Pobreza e violência

Alô vocês, que provavelmente não achavam que eu voltaria tão cedo. Também achei que tinha tempo de sobra para preparar um texto bacana – e não tão revoltado – quanto o último. Mas a Humanidade adora exibir seus exemplares mais pobres e podres na minha frente. E graças a isso, vocês ganham mais um membro do “ilustre” Panteão dos Parvos.

Vamos à situação: são 21:00. Você, pessoa super cansada do trabalho, com um pouco de febre e tarefas pendentes, está na cozinha de sua casa preparando um chá – mate de limão com leite, recomendo vivamente – quando seu cão começa a latir. Ah, o seu cão. Digamos que não é exatamente o canídeo mais sociável do planeta. Mas é um cão de guarda e já foi herói da rua algumas vezes – porque foi o latido incansável do Cão Chatão que alertou sobre furtos de carros em andamento, e até uso de drogas pelos hipsters da rua.

Pois bem, seu cão está latindo. Há um homem estranho fazendo xixi pelos muros da rua. E seu cão não gosta nada disso. Como ele não pode passar pelas grades do portão e aniquilar o mijão, o que seu cão faz? Ele late. E late. Ele vai latir até você aparecer pra tratar do assunto. Mas antes que você tenha essa oportunidade, um estouro.

Um tiro, será? Você corre pra ver – e chega ao portão no exato momento do segundo estouro. Não era um tiro. Era um ovo. Na cabeça do cão. OVO. CRU. E antes que você possa balbuciar qualquer palavra de horror, vem o terceiro ovo.

Pois bem. Agora, você tem um telhado danificado, um cachorro machucado e três ovos fedidos e quebrados no quintal. Você sabe quem fez isso? Infelizmente, sim: foi o vizinho da frente, que se diz “diferenciado” por pagar quase 3 mil reais em condomínio e ter uma piscininha nos fundos do prédio. Um vizinho que não gosta do cachorro latindo e que já até tentou cegar o cachorro com aquelas canetinhas de laser – mas nunca, NUNCA, tocou sua campainha pra dizer “ei, seu cachorro incomoda”.

O mais legal é que, ao reclamar, você percebe que todo o condomínio – começando pelo porteiro, que te trata mal e ainda se faz de coitado enquanto ri de você no interfone com o morador suíno – protege o animal que fez isso. A coisa fica melhor: olhando nos seus olhos, o morador suíno diz “você está imaginando coisas, mas talvez nada disso ocorresse se você silenciasse o cachorro”.

Agora, fica a pergunta. O que incomoda mais? Crimes ocorrendo, gente mijando nos muros, marchas particulares da maconha nas calçadas, ou um cachorro latindo pra espantar tudo isso?

É o tipo de coisa que me revolta: POBREZA. Porque essa pessoa é miserável o suficiente pra maltratar um animal, humilhar uma pessoa e ainda sair sorrindo, totalmente convencido de que nada vai acontecer. É pobre o suficiente pra dizer “prove que eu fiz, e enquanto tenta provar isso, livre-se do cachorro”. Cadê a comunicação? Cadê o bom senso? Porque em anos na mesma praça, no mesmo banco, nas mesmas flores e no mesmo jardim, ninguém – NINGUÉM – disse, nem uma vez: “o cachorro late muito”.

Se é válido atirar ovos crus na cabeça de um cachorro – e se você teve adolescência, sabe que ovo jogado dói – então faz todo o sentido atirar óleo fervente em cada idiota que resolve soltar fogos e gritar como Dom Pedro às margens do Ipiranga cada vez que algum time faz gol. Encher o idiota do ônibus que ataca de DJ do funk com seu celular (sem fones), também pode. Podiam ter dito antes: muita gente perdeu o celular na minha mão pela CPTM. Se eu soubesse que era liberado atirar a pessoa na linha do trem por isso, faria de bom grado.

É isso. O pior é que pode acontecer com qualquer um que tenha vizinhos que se acham melhores que qualquer organismo vivo nesse planeta, a ponto de não precisar usar palavras. E é por isso que este ANIMAL entra para o Panteão dos Parvos: porque conseguiu se mostrar pobre, estúpido e imbecil o suficiente para estar aqui, sem uma palavrinha que fosse.

Era só um desabafo. As implicações destes eventos, vocês verão nos próximos capítulos – ou acharam que eu ia esquecer do meu grande amigo Poder Judiciário? Jamais. See ya.