segue. Eu não consegui responder até agora, dói de tanto rir.

Brasuca Sintático: Generalizar: Tornar geral, difundir, vulgarizar: generalizar um método. Não especificar: Não determinar circunstanciadamente; Não enumerar todos os detalhes; Não esmiuçar

O ser abissal foi ao dicionário buscar o significado da palavra generalizar. Lembram quando ele disse que generalizar e não especificar não eram a mesma coisa? Qual é o quinto significado dado pelo dicionário do próprio Brasuca Sintático mesmo?

Brasuca Sintático: Professora de linguagem jurídica. Muito útil para discutir gramática. O mais interessante é que antes vc falou qualquer livro didático de oitava série…

A Profª Maria José Constantino Petri foi uma das melhores professoras que tive. Sim, ela me deu aulas de Linguagem Jurídica. Ela também possui doutorado em Linguística. Ah, ela é formada em Letras E em Pedagogia. Ela tem muito mais expertise no português que eu, você, o ser abissal e os Oráculos juntos. Notaram que nada foi dito sobre o outro professor indicado? O homem tem o mesmo calibre da mulher. Mas enfim, é o fim.

Sim, biscoito pro ser marinho abissal. Tio Putin da Rússia mandou. Fica na África.

Sim, biscoito pro ser marinho abissal. Tio Putin da Rússia mandou. Fica na África.

Aqui encerramos o Panteão dos Parvos, edição África. Agradecimentos aos Oráculos – que podem ou não aparecer por aqui, mas vocês só saberão quem são se eles quiserem se identificar – e a dona Shakira, que tornou tudo isso possível. Pela África, waka waka, ê ê. Até a próxima.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.