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Pocotó, pocotó

Há 100 anos, demorávamos meses para saber do que ocorria no mundo, e hoje assistimos o mundo todo ao vivo. Agora tem esse monte de coisas pra saber, discutir, analisar…

Somos bombardeados por informação. E ela continua um dos bens mais caros da Humanidade. A razão é simples: são poucos os que podem interpretar. Ainda mais raros os que entendem o poder contido nessa palavra; contar os que sabem operá-lo seria simplesmente cruel. Diante da tentativa, sinto-me uma idiota. Imagina quem lê.

Convivemos todos os dias com gente brilhante, gente mediana, gente burra e gente que simplesmente não sabe. O problema é observar, todos os dias, gente que sabe, gente que leva com a barriga, gente que não leva e gente que simplesmente não sabe andando juntos, interagindo, “trocando” coisas. Em tese, todo mundo aprende.

Essa é a teoria. E como todas as teorias no mundo, é linda. Mas na prática, é outra história.

Fará mais sentido para as pessoas legais que decidirem ler o livro de Luciano Pires, Brasileiros Pocotó.

Por incrível que pareça, Luciano não fez 155 páginas falando mal do Brasil. Ele disseca, com precisão, tudo que o país poderia ser. Fala com muito entusiasmo das coisas que já é. E surpresa, nenhuma dessas remete a futebol, carnaval ou mulheres. O quadro tupiniquim pintado por Luciano Pires é animador.

O que nos leva à pergunta óbvia… Então, por que “pocotó”?

Na minha opinião: temos gente mediana demais. E a culpa é nossa. O analfabeto não é o “tadinho” que não sabe assinar o próprio nome. É o cara excluído do mundo por não ter ferramentas pra processar aquela coisa cara que citei: informação. É uma folha em branco, onde podemos escrever o que quisermos. E como ele não tem base, ele aceita o que dermos.

Ahá. E muita gente deu o que queria. E como queria. E quando queria. E vejam onde deu.

Nossas folhas em branco ficaram medianas. São garatujas, dão pro gasto. Elas agora “têm” ferramentas para “processar” o bem mais caro da Humanidade, conforme a vontade dos que realmente interpretam, compreendem e operam este tesouro. Não processam como deveriam; mas conforme a demanda dos outros. E fomos moldando garatujas prontas a processar somente a informação que nos interessa, como ela interessa, quando nos interessa, até onde convém.

Estamos um país de PATOS. Lembram da metáfora do pato? Um dos animais mais completos da natureza. Ele nada, voa, corre e anda, mas não pode fazer nada disso direito. Apesar de poder fazer todas essas coisas, ele não nasceu pra fazer nenhuma delas. Então, tudo que ele faz fica “mais ou menos”. Meia boca. Ele funciona, dá pro gasto. Mas em longo prazo, é uma péssima idéia ter – ou ser – um pato.

E você, que se sentiu ofendido com essa, pense nisso: estamos em ano de eleição, e o Brasil só consegue pensar em Tessália, Serginho, Dicesar, Rebolation, Gaga, Helena… Mas elas não conseguem debater seus candidatos. Não conseguem pesar prós e contras e olhar o quadro político do país. Elas acham chatíssimo ler o cabeçalho de uma carta-proposta, avaliar as ações daquela pessoa – ou partido – na situação E na oposição. Elas vão assim, medianas, sendo analistas de BBB e em outubro jogarão o voto na urna como quem joga chiclete velho no lixo.

E quando estivermos na próxima “pior crise dos últimos tempos” ou no próximo “maior ultraje ao povo brasileiro”, elas dirão que a culpa é do governo. Vão berrar que voltamos à ditadura, vão pedir o adeus da censura, vão falar do absurdo da tonga da mironga do cabuletê. E assim, elas vão refletir você… E o país. É isso que ocorre quando temos gente mediana demais agindo pelo futuro do país: ele deixa de ser uma obra de arte. Vira garatuja, à imagem e semelhança de sua nação.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.