blog-post-img-539

Proclamação da República

Não liguem se eu disser coisas risonhas e límpidas. Eu achei esta semana um pouco parada demais.
Só “amenidades” no jornal. Ocupação da Rocinha e UFC dividem espaço no Jornal Nacional. No próximo bloco, o drama do Neymar fica ao lado de mais um episódio da saga “derrubada dos ministros”. E não podemos esquecer o bloco seguinte, aquele especial com direito a editorial do Arnaldo Jabor, sobre os estudantes da Revolta da GAP – ou talvez decidam tratar o câncer do Lula de novo. Este sim, um assunto de destaque.
Talvez seja hora de seguir o conselho da Marta Suplicy, e relaxar – dentre outras coisas. Ok. Para quê falar de política mesmo? Vamos nos entreter com coisas mais esperançosas,brilhantes, risonhas e límpidas.

Este feriado traz o dia da Proclamação da República. Vamos comemorar, somos brasileiros, um povo que não desiste nunca. Um povo que se orgulha de si mesmo. Que se reconhece, se valoriza, se respeita e se ama. Há ode melhor a este povo, que seu hino?
Sim, estou falando do hino nacional. A grande ironia: o país tem 4 hinos. Cada estado tem seu hino também. Alguns municípios têm hino… Só um é conhecido. Então, tá bom. Fazer o quê? Vamos rir, e olhar o hino nacional conhecido do povo desse Brasil varonil.
Esse mesmo hino, que fazem questão de ensinar errado – ou cantamos um hino inteiro, ou não cantamos. Deve ser por isso que os nossos atletas penta-estelares sempre passam vexame em campo, na hora da cantoria que se transforma em dublagem mexicana mal feita. Cada palavra (desconhecida) do hino é verdadeira para todos nós. Vamos a elas, deixemos o Hino Nacional cantar nossas qualidades.
Heróis. Nunca desistimos, é verdade; isso, porque não começamos nada. Fazer algo concreto pelo país parece trabalhoso demais. É melhor ficar em casa, acompanhando tudo pela Globo News. Somos verdadeiros heróis da passividade, da leniência e da servidão. Somos nós os heróis que NÃO lutam todos os dias por sua pátria. Nós permitimos que aqui se faça um picadeiro sem limites, pra xingar muito no Twitter depois.

Iguais. Somos todos iguais perante a lei, mas só quem mora na favela é criminoso. Somos todos filhos de Deus, mas só são realmente abençoados os filhos dos doutos políticos e celebridades, que moram todos no Leblon ou Moema e não passam por dificuldades – papai tudo resolve num boletim não-publicado (vulgo ato secreto). Sim, nós brasileiros somos todos iguais, até acharmos um pretexto pra nos sentirmos melhores que o povo – porque povo são os outros, sempre.

Belos. Somos sim, todos nós. Exceto quando não somos descendentes da Xuxa ou do Taffarel, disse o sábio Chico Buarque. Somos todos belos, se tivermos as medidas divinas de Paulo Zulu ou de Gisele Bündchen. Somos todos fabulosos, exceto quando temos medidas tipicamente tupiniquins. Somos todos belos, quando nossa anatomia NÃO é daqui.
Fortes. E quem pode negar a força da inércia em que estamos imersos? Estamos cogitando privatizar ou terceirizar serviços que são de competência exclusiva do Poder Público, como a segurança. Somos fortes, sim. Fortes o suficiente para sermos fracos e frouxos diante dos outros e virarmos as costas para nossos irmãos e nossa terra.
O hino descreve um país cheio de maravilhas. A rosa mais bela, em botão, do Novo Mundo de outrora. A realidade é outra; os campos hoje já não têm flores, mas areia ressequida, morrendo com o povo que Luís Inácio – hoje picareta com anel de doutor – jurou ajudar. Jurou, não. Ele prometeu. E promessa, como a desculpa, não existe.
Os bosques hoje já não têm vida, pois são queimados impiedosamente para alimentar o gado que mais tarde morrerá da forma mais cruel possível. A parte mais bonita da História é sentarmos no sofá pra ver a novela enquanto o Poder Legislativo legitima o circo no Código Ambiental.
A glória do passado está coberta de vergonha. E a paz do futuro depende da clava de porcelana da nossa justiça, que ignorada, observa os filhos da pátria correndo de toda a luta necessária para pôr o país nos eixos. O destino deles? O último capítulo de O Astro.
Talvez a única coisa certa no hino seja o firmamento estrelado, que vez ou outra aparece sobre nossas cabeças. Coberto por um véu espesso e cinzento, oculto por belos arranha-céus. Mas ele está lá.
Pátria amada por tantos, idolatrada por outros tantos, salve. Brasil de sonho, de esperança e de futuro, desde que nasceu. E cento e vinte e dois anos depois República, continua aqui, esperando o futuro chegar – e crente que nada precisa fazer para que isso aconteça. Estes são seus filhos, pátria amada, e você retribui o afeto com a mesma moeda: trouxe ao mundo representantes mui dignos desta gente que aí está.Parabéns, Brasil.
Se você lê o TSL desde 2009, teve um leve déjà vu neste texto. Você não está louco. A ocasião parecia propícia. É preciso lembrar a todos, sempre, que nós é que fazemos o país que temos. NÓS. Não o Lula, não a Dilma, não o Sarney, não o Fernando Haddad. NÓS.
O que você fez pelo seu país hoje?
Na próxima, vamos logo falar do problema da USP, antes que o Fantástico e o MNN consigam a tão sonhada lavagem cerebral.

Lekkerding 237 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.