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A polêmica do nascituro

Direto ao assunto: o Sakamoto criticou o chamado “Estatuto do Nascituro”, e ao opinar, deu até uma pitada de preconceito.

“Inferno e o limbo não existem. Mas não é todo mundo que sabe disso.”

Uma frase desnecessária, que coloca religiosos – católicos, protestantes, espíritas, umbandistas, budistas e afins – no mesmo balaio: o dos idiotas. Ainda afirma que dado nicho tem um conhecimento superior aos demais.

Deixa contar um segredo: tem gente que acredita (não interessa no quê. Allah, Goku, aliens, enfim). E tem gente que não acredita. Mas ninguém sabe de nada. Nem o Sakamoto – esse “conhecimento” dele deve pertencer à mesma categoria dos “fatos científicos” do Silas Malafaia. E no fim das contas, todos – acreditando ou não – vão virar adubo. Essa certeza das inexistências me irritou profundamente. Prepotência demais.

Prosseguindo… Sejamos sensatos. A Constituição garante nosso direito de existir. Qual o problema de resguardar a expectativa desse direito? O nascituro é isso: a expectativa de ter direito a viver. Isto não exclui a escolha da mulher.

Talvez o Sakamoto não tenha visto o projeto de lei atualizadoa versão de capa do andamento ainda é a antiga. Se for isso, até desconto. Se não, esclarecendo: não há extinção das permissões legais para abortar, e menos ainda brecha para isso. Ele também não dá direitos ao feto, até porque ele faz reservas, o que é completamente diferente. Nesse caso específico do estupro, dá recursos para uma escolha feita.

Aliás, é bom lembrar: o aborto no caso de estupro é direito da mulher. Ela faz se ela quiser. E se ela não quiser fazer? Será punida pelo resto da vida por isso? Essa súbita revolta com um projeto de lei que pensa nesse lado da moeda demonstra que vocês não estão preparados pra lidar com as escolhas que as mulheres fazem.

Ohio quer dar a ela e às outras $25.000,00 por cada ano perdido no cativeiro. E vocês vão falar que é bolsa-sequestro.

Ohio quer dar a ela $25.000,00 por ano perdido no cativeiro. É  bolsa-sequestro.

Você pode não conceber isso, mas acontece. Ainda não completamos um mês do resgate das vítimas de Ariel Castro, e duas delas possuem filhos de estupros. Pelo menos uma delas escolheu ter esse filho.

Ah, estão todos falando das mulheres, dos criminosos, do dinheiro… E esqueceram as crianças.

Alguém parou pra pensar nessa criança, que NÃO pediu pra estar no meio do barraco? Ela já carrega um estigma horrível por vir dessa coisa hedionda, e vocês aí, revoltadinhos com pensão. O maldito que fez isso não vai se apresentar pra cuidar. Alguém tem que ajudar. Mas parece que isso é inconcebível também.

Acredito ainda que esse estatuto abre caminho para a descriminalização do aborto. As linhas da expectativa estão traçadas: agora é formular o como, o quando e o onde da frustração dessa expectativa. Porque a Carta Magna gosta de gente viva e bonita, mas também gosta de gente digna e feliz. O planejamento familiar (ou seja, sustentabilidade daquela expectativa de vida) é decisão da família. No caso, da mãe – não, o maldito não tem voz nenhuma nisso.

Não entendam mal. Sou a favor da descriminalização do aborto, por razões óbvias. Mas sou objetiva. O Estatuto do Nascituro não é um prelúdio às burkhas, só resguarda a expectativa de todo mundo de viver. Mas… No fim das contas, sabe quem decide? A proprietária do útero. Foi a Constituição quem disse.

Mas acho que nem todos sabem disso… Não é mesmo, Sakamoto?

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.