Pensando a Matrix

 

Você lembra como era a internets antes? Essa pergunta vai muito além de SOPA e de PIPA. Antes, era fácil decidir o que ver, o que querer e o que obter na nets. Mas as coisas mudaram bastante, não?

912966_700bMuito antes de SOPA, PIPA, ACTA e afins aparecerem, as coisas já tinham mudado, e sem interferência externa. O Google mudou a cara dos serviços mais “pop”: GMail, Youtube e Blogger. O Facebook também visitou o cirurgião plástico. Nem todos ficaram felizes com isso. Antes, a opção “mudar o visual” era garantida ao usuário. Não gostou? Configure à vontade. Agora, os tempos são outros. E trazem as mudanças mais estranhas do universo.

Vejam o Youtube: antes, o favicon era lindo. Agora, é simplesmente constrangedor. Isso, sem mencionar a interface chatinha e o pique – esconde dos “botões” de remover da lista, ou da tela inicial.

Enquanto estamos todos concentrados na SOPA, esquecemos o detalhe básico: a internet está tolhendo liberdades sozinha. Aliás, ela nunca deu liberdade a ninguém; só criou uma das ilusões mais doces da História.

Um estudante de Direito europeu descobriu esta doce ilusão no Facebook.

E outra: desafio vocês a eliminar as tão famosas listas. Essa parte é intrigante.

A lista sai organizando seus amigos. Você não pediu por isso, mas lá está ela, agrupando e dizendo quem deve estar em qual lugar. Como ela sabe que o amiguinho deve estar na lista X, e não na lista Y? Em tese, ela não deveria saber. Ela não deveria remexer todas as suas informações – e dos seus amigos – pra combinar os lindos logaritmos do jeito dela e infernizar sua vida. Isso, sua mãe já faz.

Não precisamos falar do controle das informações compartilhadas, certo? Todos estão carecas de saber que os critérios pra classificação de “spam” e “conteúdo malicioso” do Facebook não são, exatamente, imparciais.  O legal é que nem nas mensagens privadas, as pessoas podem repassar o que quiserem.

O Google está trilhando o mesmo caminho. Adicionar serviços à sua conta é muito sedutor, mas se não gostar… Tente desvincular, e conheça o inferno.

Segue o depoimento de uma usuária do GMail, pra não deixar dúvidas:

“Não adiantou eu NÃO querer mudar meu GMail para a ‘nova aparência’. O treco mudou sozinho, e o comandinho de “voltar para a aparência anterior” já avisa que é só ‘temporariamente’. #quedizê… não tenho escolha. Bora digerir a nova aparência compulsoriamente. ¬¬”

Quando a internet “começou”, era uma maravilha. E fomos todos pelo buraco de Alice. Agora, o jogo começou a mudar. O povo reclama do governo, mas o Obama não está fazendo isso. Nem a Dilma. David Cameron, menos ainda.

Estamos sendo lentamente encaixotados, justamente naquilo que mais gostamos na nets. E acho estranho ver os gigantes bradando “stop SOPA”, enquanto colocam a sopinha na surdina. Porque eles andam impondo padrões ao que supostamente dependia do seu arbítrio, e que só você controlava.

Não digo que a empresa não pode mudar o visual, ou trazer novidades ao usuário. Digo apenas que é direito do usuário não gostar desse visual novo e continuar no antigo, ou não usar a novidade – e se usar, ter liberdade para configurar como quiser. Não era essa a premissa da internets?

E eis que me pego sentindo falta de algo que me permita questionar o Google sobre o paradeiro do meu “remover” no Youtube, ou solicitar ao Facebook que desabilite as listas padrão adicionadas ao meu perfil por livre e espontânea pressão. Esse algo não é o SAC das empresas – o honorável estudante de Direito já ensinou, e a Telefonica está cansada de provar que quem menos resolve problemas para o consumidor é o SAC, certo?

Regular a internet. É saudável. E é necessário. Porque sem regular, estamos à mercê de quem entende, e controla. Claro que não devemos deixar isso na mão de velhinhos babões que mal sabem usar um celular, mas precisamos pensar nisso urgentemente. Ou voltaremos todos para a caixa.

E pra quem acha que está tudo ótimo… Mark Zuckerberg sempre dará um chocolate.