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Que beleza, que bonito, todo mundo mundo burrinho

Eu traria mais pizza, mas acho que o tempo da digestão precisa ser respeitado. Até porque, hoje é dia de mais um assunto espinhoso. A semana mal começou, e já estamos aqui atolados de polêmicas a serem discutidas por longos 3 dias – é o prazo de validade dos debates saudáveis na era da internets, onde tudo viaja rápido, é absorvido e jogado fora sem muita cerimônia.

Neste fim de semana, estava eu online e feliz aproveitando os embalos virtuais de sábado à noite – não que interesse, mas foram ótimos; e eu NÃO sou nerd – quando vi de relance uma piada muito besta passando pelo Tweet Deck. Não vi o autor da postagem; não dei muita bola, porque não costumo responder ao que não me agrada. E de repente, solicitam meu parecer no MSN, com os seguintes dizeres:

“Olha lá no Twitter. Racismo!”

Tico e Teco fizeram as sinapses necessárias e em cerca de 3 segundos eu me toquei. As portas do inferno da blogosfera estavam prestes a ser abertas. Vejam só, sou praticamente a Mãe Dinah.

Na madrugada fatídica de sábado para domingo, Danilo Gentili fez uma alusão dúbia a macacos – e o gado twitteiro associou a discriminação racial. Depois de responder algumas vezes – o que realmente complicou a situação, porque em vez de simplesmente dizer “foi uma piada”, ele resolveu justificar e embelezar o comentário infeliz – Danilo prometeu um post, e fez. Tudo muito ingênuo, muito válido, muito Heal the World – e sendo sincera, eu acho que nunca vi o significado sociológico das músicas de MJ caírem tão bem no contexto.

O pior é que a semana passada recebi uma série de presságios funestos deste momento: posts falando da misoginia contida do #lingerieday, “evento” promovido no Twitter; da hipocrisia contida no rebatismo da gripe suína para gripe A – porque Deus nos livre de sujar o nome dos pobres porquinhos, mas dissecá-los vivos para obter bistecas mais suculentas, isso tudo bem – além dos vários posts canonizando Michael Jackson(agora é tarde, deveriam ter reconhecido quando era vivo), as cartas de repúdio ao Dia Internacional da Mulher, as manifestações de raiva contra o julgamento do STF para considerar a união homossexual entidade familiar, cartas abertas sobre a disparidade entre a campanha da Dove e artigos sobre como emagrecer da revista Cláudia, enfim… Foram tantos os presságios, e eu me esqueci da sábia frase de Chris Rock, no show Never Scared: “Niggers and jews are next. That train is never late!”

*tradução: negros e judeus são os próximos. Este trem nunca tarda!*

Pois é. O trem está na estação – desta vez conduzido pelo humorista Danilo Gentili, integrante da equipe do CQC. O questionamento do humorista é simples: por que eu não posso chamar um negro de macaco, negro ou afins? Por que eu preciso me censurar quando resolvo usar certos termos? Qual é o problema nisso?

O Brasil é, infelizmente, o país espelho da cegueira de Saramago. Aqui, enxergamos tudo branco e leitoso; essa imagem é mais bonita que a realidade construída por nós. Nós aqui enxergamos que racismo não existe, porque somos um país miscigenado e não há como discriminar ninguém, pois todos temos ascendência africana, em maior ou menor grau. Temos essa linda imagem do Brasil de país livre de qualquer tipo de preconceito, com uma sociedade esclarecida e liberal. É, digam isso ao Grafite. Digam isso ao Richarlysson. Avisem a Soninha desse fato. Seria bom também avisar o MV Bill. E a todos os anônimos que sofrem com o preconceito nesse país, dia após dia, em suas mais variadas nuances.

Querendo ou não, palavras como estas utilizadas pelo Danilo Gentili tem em sua bagagem mais de 700 anos de associações grosseiras e negativas. Isso, falando em Black or White(olha o MJ aí, gente!). Se formos falar das bases de preconceito contra homossexuais, os zeros aumentam consideravelmente. Vamos brincar de ver há quanto tempo o preconceito religioso anda nesta terra? Se começarmos a caçar as bases disso, teremos um problema – porque não há Memória Viva para registrar tantas manifestações de ódio do ser humano. Mas podemos ligar esse problema(sou boazinha quando chamo de problema) a duas coisas principais: primeiro, à necessidade de localizar, estudar e justificar as diferenças. Segundo, à necessidade de determinar quais destas diferenças são melhores, conferindo superioridade a quem as possui. Este mal cresce em escala global – não é só no Brasil que tem gente se achando a última bolacha do pacote; mas é justamente nessa nação cheia de amálgamas e contrastes que sofre mais para lidar com essa erva ruim, nascida e cultivada nos corações humanos há tanto tempo.

Há quem questione as cotas raciais, há quem questione as rosas no dia 8 de março, há quem questione os concursos de beleza, as receitas de dieta, os remédios mágicos, os padrões de propagandas, tudo. As pessoas gostam de questionar. Mas tentar compreender o contexto e modificá-lo é que anda raro. Estão todos tão empenhados em acusar ou defender Danilo Gentili – socorro, depois de vê-lo comparado a Mandela e Michael Richards, eu quis pegar o Demerol de MJ – que perdem o ponto principal: antes de questionar a ordem, precisamos saber a razão de sua existência.

Eu sei que nenhum dos que hoje estão aí pela nets sofreu como os antepassados – brancos, negros, indígenas, orientais, vulcanianos e afins – mas os que aqui estão sofrem com algo pior: as conseqüências dos atos de outrora. Porque os preconceitos estão todos tão intrínsecos e institucionalizados que não podemos sequer enxergá-los para começar a dedetização. Então, tentamos ignorar e começar do zero: daí nasceu o chamado politicamente correto. Botar uma pedra no assunto e tentar seguir em frente, elaborando medidas que tentem ao menos compensar os males causados.

As pessoas esquecem que foram 700 anos de preconceito embasado no fato de que por terem a cor mais escura, eram coisas sem alma. O africano era na época o que o porco é hoje – até menos. Falando em preconceito contra as mulheres, são mais de 1000 anos de preconceito. Falando em preconceito contra os povos do Oriente, vai mais tempo. Entendam que não falamos apenas da escravidão, instituto de cenários pós-guerra existente até hoje – alguém aqui finge que NÃO sabe por que o petróleo iraquiano foi distribuído entre as corporações americanas, espanholas e inglesas? Não façam pouco da minha inteligência – mas da coisificação do ser humano e da imposição da condição de sub-humanidade imposta por determinado nicho “dominante” aos nichos “dominados” por séculos a fio. É disso que falamos. E não se consegue ainda medir completamente o impacto que esses séculos passados tiveram nos dias de hoje.

Eu sei que hoje, todo mundo – em teoria, a tese é sempre tão bonita – já seguiu o conselho do rei morto e começou a mudar pelo reflexo do espelho(olha o MJ aí, gente! De novo). Mas ainda assim, temos um caminho muito longo pela frente antes de rirmos das piadas bestas que surgem por aí. E como podemos ver, ainda não é hora de quebrar as barreiras construídas por tanto tempo usando justamente os símbolos que dela nasceram e que por tanto tempo foram sinônimo de dor e de sofrimento – e que, não se enganem, ainda são. Já disse antes, e repito: a melhor forma de acabar com esse tipo de manifestação – seja ela a ação ou a reação – é acenar com as cores da igualdade, e não hastear as diferenças. E nem mesmo o humor está acima disso: o grande erro do Danilo Gentili não foi soltar a piada besta que soltou. Foi tentar justificá-la e embelezá-la em seu post. Fato, Danilo, você já foi chamado de girafa; conheço pessoas que já foram chamadas de elefantes, baleias e afins. Eu mesma chamo as pessoas de pacas às vezes. A grande sacada é que, como já disse o Hélio de La Peña, você nunca vai ser parado numa blitz apenas por ser chamado de girafa.

Mas enfim. Já disse isso antes, e digo de novo, antes que esse post fique imenso – grande ele já está e eu não posso evitar. Esta fuzarca toda em cima do assunto lembra-me um texto escrito por Machado de Assis, chamado A Igreja do Diabo. Nele, o autor aborda com uma sagacidade inigualável a volatilidade do ser humano dentro da estrutura rígida e estúpida de maniqueísmo que ele criou pra si. O que mais dói, nesse conto, é que praticamente todas as premissas que ele estabelece são verdadeiras: o ser humano não consegue se manter fiel aos parâmetros que ele mesmo cria, e tenta sistematicamente destruí-los – colocando sempre a culpa nos outros, claro. O Danilo tentou, como outros antes dele, desconstruir uma “convenção” social vigente. Recebeu críticas. Não soube lidar com elas. E a culpa, meus caros, é dos outros. Enquanto isso, pizza no Senado que saiu de férias – espero que todos peguem a gripe A e cantem com MJ, o morto mais vivo da atualidade.

Lekkerding 236 posts

Cúspide e Gêmeos e Câncer. Corinthiana não praticante. Indie até os ossos. Advogada. Blogueira. Eterna estudante. Jogadora de handebol e de rugby, aposentada compulsoriamente. Fã de cerveja, de um bom papo, da internets e da (boa) política. Amante de David Bowie e de Florence & the Machine. Chata. Sem mais.

  • Lekkerding

    E aí, mora nosso problema.

  • Diógenes

    O preconceito foi é o fundamento, o alicerce sob o qual se construiu o Brasil. O preconceito esta tão impregnado na profundeza molecular da gente, que a gente até pensa que ele não existe.

"Quem sabe respirar o ar de meus escritos sabe que é um ar das alturas, um ar forte. É preciso ser feito pra ele, senão há o perigo nada pequeno de se resfriar. O gelo está próximo, a solidão é monstruosa (...) Quanta verdade suporta, quanta verdade ousa um espírito? Cada vez mais tornou-se isto pra mim a verdadeira medida de valor. Erro não é cegueira, erro é covardia... Cada conquista, cada passo adiante no conhecimento é consequência da coragem, da dureza consigo, da limpeza consigo... Eu não refuto os ideais, apenas ponho luvas diante deles... Lançamo-nos ao proibido: com este signo vencerá um dia minha filosofia, pois até agora proibiu-se sempre, em princípio, somente a verdade."

Friedrich Nietzsche

Porque toda semana - lembrem-se, minhas semanas são relativas - deixarei algo bacana pra vocês verem/ouvirem. Espero que gostem das escolhas.